Rio, a Chicago de Al Capone, 1929, um império do crime

Pedro do Coutto

O brutal assassinato da juíza Patrícia Acioli, sejam quais forem os culpados pela execução, traição e omissão que levaram ao crime, remete o Rio de Janeiro à densa atmosfera de terror de Chicago, 1929, quando Al Capone imperava determinando a morte de pessoas, a destruição de lojas cujos donos não aceitavam a extorsão, mandando e desmandando. Hoje, em meio ao luto em nosso estado nos deparamos com um gravíssimo retrocesso no espaço e no tempo.

Reportagem excepcional, de grande  importância jornalística, foi a publicada pelo O Globo de sábado, assinada por Ana Cláudia Costa, Atos Moura, Carla Rocha, Elenice Botari, Sérgio Ramalho, Vera Araujo, Chico Otávio e Antonio Werneck. Magnífico trabalho. Envolveu todos os ângulos essenciais da questão. Foram 21 tiros contra a vida humana, contra a Justiça, contra a civilização, contra a sociedade brasileira. Toda população foi simultaneamente ameaçada e atingida.

Um gravíssimo retrocesso no tempo e no espaço com o ressurgimento de métodos semelhantes aos de oitenta anos atrás. Os criminosos selam seu destino, título de antiga coluna de O Globo, e o destino dos outros. No caso  o terrível desfecho de Patrícia Acioli, a mais recente vítima do crime organizado. O estilo é idêntico ao de Alfonse Capone que, de capanga de John Torio, a quem depois assassinou, assumiu o comando do crime e partiu para a extorsão, cobrança por falsa proteção, exploração de atividades ilegais, domínio sobre a comunidade, torturas e assassinatos. Silêncio das testemunhas. Enfim tudo o que se pode reunir de pior no comportamento humano. Execução de magistrados, promotores e policiais honestos.

A Polícia da capital de Illinois estava parcial e sordidamente cooptada. O presidente Herbert Hoover reagiu sem êxito ao império do crime. Mas seu sucessor em 32, Franklin Roosevelt, acionou os federais. Entraram em cena os intocáveis de Elliot Ness, cuja atuação saneadora e decisiva inspirou obras cinematográficas de alto valor artístico e político. Capone terminou sendo preso em 34, cumpriu pena até 1947. Morreu pouco depois. Estou fazendo o cotejo de duas épocas porque possuem conotações idênticas, caráter semelhante, além da falta desta qualidade comum na Chicago de ontem, rotineira em nosso país de hoje. Duas faces no mesmo espelho.

A segurança pública daquela cidade americana fracassou. A do RJ está fracassando. O assassinato da juíza Patrícia Acioli comprova o desastre e diminui, por reflexo político, o êxito das UPPS do governo Sérgio Cabral. Pois deixa claro que elas atuam apenas pontualmente, partindo de uma trégua tática em torno do trafico  de drogas e suas armas, mas longe de resultados estruturais concretos como a população espera e exige. Tem direito a exigir, pois desembolsa impostos para isso e, em vários casos, paga também com a própria vida. O caso de Patrícia constitui um emblema e um exemplo.

Emblema de insegurança, exemplo da absoluta impossibilidade de se negociar – seja lá o que for – com bandidos, traficantes, extorquidores, chantagistas e ladrões. E mesmo com corruptos de várias espécies. Este, inclusive, é o desafio por parte do crime e seus múltiplos aspectos. Não se dirige somente ao governador Sérgio Cabral, dirige-se também a todos os governadores e à presidente Dilma Roussef.

Não importa que os criminosos atuem em faixas sociais diferentes, tanto faz ladrões de casaca, ou facínoras do lúmpen. São, todos eles, violadores da lei, destruidores da civilização e, direta ou indiretamente, da sociedade e da vida humana. Como na pérfida emboscada que roubou a vida de Patrícia Acioli.

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