Rio mais 20 e Brasília menos 513

Carlos Chagas

A reunião do Rio+20 poderá gerar uma série de iniciativas fundamentais para a sustentabilidade do planeta, mas serve de desculpa para tirar a sustentação do Congresso. A próxima semana será, também, de Brasília-513, porque a Câmara dos Deputados não vai funcionar. Suas Excelências estão liberados para freqüentar a conferência ambiental, ainda que boa parte não deva sequer passar pela antiga capital, tomando a maioria o rumo de seus estados para as festas de São João. No Senado, há dúvidas sobre se pelo menos os integrantes do Conselho de Ética permanecerão no Distrito Federal para decidir sobre o futuro do mandato do senador Demóstenes Torres. Mas sessões deliberativas na Câmara Alta, de jeito nenhum, conforme decisão do presidente José Sarney, à maneira da mesma iniciativa tomada por Marco Maia, presidente da Câmara.

A CPI do Cachoeira não tem marcada qualquer reunião, nem mesmo as administrativas. Melhor para seus integrantes, que terão uma semana para ver assentada a poeira do vexame de quinta-feira passada, quando por maioria decidiram não convocar para depor Luís Pagot e Fernando Cavendish. Erra quem disser que não dá para entender a negativa, porque entende-se muito bem: PT e PMDB uniram-se e continuarão unidos para preservar o governo federal.

O governo federal? Claro, porque tanto o ex-diretor geral do Denit quanto o ex-presidente da Delta Construções poderiam revelar a participação de altos funcionários do Executivo, até ministros e ex-ministros, envolvidos no superfaturamento de obras, no recebimento de propinas e na formação de quadrilhas. Para não falar no envolvimento de partidos políticos.

Claro que a presidente Dilma Rousseff nada tem a ver com a lambança praticada em torno das obras do PAC, a cargo das empreiteiras e com o beneplácito de alguns ministérios. Mas o barro que seria jogado no ventilador respingaria no governo dela. Sendo assim, companheiros e peemedebistas uniram-se para blindar o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios. Como para blindar-se, também.

Por tudo isso, uma semana de folga parlamentar surge providencial. Ficam faltando os últimos sete dias do mês, que serão devidamente enrolados até chegar o recesso de julho . Aí, pernas para o ar, que ninguém é de ferro…

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SIGA O DINHEIRO

Na novela de horror que foi Watergate, nos Estados Unidos, um capítulo essencial serviu para apontar o final feliz que foi a renúncia do presidente Richard Nixon. Coube ao Garganta Profunda, aliás recentemente falecido, aconselhar um dos jornalistas do Washington Post para que “seguisse o dinheiro”.

Na CPI do Cachoeira bem que esse conselho poderia dar certo. Acompanhar os bilhões destinados a obras concedidas à empresa Delta serviria para identificar corruptos e corruptores, mesmo se em muitos casos as propinas tiverem sido pagas em espécie. Começar pelos contratos aditivos que duplicaram preços acertados nas concorrências também seria um bom começo.

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QUEM FOI COMPRADO?

O senador Álvaro Dias ocupou ontem a tribuna do Senado para cobrar de seus colegas da CPI, algum dia, uma pergunta principal ao ex-presidente da Delta: “qual o senador, ou quais os senadores, que o senhor comprou por 6 milhões de reais?”

Como representante do PSDB, ele acusou superfaturamento na maioria das obras do PAC, apesar de quase todas paralisadas. Denunciou um conluio entre o PT e o PMDB.

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ANTECIPANDO O TRABALHO

Ouve-se nos corredores do Supremo Tribunal Federal que, à exceção dos ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, já tendo completaram seu julgamento, ou quase, os demais integrantes da corte debruçam-se frente aos computadores para examinar em detalhes os autos do processo do mensalão.

A maioria já vai avançada na leitura e, em paralelo, formando opinião a respeito da participação dos 38 réus. Como os Meretíssimos terão o mês de julho para adiantar as tarefas, a impressão é de que o calendário será mesmo cumprido à risca. Iniciado em agosto, na primeira quinzena de setembro o julgamento estará concluído. Claro que pesarão nas decisões as peças do Procurador-Geral da República e dos respectivos advogados de defesa, mas ganha uma passagem de graça para Uganda, com baldeação em Paris, quem supuser os 11 ministros sem tendências já cristalizadas.

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