Rubem Braga se dizia um poeta cristão que se perdia nos seios da amada

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Considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, o capixaba Rubem Braga (12/01/1913 – 19/12/1990), sempre afirmou que a poesia é necessária, tanto que escreveu vários poemas, entre eles, esse bem-humorado “Poeta Cristão”.

POETA CRISTÃO
Rubem Braga

A poesia anda mofina,
Mofina, mas não morreu.
Foi o anjo que morreu:
Anjo não se usa mais.
Ainda se usa estrela
Se usa estrela demais.

Poeta religioso
Mocinha não pode ler:
Pecará em pensamento,
Que o poeta gosta do Novo,
Mas pilha seus amoricos
É no Velho Testamento.

Ai, o Velho Testamento!
Eu também faço poema,
Ora essa, quem não faz:
Boto uma estrela na frente
E um pouco de mar atrás.

Boto Jesus de permeio
Que Deus, nos pratos de amor,
É um excelente recheio.
E isso bem posto e disposto
Me vou aos peitos da Amada:
Sulamita, Sulamita,
Por ti eu me rompo todo,
Sou cavalheiro cristão.
Minh’alma está garantida
Num rodapé do Tristão
E o corpo? O corpo é miséria,
Peguei doença, mas Jorge
de Lima dá injeção!

O badalo está chamando,
Bão-ba-la-lão.

Amada, não vai lá não!
Eu também tenho badalos –
Bão-ba-la-lão
Eu sou poeta cristão!

4 thoughts on “Rubem Braga se dizia um poeta cristão que se perdia nos seios da amada

  1. Rubem Braga, o cronista lirico:
    Se me derem para encher uma fórmula impressa ou uma ficha de hotel eu poderei escrever assim:

    Procedência – Cachoeiro de Itapemirim; Destino – Joana. Pois é somente para ela que eu marcho. No táxi, no bonde, no avião, na rua, não interessa a direção em que me movo, meu destino é Joana. Que importa saber que jamais chegarei ao meu destino?
    RUBEM BRAGA – Receita para o mal de amor – 1985

    E tem mais: Joaquina fazendo olhos azuis
    Adeus pequenina borboleta amarela
    Um pé de milho sozinho, espremido junto ao portão,,,,(,,,) Meu pé de milho é um belo gesto da terra. E eu não sou mais um mediocre homem; sou um rico lavrador da Rua Júlio de Castilho

    Assim as crônicas de Rubem Braga, simples, doces, liricas, tinha o condão de transformar tudo nas coisas boas da vida, ou seja, em poesia.

  2. Affonso Romano de Sant’Anna n o prefácio que escreveu para o livro de Rubem Braga “Livro de versos” duz que Rubem é um dos maiores poetas da lingua (portuguesa_ só que em prosa.
    Prossegue o poeta ARS Finalmente, eu diria que esse livro talvez pertença à estirpe de “Viola de Bolso” de Drummond e “Mafuá do Malungo” de Bandeira. O fato é que é bom reencontrar o “velho Braga” em textos seus pouco conhecido até agora (a poesia). Por isso, parafraseando um de seus poemas aqui, se poderia dizer
    A poesia anda mofina,
    mofina, mas não morreu,
    Quem dá prova disto é Rubem Braga
    e não eu. Affonso Romano de Sant’Anna, em Livro de versos de Rubem Braga, do qual ele avisou com bom humor, ser este seu primeiro e último livro de versos.

  3. A poesia é necessária, dizia o Poeta poético Rubem Braga que deixou entre seus poemas Ao Espelho, Um soneto “E quando nós saimos era a Lua, Era o vento caido e o mar sereno….”

    Ao Espelho

    Tu, que não foste belo nem perfeito,
    Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
    E vã melancolia, contrafeito,
    Como a um condenado sem remédio.

    Evitas meu olhar inquiridor
    Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
    Porque já te falece algum valor
    Para enfrentar o tédio dos espelhos.

    Ontem bebeste em demasia, certo,
    Mas não foi, convenhamos, a primeira
    Nem a milésima vez que hás bebido.

    Volta portanto a cara, vê de perto
    A cara, tua cara verdadeira,
    Oh Braga envelhecido, envilecido.

    Em Livro de versos, 1957, p. 39

  4. AI DE TI, COPACABANA – de Alceu Valença foi inspirada na crônica com o mesmo titulo de Rubem Braga, no trecho que diz “Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite“.

    AI DE TI, COPACABANA

    Alceu Valença

    Eu te procuro
    No Leblon, Copacabana
    Vejo velas de umbanda
    Um buquê jogado ao mar
    Um marinheiro, estrangeiro, desumano
    Deixou seu amor chorando querendo se afogar
    No mar
    Oh, oh, no mar
    Eu te procuro nos lençóis da minha cama
    Ai de ti, Copacabana, será duro o teu penar
    Pelo pecado de esconderes quem me ama
    Ai de ti, Copacabana, será submersa ao mar
    No mar
    Oh, oh, no mar
    O riacho navega pro rio
    E o rio desagua no mar
    Pororoca faz um desafio
    No encontro do rio com o mar
    No mar
    Oh, oh, no mar
    Então mergulho no meu sonho absurdo
    Entre carros, conchas, búzios
    Entre os peixinhos do mar
    Lembro Caymmi, Rubem Braga, João de Barro
    E sigo no itinerário da princesinha do mar
    No mar
    Oh, oh, no mar

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