Ruy Castro e a bofetada de Obdulio Varela na Copa de 50

Pedro do Coutto
 

Há mais ou menos um mês, em sua coluna sempre brilhante na Folha de São Paulo, Ruy Castro colocou uma nuvem de dúvida em torno da versão deixada em livro pelo jornalista Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, de que na final entre Brasil e Uruguai Obdulio Varela desfechou uma bofetada no rosto de Bigode, nosso lateral esquerdo. A dúvida, de fato como colocou Ruy Castro, faz parte da história de modo geral. As coisas nunca aconteceram exatamente como são narradas e reproduzidas através do tempo. Mas no caso de Obdulio e Bigode – eu estava na arquibancada e vi – foi exatamente como Mário Filho narrou.
Só que não foi, como se pode pensar, uma bofetada de mão aberta. Não. O caso foi o seguinte: no início do segundo tempo, a partida ainda estava zero a zero. Bigode avançou pouco além do meio campo. Naquele tempo era muito raro os laterais avançarem como fazem hoje. Obdulio que comandava o time uruguaio deslocou-se da área central para a direita de sua defesa e praticou forte entrada em Bigode. O juiz, o inglês Reader, não havia ainda os cartões amarelos e vermelhos, advertiu o capitão do Uruguai energicamente.

Obdulio acenou para o árbitro aceitando a advertência e se aproximou de Bigode aparentemente para se desculpar. E se desculpou envolvendo a cabeça do jogador brasileiro com as duas mãos. Porém encerrou o falso carinho com um forte empurrão de sua mão direita na face esquerda do adversário. Obdulio mandava na partida. Foi, ao mesmo tempo, a alma e o coração da vitória da celeste.

A tristeza brasileira foi enorme. Como Roberto da Matta já escreveu, 50 foi, através das últimas décadas, a maior tragédia brasileira. Perdemos no domingo 16 de julho. No sábado, torcedores que ficaram sem dormir iniciavam um carnaval antecipado na Cinelândia. Não se pode comemorar por antecipação. Futebol se ganha e se perde no campo. Pois é o único esporte em que a tática pode neutralizar tanto a arte, quanto a técnica. Os uruguaios bloquearam os espaços em que a criatividade brasileira pretendia se desenrolar. Digo isso porque, creio, sou a última testemunha viva da estratégia anunciada por Obdulio.

Os uruguaios estavam concentrados no Hotel Paissandu e treinavam no Fluminense. Obdulio era amigo do Prego (João Coelho Neto, filho do escritor e acadêmico), autor do primeiro gol marcado pelas seleções brasileiras em Copas do Mundo. Foi na de Montevidéu, contra a Iugoslávia. Prego vestia a camisa 10. No reencontro, Obdulio ao vê-lo na sede tricolor foi ao seu encontro. Prego elogiou a presença do Uruguai na final, mas disse a Obdulio: domingo não vai dar para vocês. Estávamos na quinta-feira.

Nada disso – respondeu Obdulio -. Nós vamos jogar de forma diferente, fechada, diminuindo os espaços. Só combateremos o ataque de vocês a partir da nossa intermediária. Vamos recuar Gambeta do meio campo para a zaga. Nascia o quarto zagueiro. Nosso ponta esquerda, Morán, vai recuar para marcar o ponta direita de vocês, Friaça. Nascia o terceiro homem no meio do campo, completando o primeiro quatro-três-três da história. Quando tomarmos a bola, eu disse para que nós entregássemos a bola a Julio Perez que, de nós, é quem sabe lançar à distância.

Mas o Brasil fez um a zero. Obdulio determinou que o Uruguai continuasse fechado. Foi aí sua grande virtude. De repente, Gighia começou a passar todas por Bigode. Balançava o corpo e cortava o lateral esquerdo. Ninguém do nosso meio campo voltava para cobrir o espaço aberto na defesa. Gighia aproximou-se da área, Barbosa temeu o chute e fechou o ângulo esquerdo. Gighia percebendo o movimento do goleiro cruzou para Schiafino que, de voleio, com o pé direito, empatou a partida. Minutos depois o lance se repetiria. Gighia passou por Bigode, de passagem, e vendo que Barbosa se preparava para sair da meta e cortar o provável centro, avançou mais e, já dentro da área, chutou rasteiro no canto esquerdo. Barbosa não falhou. Assumiu absurdamente a culpa que não lhe cabia.

Mas eu falava sobre a tática do Uruguai e da bofetada. Ambas existiram. Quanto à tática, estava na roda ao lado do Prego, o então treinador profissional do Fluminense, Oto Vieira. Achando que o relato de Obdulio tinha lógica, no dia seguinte, sexta-feira, procurou Flávio Costa, técnico de nossa seleção. Ele contaria depois do vendaval que Flávio respondeu: – Oto, se você quer me falar sobre o jogo de domingo, me procura na segunda-feira.

Se Flávio Costa ouvisse, talvez mandasse Friaça avançar mais para tirar Morán do meio campo. Friaça era um ponta improvisado. Sua posição era mais direita. Daquela roda na sede do FLU, no dia 13 de julho de 50, só eu estou aqui. Todos os outros já se foram levando para o além o relato que faço agora a partir do texto de Ruy Castro.

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9 thoughts on “Ruy Castro e a bofetada de Obdulio Varela na Copa de 50

  1. O charme histórico daquele jogo foi o fato do Brasil gigante, favorito, arrogante, ter perdido na sua própria casa para o Uruguai.Como disse o jornal inglês no dia seguinte:
    ” FOI A VITÓRIA DO BEM SOBRE O MAL. AO BRASIL RESTOU SER GRANDE NA DERROTA COMO JAMAIS TERIA SIDO NA VITÓRIA “.
    Mas a nossa arrogância de vez em quando volta.. Em 1982, quando vencemos com larga margem a Argentina de Maradona, comemoramos de novo o título de campeão antecipadamente. Entramos em campo para dar um passeio sobre a razoável Itália. O Gighia daquele dia se chamava Paolo Rossi.

  2. Pedro Couto você além de ótimo jornalista viveu o bastante e absorveu muitas fantasias. O que você escreve agora é puro romance. Você tem essa facilidade de dizer coisas que nunca existiram. A conversa de Obdúlio com Prego e fantasia. O conselho que Oto queria dar a Flávio Costa é outra fantasia. A bofetada de Obdúlio em Bigode é outra fantasia. Primeiro, Obdúlio era irrassível dificel de conversar. Mesmo que tivesse conversado com Prego, é inadimissível que chegasse ao ponto de dizer como iam jogar. Ele era capitão do time não era o treinador. Segundo, Oto jamais iria procurar Flávio para sugerir qualque coisa sobre tática. Flávio Costa era de uma personalidade dura, ríspida e eté agressiva. É só lembrar que chegou a dar porrada no Heleno de Freitas. Quanto a tal bofetada nunca aconteceu. Eu também estava no Maracanã e assisti a tragédia para nós que foi a derrota para o Uruguai. Obdúlo desculpou-se com Bigode dando um tapinha carinhoso típico do pedir desculpas dos uruguaios. Se tivesse havido o tapa, Bigode um negro forte teria revidado. No dia seguinte depois da derrota é que a imprensa impiedosa como sempre, começou a querer desculpas para derrota. O que devias lembrar é do gesto de Obdúlio Varela gritar com seus companheiros exigindo garra batendo no peito e mostrando a camisa uruguaia. Depois, coisas do futebol, eles se agigantaram e nos ganharam de 2×1. Os crucificados foram Bigode e Barbosa. Se quisem comentar as falhas de Bigode deveriam lembrar que no gol de Gígia, Juvenal não deu a cobertura que se esperava quando Gígia passou por Bigode. O certo é que perdemos. Assim é e sempre será o futebol, cheio de surpresas.

  3. Para se jogar bem futebol, entre outras coisas requer espaço. Um time totalmente recuado, fica difícil penetrar na área. Brasil e Uruguai, foi assim: O Uruguai praticou o futebol covarde,
    todo o time recuado, só saindo nos contra ataques, encontrando assim espaço para driblar ou
    passar a bola, em dois contra ataques fizeram 2 gols, enquanto o Brasil tinha a posse de bola,
    atacava o tempo todo, mas não conseguia penetrar na defesa do Uruguai com l0 jogadores atrás da linha da intermediária. É assim que o Flamengo vem perdendo para times chamados de pequenos.

  4. Pedro do Couto, como você é uma pessoa lúcida e de posse das faculdades mentais, e ainda por cima foi testemunha ocular, não há por que discordar de você apenas por discordar, seu texto, permita-me, é EXCELENTE, e sua análise tática e a narrativa dos lances fazem ao leitor ver o lance como se estivesse no estádio.

  5. Nasci décadas depois, mas me soa bastante inverossímil que um jogador relate o esquema às vésperas da final.

    Todavia, reitero, é puro achismo da minha parte. Quem sou eu para dar a palavra final nessa questão…

  6. Sinceramente, tudo bem que o Pedro do Couto foi testemunha ocular da tragédia, mas o papo nas Laranjeiros me parece algo primário.
    A Seleção do Uruguai era melhor que a brasileira. Um ano antes, no torneio Panamericano, disputado em São Paulo, deu Uruguai 4×3 Brasil na final.

  7. Nélio, amigo: nunca imaginei que o Flamengo me impusesse tanto sofrimento! Como disse o Darcy, o time é fraco. A torcida se contenta com muito pouco. Cobre de elogios a uma diretoria que não desenvolve mais que o trivial. Adota apenas medidas convencionais que jamais serão eficazes para superação das enormes dificuldades. Somente será superada a dívida de 750 milhões de reais com uma mobilização nacional dos 40 milhões de adeptos. Aglutinando-os nos milhares de comunidades em que se encontram radicados. Permitindo que, em meio dessa ciclópica mobilização, a mulher rubro-negra possa cumprir o seu importante papel. Os torcedores, obedecendo a regras comuns estabelecidas, devem organizar-se nos centros comunitários rubro-negros para criar riquezas, com centenas de representantes da diretoria, com eles interagindo Brasil afora, virtualmente ou mediante presença física. Gente preparada para sanar qualquer dúvida e resolver os emergenciais problemas.
    O Flamengo é um mundo carente de gerenciamento.
    As inteligências devem ser convocadas pela diretoria para estudos, diagnósticos, prognósticos e apresentação da terapêutica através da elaboração de grandes programas de alcance nacional, ou a depender de peculiaridades locais, restritos a determinadas regiões.
    Não se pode permitir que os conhecidos ladrões do clube desfrutem, com tranquilidade, da fortuna amealhada desonestamente e que deram origem, em grande parte, à dívida assoberbante.
    Dirigentes de futebol ao candidatar-se aos postos diretivos, precisam ter consciência de que serão responsabilizados, patrimonialmente, por negócios pejados de erros grosseiros.
    Deve ser criada, no Flamengo, uma espécie de oficina de ideias para que os torcedores apresentem sugestões e propostas, mostrando, inclusive, quais programas podem compatibilizar-se mais com a realidade de suas regiões. Com base nesses informes, os programas serão elaborados.
    O clube de maior torcida do mundo não há de continuar nesse estado de penúria por falta de quem saiba administrar, com honradez, dinâmica e vistas largas, sua imensa grandeza!

  8. Prefiro o Flamengo dirigido por gente como Kleber Leite, Edmundo Santos Filho e Márcio Braga, que sempre foram campeões. A atual diretoria pode ser bem intencionada, mas é fraca ao extremo. Temo por dias piores.

  9. Por que não poderia haver o papo nas Laranjeiras!? Naquela época o soccer era mais amador do que hoje em dia, que se diz profissional. Além disso a conversa foi entre os que frequentavam o clube, uma espécie de elite, era um círculo fechado.

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