Salgado Filho, um hospital assassino no Rio de Janeiro

Pedro do Coutto

Absolutamente incrível, revoltante e repugnante o que aconteceu em 2010 no Hospital Salgado Filho, da rede Municipal de Saúde, em torno do qual desfiou-se uma verdadeira teia assassina, resultado, para dizer o mínimo, do descaso da Prefeitura para com a vida humana. A tragédia ocorreu há dois anos. Até hoje o prefeito Eduardo Paes nada fez. Não tomou qualquer providência. Omisso.

Posição insensível, aparentemente cômoda. Custou 363 vidas de pacientes internados na CTI daquela unidade que carrega um nome ilustre, mas desonrado pelos responsáveis das mortes em série.Reportagem excepcional de Vera Rosa, O Globo de domingo, dia primeiro, revela que, há dois anos, de 854 pacientes internados no Centro Intensivo, morreram 363 de janeiro a dezembro. Índice superior a 40%. Essa taxa não se verifica nem no corredor da morte das prisões da Califórnia.

A velocidade da tragédia foi de quase uma pessoa por dia.Especialistas ouvidos pela repórter consideram normal uma percentagem de 5% ao ano. Jamais 45 pontos. As fotos que acompanham a matéria, pelo que se pode interpretar do texto, foram da UERJ, uma vez que a Universidade, em agosto do mesmo ano de 2010, alertou a Secretaria de Saúde para os problemas de ventilação inadequada que se desenrolavam. Alertou e fotografou.

O tema, manchete principal da edição de O Globo, foi extensamente debatido na mesa dirigida por Haroldo de Andrade Júnior, domingo, Rádio Tupi. Como era de prever, centenas de telefonemas de ouvintes indignados. Não é para menos. A morte que ceifou 363 contribuintes há 24 meses pode atingir qualquer um a qualquer momento.

No sábado, a reportagem da Rede Bandeirantes, por exemplo, mostrou pessoas vítimas de derrame cerebral não encontrando um médico sequer no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Caxias. A cena dramática teve repetição em outras unidades. Quando conseguem ser atendidos, pacientes são colocados em macas pelos corredores.

Enquanto isso predomina, para recorrer à imagem de Fritz Lang, no andar de baixo, a corrupção e o silêncio disparam nos porões da consciência humana. Não no andar de cima, o que classificaria os ladrões junto a políticos e empresários dignos. O roubo e a omissão, sua grande aliada, encontram-se no subsolo da vida na direção do esgoto.

Basta ler, na mesma edição de O Globo, reportagem de Carla Rocha, publicada em outra página, mas também como chamada na primeira.Ela sustenta que a Rufolo, uma das empresas envolvidas no escândalo denunciado pelo Fantástico, dá as cartas na administração. E chega ao ponto de exercer influência na nomeação de dirigentes de diversos outros hospitais. Nem Freud explica. Só comprometimento.

Repete-se a obra de Goethe, Doutor Fausto, aquele que vendeu a alma ao diabo para recuperar a juventude e adquirir riqueza.De fato só a corrupção pode traduzir tal comportamento que ameaçadoramente se generaliza pela administração pública do Rio de janeiro e do país.

Pois o trabalho de Vera Rosa decorreu de uma iniciativa do Ministério Público Estadual, não por parte do prefeito Eduardo Paes ou do governador Sérgio Cabral. O MPE tomou a iniciativa por sua própria decisão.E, possivelmente, não tendo sido levado a sério, deslocou o plano de sua indignação para a imprensa, tornando-se manchete do principal jornal do Rio, que forma entre os quatro mais influentes do país: A Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Valor. São os outros três cujas páginas repercutem com intensidade. Da mesma forma a revista Veja. Por sinal, esta que está nas bancas, publica novo escândalo ocorrido na área do Ministério da Saúde.

A sequência escabrosa de indignidades e roubalheiras parece não conseguir chegar ao fundo do poço. Talvez, como na peça de Tennessee Williams, porque esse poço não tenha fundo. Praticados os roubos, os ladrões vão rezar. Hipócritas.

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