Salvos da “Stasi Unida da América”?

Daniel Ellsberg (The Guardian)

Na minha estimativa, não houve na história dos Estados Unidos nenhum vazamento mais importante que a divulgação feita por Edward Snowden de materiais da Agência de Segurança Nacional (NSA) –e isso inclui a divulgação dos papéis do Pentágono pela qual eu fui responsável 40 anos atrás.
A iniciativa de Snowden nos abre a possibilidade de reverter algo que equivale a um golpe executivo contra a Constituição americana. Desde 11 de setembro de 2001 vem ocorrendo, inicialmente em segredo mas desde então de maneira cada vez mais aberta, uma revogação da Carta dos Direitos pela qual os EUA lutaram 200 anos atrás.
Foram virtualmente suspensas especialmente a quarta e a quinta emendas da Constituição, que protegem o cidadão da ingerência indevida do governo em sua vida privada. O governo alega estar judicialmente autorizado graças à lei de monitoramento de inteligência estrangeira (Fisa), mas essa autorização foi dada por um tribunal secreto, protegido contra fiscalização efetiva, e é aberta à interpretação mais ampla possível.
Tudo isso infringe frontalmente o que prevêem as leis do país, o que dirá a Carta dos Direitos. Nas palavras de Russell Tice, um ex-analista da NSA, “é um farsa judicial aprovada por burocratas”.
Portanto, que o presidente venha dizer que há supervisão judicial é um absurdo, assim como é absurda a função supervisora dos comitês de inteligência do Congresso.
O fato de os líderes desses comitês terem sido informados deste assunto e o terem sancionado sem questionar vem apenas mostrar como está decrépito o sistema de responsabilidades e prestações de contas nos EUA.
UMA TIRANIA
Como escreveu o fundador da Constituição, James Madison: “O acúmulo de todos os poderes, legislativo, executivo e judiciário, nas mesmas mãos, quer sejam as mãos de um, de alguns ou de muitos, e quer sejam hereditárias, autonomeadas ou eletivas, pode com razão ser descrito como a própria definição da tirania”.
Quando a segurança nacional é evocada nos Estados Unidos, é isto o que temos hoje. Na prática, o Congresso delegou suas responsabilidades e seus poderes ao Executivo. Foi demonstrado que a estrutura de supervisão é uma farsa total e que os comitês relevantes do Congresso foram cooptados. Eles são simplesmente buracos negros de informação à qual o público precisa ter acesso.
O monitoramento revelado pelos documentos divulgados por Snowden expõe este golpe executivo. O fato de isso ser feito com o Congresso sendo informado do fato, mas sem que tenha a capacidade de resistir ou sequer de debater as medidas abertamente, converte a separação dos poderes em farsa. O que foi criado é a infraestrutura de um Estado policial.
Não estou dizendo que os Estados Unidos é um Estado policial. Não temos visto as detenções em massa que completariam esse processo. Mas, em vista da extensão desta invasão da privacidade das pessoas, possuímos, sim, a infraestrutura eletrônica e legislativa de um Estado policial.
Temo por nossa democracia no caso de, por exemplo, começar agora uma guerra que resulte num movimento antiguerra em grande escala, como o movimento que tivemos contra a guerra no Vietnã. Se o governo possuísse então a capacidade que possui agora, não tenho dúvidas de que teriam ocorrido prisões em massa. Esses poderes são extremamente perigosos.
Em 1975 o senador Frank Church declarou o seguinte a respeito da NSA: “Conheço a capacidade que existe para criar uma tirania total na América, e precisamos garantir que esta agência e todas as agências que possuem esta tecnologia operem dentro da lei e sob supervisão apropriada, para que nunca atravessemos esse abismo. Esse é o abismo do qual não existe retorno.”
CAÍMOS NO ABISMO
Eu diria que nós de fato já caímos nesse abismo. Com as novas tecnologias digitais, a NSA, o FBI e a CIA possuem poderes de monitoramento com os quais a Stasi, da antiga Alemanha oriental, só poderia ter sonhado.
Aquilo que se temia e contra o qual foram lançados avisos se concretizou. A chamada comunidade de inteligência tornou-se os “United Stasi of America”.
A questão agora é se o senador Church estava certo ou equivocado ao dizer que a travessia desse abismo seria algo irreversível. Três dias atrás eu teria concordado que a democracia efetiva agora é impossível.
Mas, com este corajoso Edward Snowden se dispondo a arriscar sua vida para levar esta informação a público, criando a possibilidade de que outros venham unir-se a ele, acredito que possamos retornar do outro lado do abismo.
Enquanto o acesso de Bradley Manning foi muito mais limitado a informações ao nível de campo, o conhecimento que Snowden tem de sua área é profundo e extenso. Os materiais que ele divulgou são de nível de classificação mais alto do que foi meu caso com os papéis do Pentágono.
SIGILO ILEGÍTIMO
Existem razões para respeitar sigilo que são legítimas, mas o que não é legítimo é usar desse sigilo para ocultar atos que são anticonstitucionais. Nem o presidente nem o Congresso têm o direito de revogar a quarta emenda –mas é por isso que aquilo que Snowden revelou era secreto.
Ele não merece ser levado a julgamento ou punido por sua iniciativa; em lugar disso, merece nosso agradecimento e admiração. O chanceler alemão Otto von Bismark disse: “A coragem no campo de batalha é algo comum a muitos”, mas “coragem civil falta mesmo a pessoas respeitáveis”. Snowden demonstrou coragem civil enorme.
O que eu disse 40 anos atrás foi que não me importava com o que dissessem sobre mim — “leiam os documentos, apenas”. Para proteger outras pessoas, revelei o que eu tinha feito, para que pudesse dizer “fiz isto por conta própria”, sem o conhecimento ou a ajuda de outras pessoas que poderiam ser suspeitas.
Já sabemos que o Departamento de Justiça ordenou uma investigação sobre o vazamento. Portanto, Snowden fez o mesmo.
Pelo fato de ter se identificado, Snowden pode agora depor sob juramento diante do Congresso –se este o convocar. Ele não poderia fazer isso se ainda estivesse anônimo ou se estivesse nos EUA.
Em 1971, fui libertado após pagamento de fiança de US$50 mil por minha participação na divulgação dos papéis do Pentágono, mas no clima atual Snowden não seria libertado sob fiança –seria encarcerado sem fiança e incomunicável, exatamente como Manning.
Snowden fez o que fez porque reconheceu os programas de monitoramento da NSA como o que eles são: atividades perigosas e anticonstitucionais. Esta invasão atacadista de nossa privacidade não contribui para nossa segurança e coloca em perigo as próprias liberdades que estamos tentando proteger.
DANIEL ELLSBERG é ex-analista militar dos EUA. Em 1971 ele divulgou os papéis do Pentágono, que revelaram como o público americano tinha sido enganado sobre a guerra do Vietnã.
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8 thoughts on “Salvos da “Stasi Unida da América”?

  1. A tarifa da ignorância
    Felipe Moura Brasil ( blog do Pim)

    Quem não se admite ignorante precisa depois se admitir idiota. Quem não se admite idiota precisa depois se admitir manipulado. Quem não se admite manipulado precisa depois se admitir cúmplice de crime. Quem não se admite cúmplice de crime precisa depois se admitir delinquente. Quem não se admite delinquente precisa depois se admitir bandido… E assim por diante, na escalada possível do ativismo juvenil.

    O tamanho do esforço psicológico necessário para a própria salvação vai aumentando de acordo com o nível de estupidez e presunção alcançado.

    Os comunistas são grandes mestres em transformar qualquer ignorante em bandido a seu serviço, principalmente depois que Herbert Marcuse percebeu que o proletariado industrial — a massa de manobra original de Karl Marx — já estava “corrompido” pelas benesses do capitalismo e que a nova classe revolucionária poderia ser formada por todos que tivessem qualquer tipo de frustração psicológica: intelectuais, estudantes, mulheres, gays, crianças, prostitutas, drogados, estupradores, assassinos etc. Bastava organizá-los para destruir o “sistema”.

    No Brasil, como a estratégia de Antonio Gramsci de infiltrar militantes nos sistemas de ensino e comunicação foi altamente bem-sucedida nas últimas quatro décadas, milhões de jovens estudantes já foram reduzidos ao estado de boçalidade necessário para atender prontamente à primeira voz de comando, por mais que ela venha dos cantores de churrascaria da UNE, do Movimento Passe Livre, da Juventude do PT, do PSOL, do PSTU ou do PCO.

    Revoltados contra tudo que não presta, eles não perdem a chance de reforçar tudo que não presta. Como dizia o filósofo Olavo de Carvalho: “É natural que um povo que se sente ludibriado sem saber por quem tenha um fundo e dolorido anseio de moralidade. Com um pouco de esperteza, esse anseio pode ser pervertido em desconfiança, a desconfiança em ódio, o ódio em instrumento de destruição sistemática de lideranças indesejáveis.”

    A horda de jovens que aderem real ou virtualmente às “manifestações” organizadas pelos partidos comunistas brasileiros, sob o pretexto de combater o aumento do preço da tarifa de ônibus, imagina-se lutando em favor dos pobres, quando está apenas sendo usada por manipuladores profissionais e propagandistas partidários em busca do mesmo poder político que, onde quer que tenha sido alcançado por seus similares, só fez piorar a vida dos pobres.

    O terrorismo — defendido abertamente por Marx — não é o lado lamentável de uma “manifestação” pacífica, como a grande mídia quer fazer crer. Ele é a essência e a razão de ser do ato, legitimado pela presença numerosa de desavisados (os “idiotas úteis”, diria Lenin) mais ou menos pacíficos.

    Acatar suas reivindicações, ou mesmo dialogar com seus líderes a respeito, como faz o prefeito Fernando Haddad, é ensinar à população que o terror compensa — o que é muito mais grave do que o aumento de 20 centavos na tarifa de um serviço pelo qual a população vai pagar de qualquer jeito, seja como ‘consumidora’, seja como ‘contribuinte’, sendo que, neste caso, sem saber quanto está pagando e muito mais sujeita ao esquema de compadrio empresarial e falta de transparência do Estado no trato das verbas públicas.

    Os jovens da horda, no entanto, meninos mimados acostumados à ideia de ter todos os direitos (inclusive o de exigir todos os direitos para si ou para os outros) e nenhuma obrigação, não querem saber disso, é claro, nem da inflação de alimentos que vem afetando o bolso dos pobres muito mais do que qualquer outra coisa. Aprenderam desde cedo a colaborar cegamente com o crime e não vai ser agora que vão se informar antes, para não fazê-lo.

    Se nunca estudaram a obra de Marx, Lenin, Marcuse, Gramsci e demais intelectuais comunistas que inventaram o Brasil de hoje — do qual Lula ainda é o maior líder —, que dirá a crítica de seus legados, incluindo como chegamos ao estado de calamidade e abuso geral, contra o qual imaginam se revoltar dessa maneira estupidamente alienada. Naturalmente, pouco lhes importa ainda se, passada a semana inicial de terrorismo, o PT e o PCdoB, para evitar danos à imagem de Haddad, tenham decidido assumir o comando do movimento e mudar sutilmente o sentido dos “protestos”, cujos alvos passam a ser a Polícia Militar e o governador Geraldo Alckmin, a verdadeira liderança indesejável que se quer odiosamente destruir.

    Os jovens ativistas amam tanto os “oprimidos” quanto odeiam todo tipo de conhecimento necessário para ajudá-los. E preferem ser (cúmplices de) bandidos a reconhecer — antes tarde do que nunca — a própria ignorância.

    É por isso que eu digo:

    O perfeito idiota brasileiro é aquele que quer remediar um problema que ele não sabe qual é, com um remédio que ele não sabe para que serve, receitado por um médico que ele não tem a menor ideia de quem seja; e ainda está convicto e orgulhoso de fazer a sua parte para salvar o país.

    Parabéns, seus manés. O país agradece.

    *****

    Notas

    1.

    Quando um comunista fala em “manifestação”, eu saco logo o meu spray de pimenta.

    2.

    Depois de muitos anos de sucesso, a máxima “O importante é competir” finalmente deu lugar à “O importante é protestar”. O Brasil, mais do que nunca, virou um programa do Serginho Groisman.

    3.

    Ontem eu aprendi que criticar um ato de terrorismo comunista é o mesmo que ser contra qualquer mobilização popular. Hoje eu aprendi que definir um idiota brasileiro é o mesmo que ser a favor de toda a corrupção que está aí. Todo dia eu aprendo na seção de comentários da minha página que eu sou contra ou a favor de alguma coisa. Só não entendi direito por que, quando eu critico uma partida de futebol, ninguém diz que é porque eu sou a favor do vôlei. Mas tudo bem. É bonito isso. Fico imaginando quantos Felipes Moura Brasil existem na cabeça dos meus leitores.

  2. Sérgio Porto, o inesquecível “Stanislaw Ponte Preta”, nos falava do Samba do Crioulo Doido, do FEBEAPÁ – O Festival de Besteiras Que Assola O País e outras imagens, sem dúvida!, deliciosas.
    O Felipe Moura Brasil, em seu artigo, está imbatível em seus delírios. Conseguiria superar – com todos os louvores – a comicidade tão bem posicionada, socialmente, do Stanislaw.
    Sinto-me, de fato, idiotizado, imbecilizado, debochado e empaspalhado, diante das suas colocações. Não tenho como fugir disso!!! Coloco em meu peito o crachá de mané, de burro de carteirinha, de incapaz mental e tudo o mais que enquadre minha precária condição de tentar ser um cidadão, um simples habitante deste planeta dominado por afrontamentos como os que este senhor expôs e defendeu, praticamente delirando e buscando reduzir ao nada quem dele discorda. Citações de origem inexistente e uma inclinação de forte violência nas palavras, desprezando as inteligências de quem as leu. Não chegaremos, pois já chegamos, ao ponto de que é chamado de louco, perigoso e insociável, quem deseja defender-se dos crimes praticados pelos Estados Unidos e suas práticas condenadas por eles próprios, os norte-americanos e seus sistemas de dominação perversamente históricos, de lavagem cerebral … através dos quais massacram e subjugam com torturas e mortes, aos povos.
    Os exemplos são incontáveis e os motivos para invadir países e matar, na maioria das vezes sequer precisam existir. Logo no início do filme que eles consideraram como o vencedor do Oscar, neste ano – ARGO – eles mesmos, sim!!!, eles mesmos, já começam assim: “Os terroristas somos nós”, e desfilam toneladas de exemplos, de como fazem para impor o Terror que patrocinaram no Irã e outros países.
    Quanto a mim, idiota nato e hereditário, estarei com meu crachá nesta segunda feira, na Cinelândia, para demonstrar minha indignação contra as atrocidades praticadas contra os Trabalhadores. Irei, sim, como o IDIOTA de Dostoiévski. Aceito o deboche. Aceito a insensibilidade. Aceito que há um imenso prazer em pessoas como este articulista, que gargalham diante de manifestações como esta.
    Os violentos, os massacradores, os criminosos,os ditadores de sempre, os canalhas consagrados … estarão em festa, vendo o povo lutar … para nada conseguir. Ou melhor, este nada é tudo. É lutar contra os felipes de cada dia.

  3. E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia.

    E foi-lhe concedido que desse espírito à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da besta.

    E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas,

    Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome.

    Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis.
    Apocalipse 13:14-18

  4. A censura não é boa para ninguém. Na ditadura ela existiu assumidamente pelos donos do poder.
    Hoje, ela continua existindo, mas pela covardia de muitos. Aqui no Brasil isto é visível.

    Quando alguém mostra que uma árvore é uma árvore, a covardia determina, antes de mais nada, que é preciso ver quem é o mensageiro.

  5. O mundo mudou e muito porque as mentiras estabelecidas por religiões e ideologias foram desmascaradas, E não foram desmascaradas com argumentos retóricos, mas pela prática delas.
    E taí gente honrada para não nos deixar mentir como João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar e outros que participaram pessoalmente dos eventos que caracterizavam os movimentos comandados pelo partido comunista. E o comunisno não para, mesmo que leve mais seu nome. A velha tática da busca do poder absoluto não mudou em nada: “quanto pior melhor”.
    E mesmo muito antes já tínhamos um Nélson Rodrigues, que já percebia a mentirada da salvação da humanidade pela religião marxista-leninista.
    Enfim, nem sei como pessoas que insistem em afirmar que 2+2=4 estão tendo vez por aqui.

  6. Nem mil legiões tem tanto poder igual a religião. O imperador Constantino que o diga, quando descobriu essa preciosidade.
    Num país onde a educação de qualidade não existe, a religião domina culturalmente a maioria. E não estou falando da maioria do povo, mas da maioria daqueles que aparentam carregar uma carga intelectual.
    A religiosidade é de difícil libertação, pois o terror que ela sutilmente vai impingindo em seus portadores se torna uma arma de sua sobrevivência. Fortíssima, quase indestrutível.
    Daí o medo de colocar que uma árvore é uma árvore, quando seu mensageiro não reza pela nossa religiosidade.

    Amém.

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