Sanchez, das duas uma: ou sai da CBF ou aponta queda de Ricardo Teixeira

Pedro do Coutto

Numa entrevista surpreendente ao Caderno de Esportes da Folha de São Paulo, edição de terça-feira 7, o presidente licenciado do Coríntians, Andres Sanchez, atualmente diretor de Seleção da CBF, afirmou textualmente não colocar a mão no fogo por Ricardo Teixeira, que o colocou no cargo, mas está evidentemente com seu prestígio abalado.

A contradição contida na frase é evidente. Ou Sanchez reassume o Coríntians e sai, ou então está sinalizando a queda iminente de Teixeira da presidência da Confederação Brasileira de Futebol. Isso porque, claro, a afirmação não coloco a mão no fogo projeta-se no contexto relativo à integralidade pessoal. Não pode ser lida ou ouvida ao pé da letra. Ajusta-se, isso sim, a uma realidade ou a uma dúvida sintomática. Ninguém usa tal expressão à toa.

Além do mais, Ricardo Teixeira não se encontra com um IBOPE junto a presidente Dilma Roussef. No sorteio dos jogos da Copa de 2014, no Hotel Windsor, Barra da Tijuca, ela fez questão de sentar-se ao lado de Pelé, afastando-se de Ricardo Teixeira. Foi o primeiro sintoma público de, pelo menos, um distanciamento administrativo.

De lá para cá surgiram na imprensa e principalmente na Rede Record denúncias em série contra o presidente da CBF. Levado ao cargo exclusivamente por João Havelange, então presidente da FIFA, Teixeira encontra-se no posto há cerca de 25 anos. Tempo demais. Não é algo positivo para qualquer entidade ou empresa, também não para os titulares das funções. Surge a tendência inevitável de passarem a se julgar donos. Na verdade exercem as atividades por delegação. Tal confiança não deve se estender demais. Mas esta é outra questão.

O fato é que, na mesma entrevista, Andre Sanchez deu as cartas. Afirmou que não pretende demitir o técnico Mano Menezes, nem mesmo em caso de novo fracasso na Olimpíada de Londres, que começa em julho próximo. “Não gosto de demitir treinador” – acrescentou. Portanto, encontra-se de posse de autonomia que não o leva a consultar Teixeira antes de tomar decisões. Logo Ricardo está fragilizado. Se forte estivesse, o tom de Sanchez não seria este. Seria outro muito diferente.

Andres Sanchez foi entrevistado conjuntamente por José Henrique Mariante, Mônica Bérgamo, Eduardo Scolese e Ricardo Perrone. É verdade que, ao longo do texto, ele sustentou não colocar a mão no fogo por ninguém, nem por ele próprio. Porém ressaltou:”As pessoas têm que saber aquilo que fazem. Se você cometer erro, tem que ser punido. Eu acredito na Justiça Brasileira”.

A quem poderia estar se referindo? A si próprio ou a Teixeira? Claro que a Ricardo Teixeira, não a ele próprio, já que é improvável que alguém acuse a si mesmo. Já ocorreu. Mas não é comum. Pelo contrário. É um exemplo isolado o da investida de Roberto Jefferson contra José Dirceu, em 2005, quando, para derrubar o ministro chefe da Casa Civil, acusou a si próprio de ter recebido 4 milhões de reais, via mensalão, para o caixa 2 do PTB. E não explicou até hoje o destino final do dinheiro.

Mas eu falei em tempo demais à frente da direção de empresas e de entidades, sejam públicas ou privadas. É verdade. Um perigo. Quando os que ocupam tais cargos não assumem psicologicamente a propriedade para si, deslumbram-se. Passam a achar que podem tudo e que se encontram acima do bem e do mal. Em consequência, tornam-se agressivos em relação às críticas. Deixam de ser mortais, querem tapete vermelho, e passam a se julgar deuses gregos. Intangíveis. Ricardo Teixeira, por exemplo.

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