São Paulo está parando ou já parou

Carlos Chagas

São Paulo foi a cidade que não podia parar. Pois está parando. Ou já parou. Não apenas no trânsito, mas em suas múltiplas atividades e serviços. Pior ainda: no inconsciente das pessoas, onde o dinamismo cedeu lugar à acomodação e até ao egoísmo.  A população paulistana imobilizou-se em seus automóveis e ônibus paralisados  por dezenas de quilômetros durante várias horas por dia, sem reagir nem protestar. Acomodou-se como se estivesse sofrendo  pragas divinas  diante das quais o remédio é conformar-se. O pior é que esse sentimento estendeu-se  para muito além das avenidas congestionadas. O cidadão considera natural chegar atrasado no emprego ou em casa, no fim do dia, sem fazer conta do prejuízo para o desempenho individual ou coletivo.

A alternativa seria oferecer horas de sono, lazer ou convívio familiar no altar da eficiência, superando os percalços pelo  sacrifício. Só que ninguém consegue. São todos humanos. A metástase   se iniciou: os garçons são lentos, os balconistas demoram no atendimento aos fregueses, os eletricistas, encanadores e toda a gama de prestadores de serviços não tem pressa. As empresas também não. Nem os médicos, os advogados e os entregadores de encomendas. Em vez de   desesperar-se,  submetem-se. Nem se exasperam quantos, por estar esperando,   poderiam exigir mais eficiência. É como se uma nuvem de inércia cobrisse a cidade. Melhor assim, é claro, do que submeter-se todos a um ataque coletivo de nervos.

O diabo está em que São Paulo perdeu seu dinamismo. Acabou inoculando a população o inchaço de gente, de carros, de falta de espaço, de obrigações proteladas e de oportunidades perdidas para a sobrevivência individual ou coletiva. A maioria acomoda-se enquanto, no reverso da medalha, cresce  o número  de carentes e de   miseráveis que continuamente demandam o antigo paraíso, ou nele permanecem, sem outras opções do  que recorrer à caridade   ou aderir à lei da selva.

Daí o aumento do número  de roubos, furtos, agressões, assassinatos e violência de toda espécie. Os crimes gerados pela necessidade de sobrevivência superam  aqueles causados pela distorção de personalidades, inclinações, tendências malévolas e falta de vontade para enfrentar e respeitar os princípios éticos da vida, superados pela necessidade de uns e o  mau exemplo de outros.

SUPERPOPULAÇÃO

Há quem identifique nesse nó que envolve a maior cidade do país a lei basilar da física, de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A superpopulação   estaria na raiz do impasse que leva São Paulo a parar.  Não apenas excesso de gente, mas de automóveis,  ambições, desilusões e desespero.

Abrir novas avenidas, túneis e viadutos, sacrificando o indivíduo para atender a máquina,  será tão inócuo quanto multiplicar o assistencialismo ou aplicar em São Paulo o princípio da livre competição entre quantidades desiguais. A rebelião dos excluídos  sem alternativa  só fará aumentar as agruras do conjunto. Fechar as fronteiras da cidade não dá: equivalerá a estender a mesma intolerância a regiões sempre maiores, além do que,  nascem nas próprias comunidades sem futuro contingentes sempre maiores de desesperados e desiludidos.  Controlar a natalidade ou adotar o eufemismo de planejamento familiar despertará forças incontroláveis, pois os carentes, os menos favorecidos e os miseráveis continuarão  aumentando em progressão geométrica,  frente às soluções ditadas pela  aritmética.

Anos atrás Hollywood investiu no absurdo, com o filme “Fuga de Nova York”, onde no futuro, de tão inviável, aquela metrópole foi cercada de muros imensos, vigiada do lado de fora por mísseis e metralhadoras, pois ninguém entrava e ninguém saía daquele território abandonado à própria sorte, sem lei nem autoridade. O diabo, nessa história  fantástica, foi quando o avião do presidente da República fez uma aterrissagem forçada no Central Park…

A verdade de São Paulo é frustrante quando se atenta que a locomotiva emperrou, os trilhos enferrujaram e os vagões continuam vazios, ou quase. São Paulo, que sempre solucionou o Brasil, agora pede socorro de um modo singular: que ninguém se aproxime para salvar a cidade onde não cabe mais ninguém, nem os salvadores.

É claro que as elites paulistanas que ainda conseguem sobreviver, em especial se utilizam helicópteros, protestam diante de diagnóstico tão sombrio. Estão à margem das agruras que envolvem as massas e a classe média. Mas sofrem cada vez mais, até nos Jardins. Seu destino é ser esmagadas mais ou menos como o bezerro apertado pelos anéis da sucuri. Boas intenções e fantasiosas formulações podem partir de minorias iludidas, tanto faz se de privilegiados  metalúrgicos ou de banqueiros indiferentes ao que se passa à sua volta. Ate de uns poucos políticos e sociólogos que a realidade ainda não atingiu. Serão todos inundados pela onda implacável.

Em suma, não dá mais para se comprimir num espaço limitado essa legião de iludidos.

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6 thoughts on “São Paulo está parando ou já parou

  1. Revolucionária tecnologia de transporte

    Já existem carros protótipos sem motoristas pelas grandes cidades da Europa e dos EUA, operando com êxito. Um desses automóveis chegou a percorrer 40.000 milhas nos EUA sem causar um único acidente. São orientados por GPS e quarenta censores para impedir qualquer tipo de colisão. Portanto, trafegam de modo bastante seguro e confiável. Aptos a nos conduzir a qualquer lugar, pelo comando de voz ou do teclado.

    Não está distante o final dos tumultuados e congestionados tráfegos de toda grande cidade, bem como dos problemas da turma que não possuem garagem própria. Para aqueles que continuam vendo no automóvel um meio de transporte, não mais precisaremos perder uma grana preta comprando carro, por um dado valor, e após 2 ou 3 anos, vendendo-o por 60% ou menos, sem contar gastos com combustível, óleo, manutenção, IPVA, seguros, multas, estacionamentos, etc. Deixaremos de perder dinheiro comprando carro.

    Parecido às bicicletas de aluguel que estão aparecendo no Brasil, a exemplo da Europa, semelhante tecnologia virá para os carros sem motoristas, disponíveis ao público e geral. Com um celular e um cartão bancário poderemos ter acesso a vários tipos e tamanhos desses carros, a qualquer hora do dia e da noite. Estarão sempre a nossa espera, seguros e econômicos, disponíveis 24 horas por dia, em qualquer lugar. Basta um chamado por celular e logo aparece um bem na nossa frente, apto a nos conduzir, com toda presteza, agilidade e conforto, a qualquer local e, a um preço justo.

    Daí em diante, ter carro próprio, somente para a turma endinheirada que pode arcar com todos os custos do automóvel próprio, das multas de trânsito que por certo tornarão mais severas visando impedir o livre trânsito dos carros sem motoristas. Pegar um taxi a qualquer hora do dia e da noite deixará de ser perigoso. Sempre poderemos contar com um carro sem motorista, novinho, seguro e honesto, no tamanho adequado para nos levar a qualquer lugar sem sair dando indevidas voltinhas.

    Por outro lado, será o fim dos motoristas de taxi. Idem, dos motoristas de ônibus e de metrôs, que também trafegarão sem motoristas. Somente numa questão de tempo, os aviões passarão a ter tecnologia adequada para voar sem piloto. Por certo que as passagens ficarão mais baratas. Os voos serão mais seguros, pontuais e confiáveis. Não duvidem da tecnologia.

    A única desvantagem de toda essa maravilha tecnológica, a exemplo de todas as outras, são os inevitáveis desempregos de motoristas, taxistas, condutores de metrôs, condutores de trens, pilotos de avião, garagistas, guardadores, etc. Dona Tecnologia, sempre cria novas oportunidades de mão de obra, mas, elimina mais do que cria.

    Por conta da tecnologia, salvo exceções, a grande maioria das atividades a cada dia irão requerer menos conhecimentos e escola, menos experiência e treinamento. Mais conhecimento de informática, atenção e agilidades de digitação. Mas, os salários serão menores. É Dona Tecnologia desempregando, aos milhares em todo o mundo, em todas as áreas do trabalho humano, braçal e intelectual, desmontando o polo consumidor mundial, empurrando o sistema capitalista para complicada situação. Já em pleno andamento.

  2. JK conseguiu “adesão, apoio, colaboração” porque se firmara impressão de que Rio de Janeiro não mais dava conta, estava esgotada em ampliar urbanidades pró garantir o sediar/centralizar das Funções de Estado. São Paulo se torna a bola de vez; deverá adquirir impressão de travadora/deslustradora sobre as Finalidades do Estado. JK “salvou” o Estado: isso foi a maior futuridade daquela época. Proceder do mesmo modo em São Paulo é uma questão de tempo. O Rio traumatizou e daí se recuperou e, se firmou com novas possibilidades; o mesmo se dará com São Paulo.

  3. Apesar da torcida do Chagas & Cia, São Paulo não está parando não. Está mais pujante do que nunca. E enquanto o Brasil e estados como RJ, BA e RS estão nas mãos de bucaneiros, São Paulo está nas mãos de gente séria, competente e honesta, há mais de 14 anos…..Podem torcer à vontade, petistas….os cães ladram e São Paulo cresce…

  4. Como se o rio de janeiro fosse algum paraíso. perguntem ao grande comediante castrinho, que teve a esposa atingida por um tiro na cara, em pleno recreio dos bandeirantes, ontem. perguntem ao engenheiro, fuzilado ao ser baleado por engano ao entrar na vila do joao.

    lamentável que, colunista e jornalista, dessa estirpe, com essa vivencia, use um espaço como este pra destilar seu ódio bairrista com meias verdades; se todo o brasil tivesse, por exemplo, o indice de homicidios do estado de sao paulo, teríamos, por baixo, 15.000 assassinatos a menos em todo o país.

    trânsito ruim? cidade parada? travada? nenhuma metrópole brasileira hoje está livre deste mal! muito menos o rio de janeiro do ultrapassado e infeliz articulista…

    o grande azar de são paulo(capital/estado) é ser governado pelo partido que foi escolhido pra ser a geni do atual detentor do poder federal e seus puxa sacos..

    mas o povo paulista é forte..ja foi vitima de cerco outras vezes e resistiu.

    quanto a você, lamentável carlos chagas, nao o convido para agradável viagem pelo estado de sao paulo para surpreender-se com o que enxergará porque provincianos nao ultrapassam os limites de sua esquina..tomo apenas a providencia, daqui por diante, de nunca mais assistir a qualquer telejornal de alcance nacional aonde vossa mediocridade participar como colunista..

    lamentável!!

  5. Ref. “Adonias… São Paulo não está parando não…” Veja esta. Dá de pensar que a capital paulista poderia ser “construída do zero” no interior com uma arquitetura futurista em urbanidades para varar dezenas de anos adiante. A nova sede do Estado seria ligada por rodovia, aeroporto e metrô à Sampa daí surgiria o binômio Capital&Sampa. Uma interiorização do governo não iria mal para os paulistas. E Sampa moderaria.

  6. Ref. “Sergio… Como se o rio de janeiro fosse algum paraíso…” Veja bem. Se JK não tivesse feito o que fez – e se ninguém mais após fizesse – a cidade do Rio de Janeiro provavelmente estaria “a pior cidade do mundo”. É só dar verificada (História) como já estava para avaliar como ficaria (degradada) nos tempos seguintes. Além do que o interior disparou em deslanches urbanos. A respeito de uma “solução” para a capital, instalando-a numa área interiorana – com projetos adiantadíssimos – a importância de Sampa permaneceria, o interior expandiria, o governo reformularia, o Estado se tornaria mais atraente/moderno/novidadeiro. E Sampa teria uma sua extensão para atenuar, suavizar.

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