Sarney afirma-se vtima e nufrago da internet

Pedro do Coutto

Na coluna semanal que simultaneamente publica na Folha de So Paulo e no Jornal do Brasil, sexta-feira passada o senador Jos Sarney falou da revoluo que est ocorrendo nos meios urgentes de comunicao e aproveitou o tema para se considerar vtima e praticamente nufrago da Internet. Qualquer site acentuou destruir qualquer um com sua capacidade reprodutiva. A proteo imagem e o direito de resposta vo desaparecer.

No bem assim, digo eu. Os jornais, emissoras de televiso e rdio, e tambm os sites, vm divulgando fortes matrias a respeito de sua atuao fato, mas no esto inventando nada. Alis mesmo com a era da informtica, permanece, graas a Deus, o princpio de que veculo algum de comunicao, por mais forte que seja, mais forte do que a verdade. Caso contrrio, todos ns, jornalistas e leitores, seramos escravizados pelos meios mais fortes de expresso pblica e de transmisso coletiva.

Sarney tem razo em parte quanto s modificaes verificadas no processo informativo. Antes havia os transmissores e os receptadores. Campos bastante distintos. Hoje no. Qualquer pessoas que possua um computador conectado rede, transforma-se tambm num emissor de mensagens. Mas no pode falsific-las. No apenas por causa da responsabilidade legal, mas sobretudo em face do poder de convencimento que a irrealidade no possui. A mentira no pode mudar o conteudo das coisas.

Tanto no pode que, seguindo a orientao da tropa de choque que tomou o Senado de assalto, o senador Paulo Duque nega-se a colocar em discusso, como seria de seu dever, as representaes contra o presidente da Casa. Se a Internet tivesse o poder que Sarney lhe atribui, dizendo-se vtima dos sites, seus adeptos inundariam a mesma rede (de sites) com mensagens positivas a seu respeito. Mas no conseguem faz-lo. Por qu?

Porque os mecanismos de comunicao so muito mais lgicos do que mgicos. preciso que as afirmaes veiculadas, sejam em que sentido forem, possuam conteudo concreto. Caso contrrio, evaporam-se no ar sem causar qualquer efeito. H alguns anos, por exemplo, um empresrio paulista, contrariado por ter o Bradesco lhe negado crdito adicional, de vulto, colocou num site em Londres a notcia de que o banco iria falir. Fez isso. Algum acreditou?Ningum. Est a, portanto caracterizada a diferena que o socilogo e acadmico Helio Jaguaribe coloca entre o continente e o conteudo.

No h no mundo, felizmente, algum capaz de destruir a reputao de outro se contra este outro no existir alguma coisa que justifique o ataque devastador. O senador Jos Sarney, portanto, se equivoca. Ele no um nufrago indefeso, vtima de um maremoto de injustias e inverdades. Se assim fosse, nem os jornais, tampouco os sites, obteriam qualquer efeito na cerrada carga de ataques que lhe fizeram e esto fazendo. Isso de um lado.

De outro, ao contrrio do que o ex presidente da Repblica sustenta, os sites no tm, nem de longe, o poder dos jornais. Uma coisa ver informaes na tela. Outra, muito diferente, ler os textos impressos. A diferena torna-se ainda maior se sairmos do campo da informao e ingressarmos na rea da opinio. Anlises em sites tornam-se enfadonhas, pesados, pouco agradveis, sobretudo quando se trata do estilo de escrever.

O prprio Sarney, que escreve agradvel e muito bem, no caso em espcie, passa a apresentar a anttese do prprio pensamento que formulou no artigo. Se os sites so to fortes, a ponto de poderem destruir a reputao de qualquer um, porque no os usa para defender e reconstruir sua imagem? Para defender sua imagem, ele escreve em jornais como FSP e JB. Sarney, ao atribuir uma fora atmica aos sites, esquece a sua prpria fora de senador empresrio e intelectual. Equivoca-se definitivamente.

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