Sarney ontem: “Ninguém pode me acusar de nada”.

Em 1985 queria ser vice do CORRUPTO Maluf, foi presidente de Tancredo

Ontem, 5 de agosto, 55 anos do atentado da rua Toneleros contra Carlos Lacerda, no qual morreu o major Rubens Vaz. Uma terça-feira. Dois dias antes, no grande Prêmio Brasil, Getulio havia sido vaiado na social do Jóquei Clube, muito diferente da social de hoje. Na raia, Rigoni vencia seu primeiro GP Brasil montando El Aragonez. Venceu numa chegada impressionante.

55 anos depois, a crise política contamina o país da mesma forma. Na história brasileira, em cada momento importante, um golpe, a posse do vice, e quase sempre um morto. Se formos dizer que 1954 terminou com a morte (voluntária mas politicamente genial de Vargas) estaremos esquecendo toda a História.

1889 foi um golpe de militares contra os Propagandistas. Não morreu ninguém, mas o presidente Deodoro foi substituído pelo vice Floriano. Até 1930 dezenas de golpes de bastidores, e o golpe apresentado como Revolução, e a morte de João Pessoa.

15 anos de ditadura, o ditador sendo eleito por ele mesmo, morreria em 1954, assumindo o vice Café Filho.

Juscelino, um dos raros a ficar o tempo inteiro, só tomou posse depois de 2 golpes. Jânio “morreu” em 1961, assumiu o vice João Goulart. Este foi deposto, surgiu a ditadura de 1964 a 1985, 21 anos vindos diretos de 1889, onde tudo começa.

Mas, na verdade, os “historiadores” de segunda-feira no Senado, ou não tinham idade ou se tinham, faltava poder de análise ou compreensão. O fim da ditadura foi negociado, (quase sempre é) mas no meio do caminho surgiu a emenda constitucional das “DIRETAS, JÁ”, que modificou tudo. Criado o parlamentarismo, acabou a tranquilidade.

Vigorando o bi-partidarismo, mesmo entre MDB e Arena, identificados como partidos do “SIM” e do “SIM, Senhor”, pelo menos se sabia quem era adversário, quem era correligionário.

Dante de Oliveira revolucionou (a palavra exata é essa) a história e a política que a ditadura pretendia regulamentar ou regular. Para que os “culpados” da violência, do autoritarismo, da arbitrariedade, da tortura indiscriminada pudessem morrer em paz. (O contrário do que aconteceu na Argentina, ditadura violentíssima também, mas apenas de 7 anos).

Foram 15 meses de HISTÓRIA MEMORÁVEL, sensação, divisão, união, incerteza. Como ninguém sabia de nada, uns eram pelas DIRETAS, outros pelas INDIRETAS, e muitas surpresas. Mas o que é inesquecível, mas INESQUECÍVEL mesmo, é o comício do dia 10 de maio, na Candelária. Jamais imaginei poder ver 1 milhão de pessoas, na horizontal, na avenida Getulio Vargas, de ponta a ponta.

Lançada no dia 9 de março de 1983, e liquidada 15 meses depois, Tancredo Neves já governador de Minas, Ulisses Guimarães, presidente do PMDB e da Câmara, foram jogados indiretamente um contra o outro. Não havia jeito, não foram presos, cassados, exilados ou perseguidos, suas histórias assustavam a ditadura. Mas de forma inesperada tiveram que dividir comícios, palanques, posições e objetivos.

Tancredo e Ulisses se amassem e se odiassem, se acarinhassem e se hostilizassem, se enfrentassem e se juntassem. Na esteira deles vieram Maluf e Andreazza (com apoio sofrido de Figueiredo) Aureliano Chaves (que era vice de Figueiredo, mas nem se olhavam, quanto mais falar) e o PFL (Partido da Frente Liberal) que vinha para ganhar. Sarney nem aparecia na foto, apesar de ter dado um soco na mesa e fundado o PDS.

Brizola, governador, conversava muito comigo ( o mesmo que Lacerda governador, sabiam que eu não queria nada) tinha confiança nas minhas análises. Uma noite, tomando o famoso “café gaúcho”, Brizola me perguntou: “Você acha que a eleição direta virá quando eu ainda for governador?”. Isso era 1983.

Imediatamente respondi: “Governador, DIRETAS só em 1990. O mandato de Figueiredo acaba em 1985, ele será sucedido por um civil que não seja Maluf nem tenha sido contra a ditadura, ostensivamente. Esse ficará 5 anos”. E concluí: “Brizola, é puro exercício de aritmética”.

Lamento, Brizola, apavorado, fez a proposta de prorrogação do mandato de Figueiredo. Não era por amor à ditadura, ele queria mais dois anos para manobrar. Não deu certo, o próprio Figueiredo queria ir embora, não aguentava mais.

Houve então o explosivo e IMPORTANTÍSSIMO encontro reservado, Maluf-Figueiredo. Se estivessem armados, não teria terminado. Só Maluf ganharia aquela batalha. Depois de horas, o “presidente” aceitou a proposta de Maluf: “Não me apóia mas não me impede de fazer campanha”.

Saiu contando o que acontecera, era candidato. Aí, apareceu Sarney só querendo ser vice. Pediu ao grande jornalista Oliveira Bastos que fosse conversar com o ex-prefeito e ex-“governador”. Quando ouviu o que Sarney queria, Maluf deu o berro: “De jeito algum”.

A batalha das “DIRETAS, JÁ” continuou, mas insensata ou deliberadamente fizeram este desenho: nas DIRETAS o candidato seria o doutor Ulisses, nas INDIRETAS, Tancredo Neves. Era verdade, mas nem Tancredo nem Ulisses se traíram. Tancredo foi um dos grandes do comício de 10 de maio. E muitos tinham como certo que Tancredo formava o Ministério.

Tendo sabido que Sarney queria ser vice de Maluf e sabendo que não podia ganhar do PDS-PFL, pediu ao seu homem de maior confiança e habilidade política, Fernando Lira, para “ir buscar” Sarney, o que era facílimo de conseguir.

Maluf, que sempre manobrou muito bem o dinheiro obtido na construção da MARGINAL (que desconfio tenha esse nome não por acaso), massacrou Andreazza, que era acusado de ter mais dinheiro do que Delfim Netto, perdeu fácil para Maluf. Este achava que ganharia de Tancredo, as “DIRETAS, JÁ” perderam por pouco, mas perderam.

Brizola não mandou votar em Tancredo, Lula expulsou do PT o bravo deputado Airton Soares, só porque votou em Tancredo. Lula é um ILUMINADO, faz análises iguais a essa, perde três eleições presidenciais, ganha na quarta, se transforma num personagem.

*  *  *

PS – Há muito mais para contar, a memória retém fatos inesquecíveis e duradouros. Pela primeira vez na nossa História, um vice assume por causa da morte do efetivo.

PS2 – Mas não foi MORTE CONTRA e sim rigorosamente acidental. Mas aí já é outra história.

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