Sarney redivivo

Carlos Chagas

Falou para cadeiras vazias, num plenário com apenas quatro senadores. Pior para os ausentes,  pois lembrou  São Francisco, que falava aos pássaros. A referência é para o senador José Sarney, na manhã da última sexta-feira, quando pronunciou um dos mais importantes discursos da temporada, analisando a crise atual, apontando o que lhe pareceram as causas, mas apontando soluções. Fazia tempo estava devendo palavras de contundência, ironia e esperança, que o haviam caracterizado lá atrás.

Para o ex-presidente da República, a frenética busca pelo aumento do PIB, a competição  que divide os homens, a acumulação de bens como objetivo maior, enfim, a sociedade industrial que criamos, deixa de lado os valores humanos.

O mundo mudou, a população transferiu-se para as grandes cidades, nelas encontrando vantagens mas enfrentando problemas terríveis, desde a mobilidade urbana às deficiências na educação e na saúde públicas, assistindo a  corrupção crescer e multiplicar-se. Sem falar na violência que faz o Brasil liderar as estatísticas de  homicídios no planeta, sob responsabilidade da legislação  penal , pois somos o único país onde um indivíduo mata outro e vai defender-se em liberdade. Daí o stress e até a  esquizofrenia.

Reconheceu que a maioria ascendeu à classe média, aumentando o consumo de bens materiais, contra a busca de bens culturais. Mesmo com o Brasil passando por um bom momento, tornando-se a sexta economia do mundo, beirando o pleno emprego  enquanto na Europa somam-se 26 milhões de desempregados, ainda assim assistimos a insatisfação ganhar as ruas, não se notando as reivindicações institucionais do passado, quando se clamava por liberdade  e mais emprego. A crise tem componentes novos, o povo exige melhor qualidade de vida. A busca da felicidade das pessoas resume o que nos falta. Apesar dos bens que possui em casa, do lado de fora acumulam-se as dificuldades e amarguras  para o cidadão.  Enquanto isso, a opinião pública  tornou-se interativa. A televisão simplesmente acompanha a crise, pautada pelas redes sociais.

Em dado momento, o três vezes presidente do Congresso elogiou o poder que comandou, lembrando através de diversos episódios de nossa História   não ter a nação se constituído por meio de batalhas, mas pelas soluções legislativas. Reconheceu ser imperfeito nosso sistema político, porque não temos partidos, não há representatividade, em cada eleição  os candidatos saem atrás de dinheiro, o voto proporcional destrói o Congresso, há demagogia, políticas pessoais mas, no fim de tudo, é o sistema eleitoral que enfraquece as instituições. Necessário se torna mudar, derrubando as barreiras de separação entre os partidos, buscando-se a colaboração de todos em torno do interesse nacional. A hora é de união. Não podemos dividir-nos quando há crise , só criar soluções, pois nós passamos e o Brasil continua.

Sarney elogiou a presidente Dilma, chamando-a de “sacerdotisa  do serviço público”, que enfrenta graves problemas mas procura diminuir a diferença entre ricos e pobres.

Em suma, um diagnóstico amplo onde não faltaram críticas ao modelo econômico que nos  assola, e ao mundo. A leitura do pronunciamento fica entre duas paralelas: a importância de melhor qualidade de vida para a população e a necessidade da união dos  políticos acima de confrontos partidários.  O triste nesse capítulo de participação do ex-presidente na busca de saídas para a crise não foi a ausência de senadores para ouvi-lo. Os pássaros terão tido proveito melhor. Triste mesmo foi a falta de registro na imprensa do fim de semana. A preferência continua a ser para crimes, assaltos, estupros  e, sem dúvida, também para a necessidade do crescimento do PIB…

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6 thoughts on “Sarney redivivo

  1. Chagas,

    no governo de Sarney foi promulgada uma lei cujo número deveria estar gravada no batente das portas de entrada dos imóveis residenciais de propriedade do morador.

    Trata-se da impenhorabilidade do imóvel residencial, o bem de família. Penhora do mesmo somente para as dívidas de condomínio, IPTU e fiança.

    Caro leitor, muito cuidado, portanto, em ser fiador.

    No Código Civil, que é de 1916, já estava instituida a impenhorabilidade do bem de família. Mas o proprietário teria que ir ao Registro de Imóveis e fazer uma série de trâmites burocráticos para tornar o imóvel residencial em bem de família.

    Como a maioria das pessoas pobres e da classe média não sabe a diferença de um Cartório de Notas de um Cartório de Registro de Imóveis poucos tomavam essa providência.

    Os bancos, os agiotas, os credores nadavam de braçada e as famílias tinham que vender o imóvel residencial para quitar as dívidas.

    A lei de impenhorabilidade com poucos artigos resolveu isso. O imóvel residencial é bem de família,impenhorável e pronto[com as ressalvas acima].

    Reconheçamos isso a Sarney e sua sensibilidade.

    Mas não é que no magnãnimo governo Lula abriram brechas para penhorar esse imóvel. Há um limite do valor do imóvel para que ele não seja penhorado.

    Algum advogado que leia esse comentário talvez possa explicár o limite.

    O condestável de Garanhuns não vetou a lei para agradar os agiotas, isto é os bancos, os mais interessados.

    Agora está em gestação nos bastidores da Câmara a penhorabilidade dos salários para certas dívidas.

    Diz um bondoso advogado: penhora “somente de 30% do salário”, no máximo.

    Os tribunais tem reconhecido alguma penhora nesse sentido.

    Não se tem notícia de um deputado ou senador do PT se pronunciar contra esse ovo de serpente contra o povo.

    Mais incompetente que o PT e omisso nos intresses reais do povo somente a atual oposição.

  2. O interessante e que o articulista Carlos Chagas transcreve o discurso de Sarney sem nenhum comentario sobre sua passagem na politica brasileira que tanto mal que causou a nossa populacao e um cara de pau o Sr articulista.

  3. Chagas,
    você conhece muito bem a ficha pregressa do indigitado
    senhor.
    Tem ele condições morais de falar em crescimento de corrupção.
    Como é que ele ficou dono do Maranhão?

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