Saudades do Itamar

Carlos Chagas

De vez em quando os companheiros escorregam. No fim de semana foi a vez de Rui Falcão, presidente nacional do PT, que ao defender a permanência de Carlos Lupi no ministério do Trabalho, mesmo só até janeiro, saiu-se com monumental despautério. Disse não haver contra o ministro nenhuma denúncia comprovada. Ora, denúncia comprovada significa crime, quer dizer, processo transitado na Justiça e condenação. Inexistindo essas peças completadas, denúncia é apenas denúncia, por mais grave que seja.

Tome-se o Nem da Rocinha. Contra ele alinham-se denúncias de chefe do tráfico, formação de quadrilha, assassinato e sucedâneos. Mas a comprovação, onde está? Só depois da sentença judicial. Por conta disso, o bandido deveria gozar de liberdade? A cada dia mais dá saudade de Itamar Franco, aquele presidente da República que ao primeiro sinal de denúncia contra algum ministro ou auxiliar, mandava que se afastasse do cargo. Que fosse provar inocência, livre dos encargos oficiais.

Comprovada a falsidade da denúncia, voltava com direito a tapete vermelho e elogios. Essa situação aconteceu apenas uma vez, com seu chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves. Em todas as outras, ninguém voltou.

Traduzindo: denúncias consistentes devem gerar afastamento, pelo menos liminar. No caso do raciocínio de Rui Falcão, pode-se detectar uma azeitona escondida na empada. O PT está de olho no ministério do Trabalho. Pretendem, os companheiros, abocanhar a pasta, o que seria possível no bojo de uma reforma ampla da equipe de Dilma Rousseff, prevista para janeiro.

Para o companheiro-presidente, exonerar Lupi agora envolveria o risco da repetição do que se verificou nos ministérios dos Transportes, do Turismo, da Agricultura e dos Esportes: o partido dos ministros afastados continuaria indicando os substitutos. A presidente pediria ao PDT outro nome para o lugar de Lupi ou pinçaria na legenda alguém de sua confiança?

Esperar janeiro abre outras perspectivas, daí a defesa feita pelo comandante do PT.

***
MOCHILAS, FORA

Como a demonstrar que a luta contra o crime organizado e contra a corrupção mal começou a partir da ocupação das favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, basta atentar para a determinação das autoridades fluminenses à tropa que subiu o morro. Soldados e agentes estão proibidos de levar mochilas. A causa, detectada pela Polícia Federal, é simples: nas ocupação de outras favelas, alguns maus policiais saquearam bens dos moradores, desviaram armas apreendidas, embolsaram dinheiro dos traficantes e, quem sabe, esconderam drogas descobertas nas varreduras.

Mesmo sem mochilas, sempre poderão levar alguma coisa na cueca, mas fica mais difícil.

***
PACIFICAÇÃO ATÉ COM OS BANDIDOS

A ninguém será dado ficar contra as operações fluminenses de ocupar as favelas e criar as Unidades de Polícia Pacificadora, libertando as populações sacrificadas do jugo dos traficantes e criminosos. Claro que importa seguir adiante, impedindo os bandidos de retornar, bem como evitar a criação das milícias empenhadas em comandar e explorar as comunidades. O problema é que a pacificação terá ido longe demais, pois abrangeu também os bandidos.

Na Rocinha, como antes no Complexo do Alemão e outras favelas, eles foram avisados com muita antecedência do dia e da hora da ocupação pelas tropas combinadas. Quer dizer, a autoridade pública mandou aos bandidos recado inequívoco de que deveriam sair incólumes, ou quase. Foi ótimo para evitar tiroteios, morticínio e caos. Mas muito bom, também, para os criminosos, que tiveram tempo de fugir, esconder-se e, certamente, levar com eles o grosso do armamento e até das drogas.

É salutar ver que a população desses bolsões de pobreza respira mais aliviada, mas triste verificar que os bandidos, também.

***
TUDO DE UMA VEZ?

Indaga-se, a respeito da próxima reforma do ministério, se a presidente Dilma irá anunciá-la de uma só vez ou, ao contrário, promovê-la a conta-gotas. Melhor seria a primeira hipótese, mas certas iniciativas não acontecem como se deseja. Dificuldades poderão sobrevir, menos na dispensa de certos ministros, mais na escolha dos novos.

Os partidos não darão trégua na ânsia de preservar suas capitanias hereditárias. No âmbito deles, as disputas prenunciam-se acirradas. A menos, é óbvio, que a presidente considere-se desobrigada de manter feudos em seu governo, selecionando os melhores onde eles se encontram, mesmo fora dos partidos. De qualquer forma, no recôndito de seu travesseiro, ela já deverá dispor de um esboço da relação dos dispensados e do rol dos aquinhoados.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *