Saudades do Rodolfo, aquele adolescente que começou a trabalhar como jornalista trazendo a namorada a tiracolo.

Carlos Newton

Supereducado, falava sempre baixo, discreto e bem-humorado, não gostava de chamar atenção. Era um adolescente que só andava com a bela namorada a tiracolo, onde ia, ela ia junto. Foi assim que entrou na redação da Tribuna da Imprensa, em seu primeiro dia de trabalho.

O jornal estava em graves dificuldades, vivia exclusivamente com base no trabalho de Helio Fernandes, que escrevia um artigo na primeira página e a famosa coluna na página 9. A equipe tinha poucos repórteres, não havia nenhum na redação quando veio a informação de que a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), na praia do Flamengo, estava sendo invadida pelo juiz Aarão Reis, para evitar a demolição do prédio.

E lá foi Rodolfo para fazer a cobertura da importante matéria, com a namorada a tiracolo, é claro, e o fotógrafo. O irmão mais velho, Helinho, que na época era vereador pelo MDB, já estava lá na UNE, junto com o juiz, lutando para impedir a demolição. Lembro até que o magistrado sacou um revolver 32, foi uma cena patética.

Quando Rodolfo voltou à redação, sentou e escreveu a reportagem, ao lado da namorada e trocando idéias com ela. Uma cena jamais vista, em nenhuma redação do Brasil e do mundo. E eu assistindo a tudo, como Editor de Política, ansioso para que ele me entregasse  logo  o texto e pudéssemos fechar a edição, já que o assunto, é claro, seria a manchete do jornal.

Quando Rodolfo terminou de datilografar e me passou a matéria, fiquei surpreso. Não havia praticamente nada a revisar. A reportagem tinha sido muito bem redigida, eu estava diante de um jovem com alma de jornalista, desses que já nascem prontos, igual ao pai e ao tio Millôr.

Ficamos amigos para sempre. Sinto falta dele, sinto falta do Helio e sinto falta também de meu grande amigo Helinho Fernandes, que me amparou num momento de muita dificuldade e lhe serei grato pelo resto de minha vida. Sinto também falta do Millôr. Ele e Helinho também estão doentes.  Rezo para que se recuperem, peço que Deus os ampare, assim como ao Helio, à Dona Rosinha e aos outros três filhos dessa extraordinária família.

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