Se a Odebrecht desistiu do Maracanã, a dupla Fla-Flu não deve administrá-lo

Charge do Genilso (genildoronchi.blogspot.com)

Pedro do Coutto

Em sua coluna no Globo, edição de sábado, Ancelmo Gois revela que o prefeito Eduardo Paes está disposto a receber o Maracanã das mãos do governador Francisco Dornelles e, algumas semanas depois, repassar a administração do Estádio Mário Filho à responsabilidade conjunta do Flamengo e do Fluminense. Tal solução não pode funcionar, não pode dar certo. Pois se a Odebrecht, que recebeu a concessão do Estádio Mario Filho do governo Sérgio Cabral, desistiu de operá-lo, alegando prejuízo financeiro, não serão o Fluminense e o Flamengo que vão conseguir administrá-lo. A responsabilidade pelo Estádio é ou do Estado do Rio de Janeiro ou da Prefeitura da cidade.

Foi assim que o Maracanã nasceu, tendo sua construção sido iniciada em março de 48, projeto do vereador Ary Barroso, concluída para a Copa de 50 pelo prefeito Mendes de Moraes, governo Eurico Dutra. O projeto partiu de uma campanha do jornalista Mário Filho, que era diretor proprietário do jornal dos Sports e irmão de Nelson Rodrigues.

NASCEU MUNICIPAL – A campanha se chamava A Batalha do Estádio. Maracanã e nasceu municipal, pois na época o Distrito Federal era administrado por prefeito nomeado pelo presidente da República.

Com a criação do Estado da Guanabara em 1960, passou à administração estadual. Seu projeto arquitetônico foi concebido pela equipe de Orlando Silva de Azevedo e era absolutamente moderno para sua época. Foi criado um sistema de drenagem capaz de absorver, até o máximo possível as águas que vinham da chuva.

No sentido de assegurar um distanciamento entre os torcedores e as equipes e os juízes, foi construído um fosso, que durante mais de 50 anos impediu as invasões de campo, muito comuns em outros estádios do Rio de Janeiro.

E o Maracanã carrega consigo a tradição histórica de ter sido o local onde foi disputada a primeira Copa do Mundo no período após guerra, que começou em 39 e acabou em 45.

PRIVATIZAÇÃO – Dando ênfase a uma política que considerou de privatização, o governo Sérgio Cabral terminou firmando um contrato com um consórcio de empresas liderado pela Odebrecht para manter financeiramente e operacionalizar comercialmente os espetáculos programados para sobre o gramado que marcou tantas decisões no futebol brasileiro.

Constata-se que a privatização não deu certo, pois, caso contrário, a Odebrecht não teria se retirado dela.

Quando a Odebrecht anunciou o rompimento do contrato, o governador Luiz Fernando Pezão afirmou que de forma alguma o estado iria recebê-lo de volta. Falou como se o Maracanã não fosse um bem público. E tanto era um bem público que foi concedido a uma empresa privada.

CONCESSÃO – Pezão esqueceu que só se pode conceder aquilo que pertença ao concessor. Portanto, se o concessionário não deseja continuar funcionando a obrigação do estado é receber o que lhe pertence de volta. Entretanto, não parece ser essa a vontade do governador Francisco Dornelles.

Segundo Ancelmo Gois, ele quer repassar o estádio ao prefeito Eduardo Paes, que por sua vez quer transferi-lo a rubro-negros e tricolores. Não faz sentido essa dupla fuga à responsabilidade. Além do mais, que dizer das obras realizadas no Mário Filho, realizadas pelo consórcio, que depois de usufruir seus resultados decidiu simplesmente pela devolução do grande estádio.

É muito fácil pagar os custos pelas obras executadas e não arcar com encargos operacionais posteriores. Se o Maracanã hoje está vazio a culpa cabe não só à eliminação do distanciamento entre as torcidas e o gramado, mas sobretudo ao grande aumento de preço fixados para os ingressos.

Mais um detalhe: as obras de remodelação do Maracanã custaram 398 milhões de reais a mais do que o preço previsto. E o poder público tem obrigação de manter o patrimônio público, que pertence à população.

8 thoughts on “Se a Odebrecht desistiu do Maracanã, a dupla Fla-Flu não deve administrá-lo

    • Até de graça, Peter, já é lucro. O Maracanã antigo era uma construção sólida, robusta e bonita. Agora virou uma coisa que mais parece carro alegórico de escola de samba. E, o que é pior, deixaram o povão de fora!

  1. O grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO analisa a questão da desistência do Contrato de Operação/Manutenção do grande Estádio MÁRIO FILHO (Maracanã), entre a ODEBRECHT SA e Estado do RIO DE JANEIRO.
    A Iniciativa Privada não consegue Lucro e quer devolver para o Poder Concedente. O Estado RJ, que não quer assumir o Prejuízo de tal Operação/Manutenção. E faz bem.

    Repassar para a Prefeitura do RJ que imediatamente repassaria o Contrato para a dupla Fluminense & Flamengo, como nos diz o
    experiente Jornalista, é inviável, porque são dois Clubes de Futebol já grandes Devedores e não oferecem as garantias necessárias.
    O mais viável é o Governo do Estado RJ cobrar a grande MULTA RESCISÓRIA da ODEBRECTH SA, e com ela fazer um Fundo para subsidiar o novo ganhador do Leilão de Concessão.
    Aparentemente, um dos Candidatos mais viáveis para ganhar o novo Leilão seja a Rede Globo SA.

    • A meu juízo, perfeita sua análise Flávio. O Estado tem o dever, a obrigação legal de cobrar a multa rescisória da Odebrecth por ter abandonado a concessão do Maracanã.

      A LEI MANDA COBRAR

      Se o governador interino Francisco Dornelles não fazê-lo-á a cobrança da multa rescisória pelo abandono da concessão pactuada estará incorrendo em crime de responsabilidade passível de impeachment. Os governantes costumam ser bonzinhos e até lenientes com empreiteiras e grandes empresários poderosos e cruéis com servidores públicos e o povão carente.

      PARA EMPREITEIRAS A LENIÊNCIA

      Querem flexibilizar tudo, privatizar tudo, aumentar impostos e punir os aposentados e pensionistas para debelar a grave crise fruto de incompetência para não dizer burrice atávica e transcendental no pior sentido, além da corrupção gigantesca é claro.

      O EXECRÁVEL FINANCIAMENTO PRIVADO DE CAMPANHA

      O Legislativo e o Executivo estão reféns das empreiteiras e dos financiadores de campanha. E a entrevista do ex-parlamentar e ex-governador de Pernambuco, Roberto Magalhães concedida ao jornalista Geneton Morais no programa Dossiê Globo News atesta a simbiose entre o público e o privado. O político aposentado afirmou que por menos de três milhões de reais dificilmente um deputado consegue a eleição. Então, recorrem as empreiteiras, que depois cobram a fatura. Para ter isso, qual a utilidade do PODER LEGISLATIVO? Se depois os senhores parlamentares precisam retribuir o favor aos grandes financiadores, logo o processo legislativo já nasce viciado. Um vício na origem.

      PRIVATIZAÇÕES DE COLLOR, FHC, DILMA E LULA

      Os financiadores de campanha pressionaram os governantes para privatizar empresas públicas para entregarem tudo a eles, como forma de recuperar o investimento nas eleições de suas excelências. A LAVA JATO comprova a utilização de cartéis nas privatizações das empresas do Estado, portanto, patrimônio do cidadão brasileiro vendido na bacia das almas por preços irrisórios. Mesmo assim, as incompetentes empreiteiras não conseguem administrar as concessões, sob a alegação de prejuízos. Se não adviesse a maior crise financeira de todos os tempos, tanto Dilma como Temer iriam socorrer a Odebrecht como já socorreram a COTIA, a ENRON e o BANCO PANAMERICANO com dinheiro subsidiado do BNDES e da CAIXA ECONÔMICA.

      A LAVA JATO EXPÕE A LUZ NA ESCURIDÃO DAS PRIVATIZAÇÕES

      As delações premiadas dos executivos da OAS, da Andrade Gutierrez, da Engevix e da Odebrechet, além de outras menos votadas demonstram a rapina que fizeram no Brasil. O roubo foi de tal monta, que deveriam ficar na cadeia pelo resto de suas vidas. Prisão perpétua é pouco pelo mal que causaram ao povo.

      “FALTA A PRISÃO DOS REPRESENTANTES DO POVO”

      As prisões de executivos (diretores) das empresas estatais e dos presidentes das empreiteiras na operação LAVA JATO são fatos alvissareiros da mudança que ocorre lentamente no país. Mas, falta atingir a outra ponta da corrupção incrustada no Legislativo. Reconheço, que MORO, os procuradores e os delegados federais estão sob intensa pressão do PODER ECONÔMICO e seu braço político, por esta razão, os parlamentares sob a proteção malévola do foro privilegiado estão conseguindo escapar da cadeia.

      É PRECISO MUDAR O PROCESSO POLÍTICO

      O ex-governador Roberto Magalhães expõe na entrevista do Dossiê, que somente o voto distrital misto poderá dar algum alento na representatividade do cidadão. Perguntado como seria o futuro Congresso, Magalhães respondeu com a afirmação de Ulisses Guimarães: ” se você reclama do atual Congresso espere pelo próximo”. Provavelmente será muito pior e tem sido assim desde o desaparecimento de Ulisses nas águas frias de Angra dos Reis.

      No entanto, o fim do financiamento de campanha, votada pela maioria do Colegiado do STF em agosto passado apesar da oposição ferrenha do Relator Gilmar Mendes poderá ser uma esperança de igualdade de oportunidade para todos os candidatos e tem também os efeitos da LAVA JATO, que está deixando os doadores de cabelo em pé.

  2. O esporte nasceu para ser amador e praticado por todos.
    Quando a “esperteza” o profissionalizou, jogou na vala comum da ganância do mercantilismo.
    Agora, o futebol que é gerido como máfia, começa a dar sinais de esgotamento por excesso de atividades com fins de enriquecimento dos seus envolvidos.
    Assim como o boxe, a formula 1 e outras modalidades altamente remuneratórias a atletas e cartolas, esta a cair do gosto popular.
    Verdadeiras peladas com entrada a preço de apresentação de ópera italiana, levam os adeptos a desgostarem do futebol, sem contar os jogares mau- caráter que são endeusados pela mídia.
    Poderiam transformar o maracanã em um centro educacional de referência, faria mais sentido.

  3. Ninguém pode ser contra os estádios de futebol, porque grande parte da população tem adoração pelas disputas estaduais e nacionais, como o Campeonato Brasileiro. Temos de admiti-los como um bem necessário, embora na Copa do Mundo tenha havido megalomania (e corrupção e muita) na construção de estádios em estados onde o futebol ainda é incipiente, não há bons times, não há bons jogos e o público não vai pagar para assistir peladas, prefere ver jogos dos estados que têm um melhor futebol pela televisão. Assim, em Brasília e na Amazônia, construiu-se elefantes brancos, cuja manutenção é cara e logicamente os administradores terão prejuízo.

    O Clube Atlético Mineiro tem insistido em usar como estádio, em seus mandos de campo, o Estádio Independência, porque as taxas que precisam ser pagas ao Mineirão dão prejuízo ao Clube, e o Cruzeiro, que insiste em usar o Mineirão em jogos que têm mando, tem-no feito, mas o clube está quebrado, sem poder manter ou contratar jogadores de qualidade e hoje briga para não cair para a Série B do Campeonato Brasileiro. É o Cruzeiro que sustenta o Mineirão, embora a recíproca não seja verdadeira.

    Passado exatamente um ano da abertura da Copa do Mundo no Brasil, os estádios, anunciados como o principal legado esportivo para o país, se tornaram uma dor de cabeça para clubes, governos e concessionárias.

    Oito dos 12 estádios construídos ou reformados para o Mundial são deficitários. Acumularam em 2014 prejuízo superior a R$ 126 milhões.

    Levantamento realizado pela reportagem da Folha aponta que Arena da Baixada (PR), Arena Pernambuco, Arena Pantanal (MT) e Maracanã fecharam o ano de 2014 no vermelho.

    Também ficaram no prejuízo Fonte Nova (BA), Mané Garrincha (DF), Arena da Amazônia e Castelão (CE).

    E os oito estádios seguem com dificuldades para se viabilizar financeiramente.

    Só Itaquerão, Mineirão, Beira-Rio e Arena das Dunas tiveram lucro. A arena corintiana, porém, ainda não começou a ser paga.

    O estádio com a situação mais crítica é o Maracanã, que registrou R$ 77,2 milhões de prejuízo em 2014 –no ano anterior, primeira temporada após a reforma, o rombo foi de R$ 48,3 milhões. É preciso dizer que os clubes do Rio de Janeiro, atualmente, só têm jogadores pernas de pau, o que afasta o torcedor do estádio do Maracanã. Não há um time carioca que preste, atualmente.

    Segundo especialistas, uma equação envolvendo a baixa qualidade dos jogos, os horários das partidas (muitas vezes, às 22h) e o alto custo de operação dos equipamentos modernos do estádios explica esse deficit. Os valores que a Rede Globo paga pela exibição da imagem são insuficientes para ajudar na manutenção dos estádios, e têm o defeito de, ao adequar o horário dos jogos às suas alienadas novelas, afastam o público do Maracanã. Os torcedores trabalham, e não podem se sujeitar a sair do Maracanã depois da meia-noite, pegar o trem da Central e levantar às 5 horas da manhã para ir trabalhar.

    • Corretíssimo Ednei Freitas. Entretanto, a ODEBRECHT reconstruiu o Maracanã com dinheiro público e ganhou a concessão – privatização achando que iria lucrar muito com a administração do antes, maior estádio do mundo. Os prejuízos no entanto, não param de subir e como empresário e empreiteira não jogam dinheiro pela janela estão devolvendo para o Estado do Rio de Janeiro o mico da privatização. E agora José, quer dizer o Sr. Cabral o sumido, aquele mesmo responsável pela entrega-doação do Maraca para a rainha das empreiteiras. É o que sempre venho afirmando, a privatização não é essa oitava maravilha do mundo. Os empresários só querem assumir uma empresa lucrativa. Prejuízos são recusados por eles solenemente e ainda quando há possibilidade de lucro, se tornam incompetentes para reverter a situação. Em última instância devolvem o elefante branco para o Estado. Assim é mole e até eu gostaria de pilotar essa aventura e depois sair ileso sem a cobrança de multa por não cumprir cláusula contratual.

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