Se arrecadao recuou foi o consumo que baixou

Pedro do Coutto

Reportagem de Renato Andrade, O Estado de So Paulo de 13 de outubro, revela que o governo est praticando um sistema de cortes em fundos especiais administrados por ele prprio para fazer caixa e assim compensar a queda verificada na receita pblica. O perodo focalizado foi o de Janeiro a Setembro. Sinal, portanto, de que a economia ainda no reaqueceu apesar do clima de otimismo sem dvida existente no pas. Mas fazer caixa deixar de investir e isso bloqueia os reflexos que as aplicaes de capital produzem na administrao e na sociedade. O fenmeno adia a plena retomada do processo de desenvolvimento. E este processo fundamental porque preciso considerar a taxa inflacionria, em torno de 4,5% para os ltimos doze meses, e o fato de a populao crescer velocidade de 1,2% ao ano. Assim, cada recurso que deixa de ser utilizado de forma reprodutiva e multiplicadora produz um dficit social disfarado, ainda que aparentemente contribua para estabilizar as contas oficiais. Estabilizar as contas oficiais bsico e o governo Lula tem alcanado xito no setor. Mas no tudo. H um outro lado na questo. o do crescimento do poder aquisitivo com o menor comprometimento possvel em termos de dvidas dos assalariados.Caso contrrio, se depender do crdito, o consumo avana, mas o endividamento tambm e o fenmeno reduz a possibilidade de um crescimento maior (e melhor) da poupana interna. E a poupana interna, no Brasil, muito pequena se compararmos com as de pases industrializados e desenvolvidos. Quanto menor for a capacidade de poupana, mais altos sero os juros,maias elevado o endividamento tanto da populao quanto do pas. Alis no existe pas sem povo. O progresso o resultado do encontro de dois fatores. Pois s se produz o que se consome. E s se consome o que foi produzido.

O dinheiro para as pessoas, e para os maiores projetos econmicos, no , tampouco pode ser um fim em si mesmo. um instrumento de realizao e de construo. J vai longe o tempo em que os milionrios (hoje bilionrios) juntavam recursos monetrios pra si, como se tal tipo de comportamento fosse smbolo de sucesso.No . Esta questo foi muito bem comentada pelo ex ministro da Fazenda, Otvio Gouva de Bulhes, em seu livro Dois Conceitos de Lucro, 1969, editado pela Fundao Getlio Vargas. Suas colocaes, claras e serenas, como era de seu estilo, permanecem atuais como exemplo cada vez mais necessrio. Ele colocou, por exemplo, o problema dos impostos. Ressaltou que o poder pblico, por encontrar a sensibilidade que o indique qual o patamar ideal de cobrana.Porque dizia o ex ministro se vier a ser fixado um limite acima das possibilidades normais da sociedade, esta deixa de recolh-los.Claro os devedores sero fortemente cobrados, como sempre acontece. Mas vo demorar a pagar. Pagam juros e correo, mas o que ocorre? Apenas o poder pblico, dentro de um processo assim, deixa de arrecadar e investir mais rapidamente nas obras e servios de legtimo interesse coletivo. Perdem com isso tanto o poder pblico quanto a populao.

At porque servios essenciais a ela deixam, de ser concretizados nos prazos. Ento v-se o seguinte: se estes limites de tempo no so cumpridos, digamos no plano do saneamento do meio, quantas pessoas, sobretudo crianas, so diretamente atingidas em consequncia? Este clculo tem que entrar na mdia com um peso pondervel. So nmeros indiretos, pouco aparentes, mas profundamente reais.O destino de milhares de vidas depende dos nmeros que, por apresentarem efeitos indiretos, esto envoltos em sombras.

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