Se era para cortar, por que aprovaram?

Carlos Chagas

O Brasil continua o país das perplexidades. O governo acaba de cortar 55 bilhões do orçamento para o ano em curso. Ninguém se insurge contra fazer economia, não fossem dois reparos: não se completaram dois meses desde que o Congresso votou o orçamento e ele foi sancionado pela presidente Dilma. Quer dizer, ela e a equipe econômica aprovaram a previsão de gastos elaborada por deputados e senadores.

Vem agora o ministro Guido Mantega e, certamente autorizado pela chefe do governo, passando a tesoura na lei de meios. Não teria sido muito mais lógico e simples ter alterado o orçamento através de vetos feitos no palácio do Planalto? O desgaste é evidente, para a administração federal.

A segunda crítica surge pior. Cortaram gastos essenciais, inadmissíveis, a começar pela Saúde, reconhecidamente a banda podre do governo, apontada em todas as pesquisas como o ponto fraco do poder público. Sem falar nos cortes na Ciência e Tecnologia, no Meio Ambiente, na Segurança Pública e até na Educação.

Ainda esta semana a presidente da República afirmou ser a Saúde Pública sua maior preocupação. E agora vai tirar dinheiro de hospitais, postos de saúde, remédios, ampliação do número e melhoria de vencimentos para médicos e enfermeiros? Positivamente, não dá para entender, em especial porque cortes quase não se viu nos recursos destinados a empreiteiras e a bancos.

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MAIS UMA VITÓRIA DA DEMOCRACIA

Mesmo por placar apertado, o Supremo Tribunal Federal acaba de decidir que a lei da ficha limpa vale para as eleições de outubro. Os ministros mais novos, com uma exceção, decidiram em favor do sentimento nacional, da voz rouca das ruas, que exigia a aplicação imediata da lei.

Os mais ponderados e de saber jurídico mais sedimentado ficaram contra, alegando arranhões nos direitos individuais, já que cercear candidaturas de condenados pela Justiça ainda dispondo de recursos aos tribunais pode caracterizar injustiça.

Prevaleceu, no entanto, a tese de que negar registro a candidatos não se trata de punição penal, mas de exigência eleitoral. De uma forma ou de outra, a mais alta corte nacional decidiu de acordo com a tendência popular, hipótese considerada um erro por dois ministros, para os quais, entre suas funções, inclui-se a de votar contra o coletivo, se for para garantir o indivíduo.

Vale aguardar, agora, mais um pronunciamento fundamental do Supremo, o julgamento dos 38 mensaleiros responsáveis por um dos maiores escândalos dos últimos tempos, envolvendo partidos, Congresso e governo.
Ainda que nem todos os réus devam ser condenados, pelo menos os cabeças bem que poderiam sentir o peso da lei.

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UM RECUO DESNECESSÁRIO

Deu a presidente Dilma um sinal de fraqueza ao convidar mais uma vez o senador Blairo Maggi para ministro dos Transportes, convite que, aliás, ele não aceitou. A iniciativa deveu-se à rebelião no Partido da República, donatário daquele ministério, cujos parlamentares andam ameaçando votar contra projetos do governo caso não venham a ocupar o cargo do qual foi defenestrado um de seus líderes, Alfredo Nascimento.

Ora bolas, se o atual senador pelo Amazonas foi obrigado a pedir demissão, acusado de malfeitos, menos razão tem seus companheiros para tentar substituí-lo por um dos seus. Acresce que o substituto, atual ministro, também é do PR, só que não pertence ao grupo do antecessor.

Estariam as bancadas do partido imaginando entrar outra vez na caverna do Ali Babá, que o ministro Paulo Passos trancou, deixando de atender-lhes pleitos no mínimo duvidosos? Sendo assim, a presidente Dilma não deveria ter cedido às pressões, convidando Maggi. Equivaleu a desprestigiar Passos, apesar de a novela continuar inconclusa, pela recusa do empresário.

Dizem alguns auxiliares palacianos que tudo não passou de manobra sutil e maliciosa da presidente, que sabia de ante-mão da recusa do senador mato-grossense e apenas jogou para a platéia do PR, mantendo o seu preferido nos Transportes. A esperteza, quando é demais, come o esperto, diz um refrão popular, mas convém aguardar os próximos capítulos.

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ESPECULAÇÕES

Vamos supor que o ex-presidente Lula insista mesmo em que a presidente Dilma Rousseff deve disputar a reeleição, em 2014. Imaginando que até lá a chefe do governo poderá perder parte da popularidade de que hoje dispõe, os tucanos mostram-se assanhados e já iniciaram a estratégia de reforçar Aécio Neves como candidato, em especial tendo quase convencido José Serra a disputar agora a prefeitura de São Paulo.

O ex-governador aceita a proposta, mesmo deixando uma saída aberta para o caso de Dilma se tornar imbatível: disputaria outra vez o governo de Minas. A pergunta que se faz envolve a terceira força, o PMDB. Outrora o maior partido nacional, admitiriam seus líderes continuar a reboque do PT, placidamente voltando a indicar Michel Temer para vice na chapa da presidente? Ou arriscariam, como os tucanos, até por sobrevivência, enfrentar a sucessão com candidato próprio?

O atual substituto de Dilma surge como candidato natural, mas, positivamente, não empolga. Alternativas? Roberto Requião sempre será uma…

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