Se for uma tendência, Lula ocupará o espaço

Carlos Chagas                                                           

Valeu esperar a volta de  Dilma ao Brasil, ontem, para a análise a respeito da última pesquisa da Datafolha publicada domingo. Porque com  a presidente da República  de novo entre nós, qualquer comentário adquire aquela densidade às vezes perigosa,  mas sempre mais honesta.

Para começo de conversa, será bom deixar de lado a cortina-de-fumaça erigida pelo  ministro Aloísio Mercadante, sobre ter sido “normal” a queda de 65 para 57 por cento nos itens de governo “bom” ou “ótimo”, em termos de  popularidade da chefe do governo.  Normal coisa nenhuma. Muito menos um “episodio superado”,  em se tratando do aumento da inflação e de dificuldades na economia,  que o  novo e estranho   porta-voz atribui à elevação dos preços do tomate, para ele já corrigida.

As raízes da queda são mais profundas, tornando-se um risco  aguardar a nova Datafolha pública, daqui a dois meses. O palácio do Planalto encomenda consultas sigilosas e semanais a diversos institutos e o próximo é esperado para daqui a dois dias. Saberemos, ou saberão apenas os donos do poder, se a diminuição nos números é sazonal, periférica, ou se exprime uma tendência.

Nesse caso, estará acesa   a luz amarela no semáforo fincado no meio da Praça dos Três Poderes.  Um sinal de ser preciso agir para o refluxo. Porque no cipoal dos percentuais que desabam, sobressai um ainda mais agudo: a intenção do voto em Dilma para a reeleição caiu 7%. Dos consultados pelo Datafolha, 43% manifestaram preferência pela candidatura do Lula  em 2014, contra 29% pela  presidente.

Aqui repousa o perigo. Não constitui segredo que,  a começar pelo PT, cresce a corrente indisposta com o modo Dilma de governar,  sequiosos muitos companheiros dos tempos felizes do ex-presidente, quando eram bajulados  por ele, tratados com carinho e atendidos em suas pretensões nem sempre acordes com a ética. Como a sucessora prefere dar ao  partido o lugar que ele merece, ao lado dos aliados, sem privilégios e prevalências desmedidas, ressentem-se os que  imaginaram continuar condôminos  do poder. Faz tempo que trabalham para sabotar Dilma e criar condições para estimular o antecessor como única saída para evitar a derrota eleitoral. Para eles, a pesquisa recém-divulgada funcionou como  um refrigério.

E para o Lula, um argumento  a mais para deixar a janela aberta e,  diante de fatos novos, admitir sua candidatura como forma de preservação do poder em mãos de  seus atuais detentores.

O amargo, nessas ilações, está no fato de a presidente Dilma obrigar-se a, de público,  desconhecer o óbvio. No caso, a hipótese da candidatura Lula. Também não pode insurgir-se na defesa do que seria o seu pleno direito de concorrer a um segundo mandato. Deve tudo ao primeiro-companheiro, a começar por sua ascensão à chefia do governo. Uma palavra ou um gesto que seja, dele, no sentido de  salvar o PT através de seu retorno imediato, despertaria nela apenas um sorriso de concordância integral. Jamais a  criatura se insurgiria contra o criador, ao contrário do que muitas vezes a crônica tem registrado em outras situações, em  outros tempos e em outros partidos.

Em suma, ainda que de forma atabalhoada, a antecipação do processo sucessório conduz à necessidade de definições. Permanecendo a queda nos índices de popularidade da presidente, inclinar-se-á o pêndulo para a sua  substituição.  Tratando-se apenas de  uma oscilação momentânea, tempo haverá para a recuperação. De qualquer forma, o Plano B ganha contornos definidos.

IRONIAS

Nesse  quadro inconcluso, a principal ironia  diz respeito às oposições. Aécio Neves, Eduardo Campos, Marina Silva e quaisquer outros possíveis candidatos rezam e agem para que Dilma continue candidata. Sabem que se ela vir a ser substituída pelo Lula, o ex-presidente dará um passeio pelas urnas. Salvo um milagre dos grandes, o primeiro-companheiro seria eleito sem fazer força nem campanha,  no primeiro turno.   Já com a presidente debilitada, se os índices continuarem registrando quedas, seria possível a realização do  segundo turno, onde um dos referidos pretendentes teria o apoio dos demais.

DECEPÇÕES

Ainda que a posse de Luis Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal possa realizar-se este mês, nem por isso parece provável o imediato início da última fase do julgamento do mensalão. Apenas em agosto, conforme os planos do presidente Joaquim Barbosa, começarão a ser apreciados os embargos  apresentados pelos réus. Há pessimistas imaginando que nem no final do ano as sentenças transitarão em julgado. Uma evidência a mais de que a  Justiça, no Brasil, favorece os bem aquinhoados social, política e economicamente.

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