Se governo quisesse (e pudesse) controlar a CPI, ela não teria se formado

Pedro do Coutto

O pensamento contido no título pertence à realidade política, à realidade dos fatos que acontecem e não ao universo das suposições e das teorias que vivem em folhas de papel.As coisas começam numa determinada direção, de repente deslocam-se para outra. Este é o processo eterno, não só do jogo político mas da própria vida humana. Ninguém controla o encadear dos acontecimentos. Como ninguém controla a imprensa escrita, a televisão, o rádio e agora a Internet.

Conheci ao longo de 57 anos de jornalismo muitos farsantes. Desses que bajulam os poderosos do dia, os jornalistas que possuem colunas e os editores. Tentam fazer crer aos outros uma influência que não possuem. As páginas dos jornais, os noticiários da TV e do rádio são incontroláveis. Posso dar meu testemunho aos leitores que não se deixem levar pelas alucinações. São eternas. Não se precipitem. Esperem sempre o quique da bola, como numa partida de futebol.

Escrevo este artigo com base em duas reportagens publicadas quarta-feira 25. De Maria Lima e Cristiane Jungblut, no Globo, com foto de André Coelho. E de Cátia Seabra e Gabriela Guerreiro, Folha de São Paulo. Na FSP a foto é de Alan Marques. Elas destacam que, para controlar a CPI Demóstenes-Cachoeira, o Palácio do Planalto conseguiu emplacar o deputado Odair Cunha, do PT, no posto de relator. Cargo chave, certamente, para o encaminhamento inicial dos trabalhos. Cabe a ele inclusive, junto com o senador Vital do Rego (PMDB), presidente, traçar o roteiro dos depoimentos. O roteiro, não o conteúdo. Daí a confusão entre um plano e outro.

Fácil distinguir, inclusive. Pois se a presidente Dilma Roussef quisesse ou pudesse balizar os rumos das investigações, ela evidentemente teria bloqueado a sua formação. O que as quatro repórteres julgam ser factível, concretamente é uma impossibilidade. Ninguém possui bola de cristal para saber previamente o que os depoentes vão afirmar. Imprevisível. Encontram-se em jogo, além da revolta da opinião pública contra o trio Demóstenes, Cachoeira e Fernando Cavendish, interesses de porte na questão, sem entrar no mérito deles. Por exemplo: interessa diretamente à Odebrecht e à Andrade Gutierrez o desmoronamento já visível da Delta Construtora.

Já saiu do Maracanã, está saindo da Transcarioca. A Petrobrás, matéria de Denise Luna, FSP também de quarta-feira, já está promovendo a saída da Delta das obras de construção do Complexo Petroquímico de Caxias, Rio de Janeiro. Se uma empresa está saindo, claro, outra está entrando.

A política, misto de ciência e arte, é algo como ao longo de suas vidas a classificaram homens como Roosevelt, Churchill, De Gaulle. Trata-se de um jogo de poder extremamente ligado à economia. Mas não se trata de um confronto de uma equipe contra outra. O êxito das partidas, às vezes, não se encontra num campo pré-definido em linhas simétricas. Mas sim, dependendo das situações, em triângulos ou perímetros. Alguns jornalistas que tentavam análises irreais não conseguiam chegar à conclusão alguma. Todos imaginavam primeiro e desenhavam, eles próprios, os contextos. Depois partiam para solucionar, à base da emoção, os enigmas que eles mesmos criavam.

Resultado: todas as equações levavam à Roma, claro. Os autores que propunham problemas propunham as soluções. Elementar, meu caro Watson. Porém tal prática não leva a nada. Porque a realidade política muda a todo momento. E faz dos inquéritos algo imprevisível. Assim caminha a humanidade, para citar o filme famoso de George Stevens. Coisas da vida.

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