Se necessário, outras cabeças vão rolar

Carlos Chagas

Previsão não há, da queda de mais ministros, pelo menos até a reforma anunciada para janeiro. Mesmo assim, tudo dependerá do aparecimento de denúncias referentes a ministros e ministérios. Caso surjam, se evidenciadas, não se duvida de que a vassoura e o rodo continuarão sendo utilizados. É essa a disposição da presidente Dilma Rousseff, claro que não o seu desejo.

Apesar da postura cautelosa mantida por ela diante de cada acusação a seus auxiliares, sempre manifestando primeiro a confiança de que conseguirão provar inocência, a verdade é que ninguém foi poupado, até agora. De Antônio Palocci a Alfredo Nascimento, Wagner Rossi, Pedro Novais e Orlando Silva, todos perceberam que se não pedissem demissão, seriam demitidos. Até Nelson Jobim, sem a sombra da corrupção envolver sua dispensa, viu-se submetido à mesma opção. Sair ou ser saído. O resto são especulações.

De concreto, mesmo, ouve-se que a reforma parcial do ministério será pautada por um objetivo: obter mais eficiência da equipe, afastando as imposições feitas pelos partidos e grupos da base parlamentar oficial. Na posse, não deu para a presidente livrar-se de indicações, muitas vezes feitas sem cuidados com a competência e até a probidade dos indicados. Agora, mesmo mantendo o critério da representatividade dos partidos, caberá a ela selecionar os melhores. Se necessário, até, passando por cima dos interesses das cúpulas partidárias. Além de desfazer a impressão da existência de feudos no ministério.

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ALEGAÇÃO INSUFICIENTE

 Não adiantou o ex-ministro Orlando Silva basear sua defesa na alegação da inexistência de provas contra ele. Trata-se de um fórmula desgastada pelo tempo, utilizada por culpados e inocentes. Até Al Capone sustentava que o FBI carecia de provas para condená-lo como chefe do crime organizado, e era verdade, pois acabou preso por burlar o imposto de renda. Outra saída inepta tem sido substituir denúncias pela tal “agenda positiva”. Não dá para tapar um buraco imenso com um dedal de areia. Evidência disso foi a última ida de Orlando Silva à Câmara. Abordaria a Lei da Copa, mas não recebeu uma só pergunta a respeito. Todas as intervenções referiram-se às acusações de corrupção nos Esportes.

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BASTA A COMISSÃO DA VERDADE

Pequeno grupo de deputados, com Luiza Erundina à frente, pretende apresentar projeto de lei revogando a anistia de 1979 e permitindo que sejam processados e punidos os responsáveis por crimes contra os direitos humanos praticados durante o regime militar. A aprovação da Comissão da Verdade, esta semana, seria a senha para a iniciativa. Depois da identificação dos torturadores, sua responsabilização.

Com todo o respeito, mas não deveriam estar reabrindo velhas feridas. Primeiro, porque para muitos juristas, a anistia é irrevogável. Depois, porque se o projeto virar lei, logo virá o reverso da medalha, ou seja, propostas de punição também para o outro lado, atingindo quantos mataram, sequestraram e assaltaram durante aqueles ano de chumbo.

Por coincidência o Uruguai acaba de aprovar lei parecida com a que a Argentina aprovou décadas atrás, permitindo processar e prender os militares responsáveis pelas ditaduras no passado vigentes naqueles dois países. São concepções distintas da política adotada pelo Brasil, que até agora tem dado certo.

Identificar, sim, através da Comissão da Verdade, inclusive abrangendo os dois lados. Mas punir, mandar para a cadeia, pode dar confusão. Ou a presidente Dilma não… (cala-te, boca!)

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CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA

Excepcional o filme de Silvio Tendler, produzido por Roberto D’Avila, sobre Tancredo Neves. Uma peça para a História, mostrando a vida do presidente da República que o destino não permitiu tomasse posse. Imagens inéditas, depoimentos sinceros e lições para ninguém botar defeito. Inclusive, em corte de meia tela, o telefonema que o então presidente Figueiredo deu a Tancredo, cumprimentando-o por sua eleição. Silvio Tendler completa a trilogia iniciada com documentários sobre João Goulart e Juscelino Kubitschek, também duas obras primas do cinema nacional.

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