Se o Brasil quiser competir com Alemanha, Japão e Coreia do Sul, tem que reformular o ensino público

Marcelo Gleiser (Folha) 

“O Brasil acordou!” é o que temos ouvido, mesmo daqui dos EUA, sobre as manifestações no país. A mídia, como sempre, enfatiza a violência acima do que as pessoas nas ruas estão pedindo.

Na quinta, a primeira página do “New York Times” mostrou um guarda atingindo o rosto de uma senhora com um spray lacrimogêneo; pouco fala da insistência da maioria dos manifestantes em manter a ordem, dos esforços em abrir uma relação com a polícia que, como tantos já disseram, é povo e precisa de melhorias tanto quanto o resto.

Existe um contrato social e financeiro entre a população e o governo. A população, por meio dos impostos, paga o governo para exercer certas funções que deveriam garantir sua qualidade de vida: saúde, educação, segurança, transportes. Se a população não paga, o governo castiga com multas e prisão.

O que ocorre quando o governo não faz a sua parte e deixa de garantir a qualidade do tratamento médico, da educação pública, da segurança nas ruas e das fronteiras, dos transportes?

É óbvio que existe uma assimetria no poder: como o governo detém controle da polícia e das forças armadas, fica fácil coibir qualquer desavença. O que as pessoas talvez estejam começando a perceber é que também têm poder. O contrato deve ser mantido dos dois lados; sem dinheiro, o governo quebra.
Mas vamos ser positivos e imaginar que as manifestações tenham o efeito de redefinir as metas do governo para cumprir o seu lado do contrato. O que deve ser feito?

O desafio do Brasil é ser um país de dimensões continentais, com cerca de 200 milhões de habitantes. Bem diferente da Suécia ou Holanda. Temos uma economia baseada na agropecuária e mineração. Nada de errado nisso, mas é insuficiente no mundo de hoje, onde tecnologias digitais estão redefinindo como vivemos. Precisamos de energia sustentável, de infraestrutura de comunicação, de técnicos, engenheiros e cientistas que possam competir em pé de igualdade com os dos países que vemos como modelos.

Um exemplo simples: quais carros guiamos no Brasil? Alemães, americanos, japoneses e coreanos. O que isso nos diz? Que esses países têm um sistema de educação capaz de suprir a enorme demanda que uma tecnologia competitiva requer. Se o Brasil tem a intenção de competir nesse nível, tem que reformular o ensino público.

Imagine que a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo em 1950, não muito diferente do Haiti. O que aconteceu? Fizeram da educação a área prioritária. Treinaram engenheiros, cientistas e médicos para levantar o país da miséria.

Não é falta de dinheiro. Em 2010, 4,3% do PIB foi investido em educação básica. O que falta? Treinamento de professores que então recebam salários dignos. Que jovem vai querer ser professor para ganhar R$ 1.200 por mês? Não basta apenas pôr as crianças nas escolas; o que fazem lá é essencial. Para isso, precisamos de professores bem treinados e de escolas com laboratórios, bibliotecas e computadores.

Sem uma profunda transformação na educação, o Brasil será passado para trás pelos países que já perceberam que sem um investimento sério na educação estão optando pela mediocridade.  (artigo enviado por Mário Assis)

 

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5 thoughts on “Se o Brasil quiser competir com Alemanha, Japão e Coreia do Sul, tem que reformular o ensino público

  1. – Este governo que aí está, tem como guru um sujeito que se orgulha de não ter frequentado uma faculdade , afirma que jamais leu um livro; não devemos esperar deste partido nefasto (pt), seu guru ,e deste governo, medidas inteligentes como as mencionadas acima.

  2. Excelente artigo do físico Marcelo Gleiser. Parabéns ao Sr. Mário Assis por enviar o mesmo. É assim mesmo, nunca interessou às elites brasileiras disponibilizar educação de boa qualidade à população em geral. Povo que tem educação de boa qualidade se transforma em povo reivindicativo, participativo, consciente de seus direitos e deveres. Isso as elites não admitem, pois perderiam o poder de manipulação, o controle sobre as massas. Ainda tem-se um longo caminho a percorrer, eu diria 20 ou 30 anos, para que possamos atingir um nível educacional(para a esmagadora maioria da população) semelhante aos países mais avançados. ISSO SE AS ELITES PERMITIREM. Tenho sérias dúvidas a respeito.

  3. Parabéns Marcelo Gleiser, finalmente alguém inteligente põe os pingos nos iis.

    Os problemas do Brasil são tão grandes e evidentes que mesmo sendo cego é possível enxergar, não percebem os desgovernos, em todos os níveis, que é preciso cuidar da casa toda e não apenas na sala. Educação é a base de tudo, não é dando bolsas de estudos em escolas privadas, ou estabelecendo cotas, de qualquer natureza, que se resolve o problema da educação.

    Precisamos de escolas de nível básico, técnicas e universitárias, públicas de ótima qualidade.

    Foi ótimo aprovarem os royalties do petróleo para a educação, mas pouco vai adiantar se continuarem a insistir burramente em dar bolsas de estudo para alunos pobres estudarem em escolas privadas onde se persegue o lucro, onde o compromisso não é com a qualidade de ensino e a formação de seres humanos o que essas escolas perseguem é o lucro fácil.

    Políticos e governos querem é ganhar dinheiro, manter os pobres na miséria e garantir seus lucros cada vez maiores. Não percebem esses senhores, que cada vez mais a diferença social enterra o desenvolvimento e o progresso de cada brasileiro e cada estado e do País inteiro.

    As elites, de esquerda e de direita, estão cegas, uma pelo poder que falsamente exerce e a outra porque acha que se manterá assim para sempre. A voz das ruas finalmente se faz ouvir e é muito clara, um basta aos privilégios e corrupção, a conivência com o roubo e o desvio de dinheiro público, a aplicação equivocada e dirigida de recursos públicos para os bolsos dos amigos e da iniciativa privada, a criação de dificuldades para vender facilidades, a politicagem ao invés da política e o velho e surrado modelo político que privilegia quem já tem privilégios e cria uma legião de acima da Lei e do bem e do mal.

    É preciso acabar já com todos os guetos de privilégios e privilegiados, de aposentar políticos, por serem políticos, de pagar a esses mesmos políticos salários exorbitantes, aposentadorias privilegiadas para juízes e desembargadores, porque tantas formas de aposentadorias? Porque tantos privilégios, para manterem as castas e classes dominantes e continuarmos sendo escravos, é claro, mudando de tempo em temo os senhores que nos mandam.

    Está na hora desse contrato ser cumprido por ambas as partes e não apenas por quem paga a conta de tudo e de todos, estamos entre os três países no mundo onde o povo paga mais impostos, os outros dois países estão entre os primeiros em qualidade de vida e desenvolvimento social, enquanto isso estamos na lanterninha de tudo, comparáveis somente com alguns países da África, alguns países desse continente estão em melhor situação que o Brasil.

    Então é chegada a hora de realmente exigir um Brasil rico para os brasileiros e não apenas para uma parte já rica desse nosso País, ou as elites entendem de uma vez por todas que o mundo mudou, ou o mundo os muda, em nosso caso, o movimento popular vai mudar a cara do Brasil.

    É preciso apenas ter muito cuidado com o canto das sereias, de esquerda e de direita, político é muito bom em se aproveitar dessas situações e posar de salvador da pátria, senão vejamos o que está sendo aprovadas a toque de caixa em Brasília, algumas coisas boas e outras nem tanto, tudo visa dar a impressão que estão atendendo a voz das ruas, na verdade estão tentando ficar onde estão e manterem as aparências para as próximas eleições, é preciso não se deixar enganar e continuar protestando, pois estamos longe de termos obtido coisas concretas.

    Transporte público, escolas públicas, saúde, habitação, emprego, meio ambiente, etc…não podem ser pautas de um governo e/ou eleitoreiras, precisam ser pautas permanentes de uma política que visa mudar o Brasil para melhor e não apenas para alguns milhares de amigos do poder e dos políticos de plantão, dos amigos do governo e dos poderosos que entre a sai governos e estão sempre ali, financiando as campanhas políticas e depois se beneficiando de todas as formas de corrupção possíveis para tirar proveito e dividir os lucros com os eleitos.

    Até quando continuarão intocáveis os bens e o patrimônio formado em um ou dois mandatos políticos, até quando a corrupção vai beneficiar e garantir aos corruptos e corruptores a continuarem gozando das benesses dessa sujeira toda?

    Vamos torcer, apoiar tudo o que está sendo motivo de passeata e manifestação até o final ou perderemos mais uma vez o rumo da história, do progresso e de um futuro melhor, de mudanças significativas que passam pela modificação do nosso sistema político, social e econômico, os brasileiros e o Brasil merecem.

    Olho vivo, nada de achar que está tudo resolvido ou que as principais demandas estão sendo atendidas, precisamos continuar lutando para que se faça luz, a luz necessária ao nosso desenvolvimento social, político e econômico, para termos um Brasil verdadeiramente mais próximo da justiça social.

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