Se o emprego cresceu menos, é porque o desemprego avançou mais.

Pedro do Coutto

O panorama social brasileiro tornou-se muito preocupante em função dos dados de novembro do Cadastro Geral do Ministério do Trabalho, objeto de excelente reportagem de Mônica Tavares, O Globo de quarta-feira 21. Um gráfico da Editoria de Arte do Jornal contribui para que se traduza os números mais claramente.

O ano de 2011, que começou com a abertura ou reposição de 152 mil vagas (postos de trabalho, como definem os técnicos), chegou a novembro com um acesso de apenas 42,7 mil vagas. Consequência de crise financeira, segundo o professor Alcides Leite, da Trevisan Negócios. O fato é que o impulso perdeu a força. Sobretudo num mês em que se realizam milhares de contratações temporárias no comércio varejista.

E se o número de postos foi comprimido, os novos salários também, se, dúvida. Lei da oferta e da procura. Demanda intensa oferta moderada, para não dizer fria. A única explicação para o fenômeno e que é essencialmente alarmante. Sem emprego, e portanto salário, nenhum processo de desenvolvimento pode ser considerado sustentável, expressão da época.

A questão é complexa. Em primeiro lugar, não basta haver crescimento na oferta de emprego. É indispensável que ele supere a taxa anual de 1,2%, pois este é o índice demográfico brasileiro: nascem 1,8, morrem 0,6% a cada doze meses. Em segundo, tem que se considerar o aumento do PIB, já que de sua divisão por 200 milhões (número de habitantes) resulta a renda per capita. Em terceiro lugar, considerando-se que a cada ano nascem no país 2 milhões de pessoas, e que a força de trabalho ativa é a metade da população, não há como evitar a necessidade de criar-se pelo menos um milhão de novos empregos por ano.

Terminaram aí os desafios? Nada disso. Há uma outra escala dificílima pela frente. Vamos a ela. Lendo-se o relatório de administração da FGTS, publicado pela Caixa Econômica Federal a partir da página 106 do Diário Oficial de 29 de julho deste ano, verificamos que no exercício de 2010 houve 17 milhões e 500 mil demissões no mercado de trabalho que causaram saques no Fundo de Garantia no montante de 30,8 bilhões de reais.

São assim, portanto, praticamente um milhão e 500 mil dispensas por mês. O resultado de 2010 não assinala um fenômeno isolado. Na mesma publicação a que me refiro , estão os dados comparativos de 2009: 17,3 milhões de demissões. Apenas 200 mil a menos que no ano passado. Saques no FGTS em consequência: 30,9 bilhões. Diferença de 100 milhões de um ano para outro.

Logo, o saldo médio dos trabalhadores no FGTS, como se constata, é de 1 mil a 500 reais. Mas os saques no Fundo de Garantia, que enfraquecem o programa habitacional, e portanto o de saneamento, são outra questão.
O fato é que predomina uma média mensal da quase 1 milhão e 500 mil dispensas.

Quando o Ministério do Trabalho revela o número de postos, serão eles estabelecidos ou restabelecidos, efeito da rotatividade? A pergunta fica no ar aguardando uma definição absoluta. Mas enquanto a resposta não vem, é sem dúvida interessante confrontar-se os números mensais publicados por Mônica Tavares com a média mensal em 2010 das demissões de quase 1 milhão e 500 mil.

Se a média de dispensas não fosse essa, o total de dois anos, conforme o relatório da CEF sobre o FGTS, não teria sido praticamente idêntico.
Muito bem. Em janeiro, diz a repórter, surgiram 152 mil postos. Em fevereiro 282 mil. Em março 92 mil. Em abril 272 mil. Maio 252 mil. Junho 215 mil. Julho surgiram apenas 140 mil postos. Em agosto 190 mil. Setembro 209 mil.

Em outubro, a escala desceu para 126 mil. Finalmente, novembro, o desastre: somente 42,7 mil postos. É de se acreditar que a dança das vagas é mais rotativa do que efetivamente adicional. Isso porque, caso contrário, o desemprego não estaria em 6,1% da mão de obra ativa, como o IBGE revelou há pouco. E a massa salarial teria subido, aplicando a participação do trabalho no PIB. E isso não ocorreu.

De toda forma, sigamos em frente. E um Feliz Natal a todos.

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