Segurar os loucos

Sebastião Nery

Jânio Quadros renunciou em 25 de agosto de 61, pegou um navio cargueiro, foi para a Europa. Quando voltou, novamente de cargueiro, na passagem pelo Rio, o general Cordeiro de Farias, que estava no Rio sem função no Rio, foi a bordo visitá-lo. E contou nas suas memórias:

– Nosso encontro foi comovente. Eu sempre gostei muito dele. Era um louco maravilhoso. Quando nos encontramos em seu camarote, eu lhe disse:

– Faltou em Brasília alguém ao seu lado, com serenidade para agir.

– Agir como?

– Eu o prenderia, rasgaria a carta-renúncia, o levaria de avião para São Paulo e de lá para a casa de campo de um amigo, até que acabasse sua loucura.

Jânio levantou-se, abraçou Cordeiro em prantos e disse:

– O senhor foi a primeira pessoa a afirmar que faria isso.

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SENSAÇÃO DE ALÍVIO

Cordeiro disse que teria prendido Jânio mesmo:

– Tenho a impressão de que o Horta (ministro da Justiça) e Quintanilha (chefe da Casa Civil) tiveram uma sensação de alívio com a renúncia de Jânio. O Pedroso, que tinha maior intimidade comigo, dizia-me com freqüência:

– Quando chega a noite em Brasília, tenho raiva da humanidade.

Quer dizer, concluía Cordeiro, ele tinha raiva de Jânio. Aliás, logo após a renúncia, militares viram o Pedroso e o Quintanilha rindo, achando graça no blefe dado pela loucura de Jânio. É preciso segurar os loucos, contê-los.

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LULA

Amigos de Lula, velhos companheiros dele de fundação e primeiros anos do PT,  andam preocupados com ele. Estão vendo o presidente Lula excessivamente eufórico, às vezes beirando à histeria, como se tudo estivesse no melhor dos mundos, a eleição já ganha nas grandes cidades, a economia alcançando números jamais vistos no Brasil e ele entrando para a História como o melhorpresidente que o País já teve.

Quando alguém, e são raríssimos, lhe chama a atenção para os números ruins que a economia e a realidade nacional estão apresentando, ele não toma conhecimento. Não quer saber. Só diz que está tudo ótimo e será melhor ainda.

O grave é que, antes dos escândalos do mensalão comprovados pelas CPIs, e da quadrilha e da organização criminosa denunciadas pelo Procurador Geral da República, ainda havia José Dirceu, Palocci e Gushiken, que ele ouvia. Não tomava providências, mas ouvia. Agora, nem isso.

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