Sem Kadafi, a Líbia será uma democracia? É possível, mas improvável. Pode se transformar num novo Vietnã? É possível e até provável.

Carlos Newton

As televisões matraqueiam que a rebelião na Líbia está saindo vitoriosa e o ditador Kadafi não tarda a ser derrubado. Na maioria das vezes, essa espécie de notícia é dada sempre com grande satisfação pelos apresentadores dos telejornais, que parecem torcer desesperadamente contra Kadafi. Nenhum deles indaga o que será da Líbia sem Kadafi.

Como diz o jornalista Scott Taylor, do jornal canadense The Chronicle Herald, a revolta na Líbia sempre foi mais criação da mídia do que confronto armado em grande escala. Ele explica que, nos primeiros dias, os rebeldes realmente tomaram alguns tanques e armas das tropas do governo. Por isso, houve escaramuças entre rebeldes e soldados do exército líbio ao longo da rodovia que acompanha o litoral.

Entre 15 de fevereiro, quando começou o levante, e 19 de março, quando o Conselho de Segurança da ONU autorizou intervenção internacional, a vasta maioria dos trabalhadores estrangeiros que viviam na Líbia abandonou o país.

Para impedir que Kadafi impusesse qualquer tipo de retaliação contra os rebeldes, a ONU então autorizou a OTAN a implantar uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia, a pretexto de impedir que civis desarmados fossem atacados.

Scott Taylot lembra que, naqueles dias de caos, o Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha chegou a noticiar que o presidente Muamar Kadafi havia fugido para a Venezuela. Parecia que os rebeldes teriam vitória fácil e rápida. Mas Kadafi nem viajou nem viajaria. “Em pouco tempo seus seguidores se recompuseram e, então sim, começaram uma efetiva luta de resistência contra os rebeldes”, assinala Taylor.

Os rebeldes, que não são tropa profissional, logo iniciaram um movimento de retirada de volta para o único ponto que realmente controlavam no território, na cidade de Benghazi. Muito estranhamente, a resolução da ONU nada dizia sobre não atacar civis desarmados que vivem nos setores controlados por Kadafi. Ante essa estranha omissão, a coalizão OTAN-EUA-Canadá iniciou imediatamente os bombardeios contra alvos do governo líbio, como se não existisse a população civil.

Já há mais de cinco meses, os aviões da OTAN apoiam os rebeldes, e navios de guerra da OTAN mantêm um embargo de armas unilateral contra o exército de Kadafi. Todos os fundos financeiros líbios foram congelados, o que tornou virtualmente impossível para a Líbia comprar material bélico ou, sequer, prover as necessidades básicas do país, por exemplo, em termos de combustível.

Com todas essas medidas, então por que os rebeldes continuavam tendo dificuldades para  conseguir derrubar o ditador? “Em viagem que fiz a Trípoli, para levantar fatos, diplomatas que continuam em Trípoli confirmaram que, desde que começou o bombardeio pela OTAN, o apoio da população e a aprovação ao governo Kadafi subiram à estratosfera e estão hoje em torno de 85%”, afirma o repórter canadense.

Das 2.335 tribos que há na Líbia, mais de 2.000 mantêm-se fiel ao presidente atacado pela OTAN. Hoje, as principais dificuldades que os líbios enfrentam são relacionadas ao racionamento de combustível e à falta de energia elétrica, resultado das bombas da OTAN que são causa das mais terríveis dificuldades que os líbios enfrentam nos setores controlados por Kadafi.

A população, evidentemente, culpa a OTAN – não Kadafi – pelos racionamentos. Em esforço para combater esse sentimento popular e estimular a população a levantar-se contra Kadafi, os aviões da OTAN têm lançado latas contendo panfletos sobre Trípoli. Infelizmente para os planejadores da OTAN, as latas são pesadas demais e têm causado ferimentos e quebrado telhados pela cidade, lançadas, como são, de grande altura.

Quanto ao texto das mensagens, algumas já eram piada entre os líbios, que riam das traduções às vezes ininteligíveis, às vezes cômicas. Num dos panfletos, por exemplo, no qual quem redigiu supunha que tivesse escrito que os civis devem “unir-se” aos rebeldes, está escrito, de fato, que os civis líbios devem “copular” com os rebeldes.

Outra das missivas da OTAN aconselhava que os que vivam em áreas controladas por Kadafi façam as malas e mudem-se para o território ocupado pelos rebeldes. Aí se lê que os cidadãos devem mudar-se imediatamente para o setor “dos possuídos” (como “possuídos pelo diabo”) da Líbia.

Agora, com o embargo, a falta de combustível e a destruição dos prédios públicos e de serviços acabaram por criar uma crise humanitária muito grave na Líbia, tão grave que não reste outra alternativa aos líbios salvo se render aos rebeldes. Mas ficará uma grande dúvida sobre o que será a Líbia sem Kadafi.

Virará uma democracia? É possível, mas improvável. Pode se transformar num novo Vietnã? É possível e até provável, porque o Ocidente destruiu um país que estava se tornando rico e que tinha o melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da África, com assistência médico-hospitalar e educação gratuitas, além de uma série de benefícios sociais, em termos de habitação, alimentação e oportunidades de trabalho. E tudo isso foi destruído pelo Ocidente, com incentivo da própria ONU, em nome do Deus Petróleo.

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