Sem Santos Dumont não há jornalismo

Sebastião Nery

O primeiro avião que vi, caiu. O primeiro avião em que voei, também caiu. Não eram bem aviões: miúdos teco-tecos, brancos passarinhos grandinhos. Um matou o piloto, o outro atropelou um boi. Viajo de avião há 60 anos e nunca me aconteceu nada. Sem Santos Dumont não há jornalismo.

Em 1944, tiraram as traves do campo de futebol de Jaguaquara, lá na Bahia, no fundo da nossa casa, e virou campo de aviação. Como o cemitério de Odorico Paraguassu, faltava um avião para inaugurar. Um piloto de Montes Claros foi a Jequié, ali perto, cobrar uma dívida. Convidado, ele topou.

A cidade foi toda para a rua receber seu primeiro avião. Chegou fazendo belas piruetas em cima da igreja e da praça. Desceram dois homens gordos e sorridentes: o piloto e um primo meu. Almoço de festa e, de noite, baile no clube. Todo mundo bebeu muita cerveja até tarde, inclusive os dois.

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PIRUETAS

De manhã, domingo, missa na matriz. Depois, o piloto convidou rapazes, moças, para visitarem o avião e darem uma volta. Subia, rodava, descia. E sempre fazendo alguma pirueta, cada vez mais ousada. De férias do seminário, 12 anos, batina preta, também entrei, vi, conferi e saí. Ele reclamou:

– Não vai experimentar não, padreco? Não tem fé?

– Fé eu tenho. Não tenho é coragem.

E dei o fora. Ficou uma hora subindo e descendo. Alguns não resistiam aos mergulhos, saiam brancos como lesma, vomitando. Debaixo de palmas, com Esmeraldo, o piloto se despediu a rigor. Fez uma subida vertical e mergulhou de cabeça em cima da igreja. Fez outra, desceu em rasante sobre a praça. Mais uma em cima do campo, arremeteu, e, como cantou o poeta, caiu verticalmente e se transformou em tragédia. Espatifaram-se, não sobrou nada.

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UBERLÂNDIA

Em 56, greve de caminhoneiros em Uberlândia, Minas. Cercaram o Triângulo Mineiro. O Jornal do Povo, nosso semanário do PCB, arranjou um aviãozinho de um camarada, que parecia de brinquedo e lá fomos eu e o fotógrafo. O primeiro vôo também ninguém esquece. Manhã de sol, voando baixinho sobre as montanhas azuis de Minas e pingando de cidade em cidade.

Já chegando, tempestade em Uberlândia. Tínhamos que descer logo. O piloto, da cidade, conhecia uma fazenda por ali. Desceu no pasto, aos tombos, dentro de um dilúvio, atropelou um boi e uma cerca, virou de cabeça para baixo. Um susto e só. Nada que uma boa cachacinha mineira não curasse.

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SIBÉRIA

Aeroporto de Domodedovo, em Moscou, primeira etapa de dois meses na Sibéria, em janeiro e fevereiro de 81. Elegantes TSUs (o Boeing 737 deles) pousados sobre um tapete branco de neve, e homens, mulheres, crianças, embarcando com seus gorros peludos de couro de veado, botas e luvas grossas.

A neve caia sem parar, grossa, intensa. Caminhões enormes, como jamantas, empurrando longas navalhas negras, passavam e raspavam, a neve. O avião descia, a neve voltava, o caminhão vinha de novo com sua navalha.

Entro no avião, coberto de neve. Um longilíneo tubo de neve. Esperar um pouco para tirar a neve sobre o avião. Um caminhão se aproxima com grossos tubos, soprando bafo quente e derretendo a capa branca. Saio de Moscou com 5 graus negativos, chego a Stalingrado com 10 abaixo.

Em Omsk, 27. Em Bratsk, 39. Em Norilski, menos 70. Sobre as nuvens, no céu, a lua branca, gorda, boiando no azul. A neve cobrindo tudo e os aviões voando.

E ninguém morria. No Brasil, em julho de 2007,  uma chuvinha besta na pista matou 199 pessoas, no voo TAM 3054, em Congonhas, lembram?.

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INSENSIBILIDADE

Avião não cai, é derrubado. Depois do jato, é incúria, incompetência ou ladroeira, ou as três juntas. O Brasil tem uma das maiores, mais modernas e seguras aviações do mundo. Falta é governo. Lula foi um artista em um palco iluminado. Somos obrigados a dar razão ao Financial Times, de Londres, que em 2007 dizia, sobre nossos serviços aéreos:

– “A extrema necessidade de um governo mais eficiente no Brasil nunca esteve tão clara. É representativa a incompetência de sua resposta a uma crise que já dura dez meses”.

O PT trocou o governo, e nada. E a Aeronáutica? Devia trocar a Infraero, o Sivam, os Sindactas pelo Sebrae. Só gosta de micro, pequenas e medias empresas. Em vez de cuidar da segurança das rotas e pistas e pousos, faz rendosos shoppings, cooperativas de táxi, lojas, botequins, bombonieres e salões de cabeleireiros dos aeroportos, cada vez mais bagunçados.

 

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