Sequestro no almoço

Sebastião Nery

No meio do almoço, o telefone tocou. A empregada passou para a dona da casa que, à cabeceira da mesa, atendeu:

– Mãe, eles me sequestraram! E dizem que vão me matar!

Ela ficou pálida, atônica. As lágrimas lhe rolavam rosto abaixo:

– Ai, meus Deus, sequestraram meu filho! Calma, meu filho! Calma que vamos resolver!

O telefonema virou um pingue-pongue. Ela já falava com o sequestrador:

– Não matem meu filho, pelo amor de Deus! Tenham calma, que resolvemos. Não façam nada com ele, que vamos acertar tudo.

– Não podemos esperar. É quinze mil reais e é agora. Digam logo onde vamos receber o dinheiro. Nada de polícia. Se der errado, ele morre.

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O FILHO

Na mesa enorme da família dos queridíssimos amigos pernambucanos, que me recebiam aqui em Recife naquela tarde de sábado de fim de ano, fiquei em pânico. Perdi qualquer capacidade de raciocinar.

Estávamos ali, políticos, advogados, médicos, professores, jornalistas, uma gente com larga experiência de vida, acostumados a enfrentar lutas e prisões, situações de perigo e risco, mas ninguém tinha uma solução:

– Como avisar a amigos do governo, chamar a polícia? Seria arriscar a vida do rapaz, que havia saído com amigos para um jogo de futebol.

No telefone, o pai e a mãe negociavam o pagamento do resgate, tentando ganhar tempo, esperando o milagre de uma solução. De repente, levanta-se da mesa um garoto, o mais jovem de todos, e corre para dentro do apartamento. Daí a um minuto, volta gritando, com o celular na mão:

– É tudo mentira! É um falso sequestro desses filhos da puta. Ele está aqui no telefone. Está lá no estádio, assistindo ao jogo. Falem com ele.

E a mãe falou com o filho como na maternidade, no primeiro dia.

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VIOLÊNCIA

Uma estatística do governo informa que Recife é a terceira capital mais violenta do País: São Paulo, Rio, Recife. Não por acaso, as três maiores capitais. Então, a doença não é só de Pernambuco, é do País. O País é que está ficando cada dia mais violento, mais doente.

Quanto mais gente, quanto maior a população, maior a violência: depois, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, uma atrás da outra. A história dos povos é sempre a mesma: tira-se a esperança, vem o desespero. André Malraux sabia muito bem disso:

“A esperança do homem é sua razão de viver e de morrer”.

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NORDESTE

No Nordeste, as periferias das grandes, médias e até pequenas cidades são o inchaço da miséria. Enquanto os números da grande economia engordam, os bancos lucram o que não ganham em nenhum outro país e as grandes empresas mais exportam e mais faturam, a riqueza se concentra e o Brasil da maioria vive da esmola, justa, miraculosa mas indecente, do Bolsa Família.

A Bahia já foi o cacau, o cacau acabou comido pela vassoura de bruxa. Ficaram a Petrobras, a petroquímica e o automóvel, que o povo vê de longe, saindo nos navios imensos, nas jamantas enormes. Pernambuco já foi a cana, a cana está indo para São Paulo atrás do etanol. No Ceará só restou o padre Cícero pendurado em sua estátua de Juazeiro do Norte. Cada estado, o mesmo pesadelo: uma economia cuja riqueza não fica, escoa.

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TURISMO

Por isso o turismo restou como a derradeira esperança do Nordeste e do Norte. Você só vê trabalho, desenvolvimento, emprego, se espalhando e chegando a novas fronteiras e novas camadas da população, onde se implantou um núcleo de turismo: Salvador, Porto Seguro, Recife, Porto de Galinhas, Fortaleza, Maceió, Natal, João Pessoa, São Luís, Belém, Manaus, e as ramificações de cada uma, em praias magníficas que as sustentam.

Em todas, há um dado básico: o turismo só se desenvolve a partir de um empreendimento inicial, central, que provoca, dinamiza e multiplica outros investimentos. Foi assim a partir dos grandes hotéis e resorts das décadas de 70 e 80 em Salvador e Porto Seguro, Morro de São Paulo e Sauípe, Porto de Galinhas em Recife, Canoa Quebrada no Ceará.

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MARAGOGI

O caso de Maragogi, em Alagoas, é exemplar. Em 90 passei lá. Eram quilômetros e quilômetros de uma costa de coqueiros, um mar verde deslumbrante, e uma cidadezinha terrivelmente pobre, miserável, de cinco mil habitantes que viviam ali pescando e bebendo água de coco e cachaça.
Construíram lá um belo e vasto hotel, um resort modelo, o Salinas de Maragogi. Foi um floração. Agora, mais de 20 anos depois, uma centena de outros hotéis e pousadas transformaram a região, dando milhares de empregos, criando uma escola de turismo, ensinando e pagando salários. Tudo a partir de um só núcleo exemplar, o Salinas.

Maragogi é apenas um entre muitos outros exemplos, pelo Brasil a fora. Ali, onde Miguel Arraes tinha sua casa de praia e saía de Recife para descansar, é exemplo para uma rede sem fim de turismo em toda a costa.

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