Será Eike Batista o último bilionário, personagem de René Clair?

Pedro do Coutto

Para não dizer que não falei de flores, escolho hoje um tema bastante leve, porém curioso. Esta frase não é minha. Reproduzo a utilizada pelo grande jornalista Carlos Castelo Branco num dos últimos artigos de sua vida, no jornal do Brasil. É o título inspirado em comédia famosa do diretor francês René Clair: O Último Milionário, que substituí para bilionário a fim de atualizar o peso econômico entre uma época e outra.

O filme é de 1940, produzido pouco antes da invasão nazista de junho. O personagem central chamava-se Monsieur Bancô. Homem simpático, sobretudo excêntrico, cultivando a singularidade que ostentava. Um belo dia, no centro de Paris, chegou à janela de sua casa, e começou a atirar dinheiro para a multidão que logo se formou. Produziu mais confusão do que solução. Mas este é outro assunto.

Eike Batista, um capitalista extremamente produtivo, mas igualmente voltado à excentricidade, tornou-se personagem de raro destaque na imprensa. Razões não faltam. Ele mesmo se apresenta como o homem mais rico do Brasil e, na lista da Revista Forbes, está entre os dez maiores do mundo. Criou uma série de empresas, comprou o Hotel Glória, que se encontra há algum tempo em reforma, tentou um investimento turístico na Marina da Glória, do qual desistiu ao receber um ataque do jornalista Élio Gaspari, no Globo e na Folha de São Paulo. Partiu para a despoluição bem sucedida da Lagoa Rodrigo de Freitas, enfim um capitalista que pode ser considerado como fordiano.

Passados cem anos, Henry Ford não foi ultrapassado em visão social por empresário algum. Logo, como se constata, estou elogiando Eike Batista. Porém, me chamam atenção três matérias publicadas no Caderno de Economia da FSP, edição de quarta-feira11. Uma assinada pelo repórter Pedro Soares, duas da Agência Reuters. A de Pedro Soares refere-se ao aluguel, por Eike, da antiga sede social do Flamengo, Avenida Rui Barbosa. Por 17.6 milhões de reais pelo prazo de 25 anos. Vai transformá-la num hotel e, quando estiver funcionando, em 2016, pagará ao clube 270 mil reais por mês.

Há risco no empreendimento. A reforma do Hotel Glória ainda não acabou. Dois hotéis de grande porte e luxo no mesmo bairro? Mas quanto ao edifício do Flamengo, construído no governo Dutra, quando Hilton Santos presidiu tanto o antigo IAPTEC quanto o clube, a transação só foi viabilizada porque o prefeito Eduardo Paes anistiou, contra o voto da vereadora Teresa Bergher, a dívida de 16 milhões referente ao IPTU em atraso.

Qual o motivo da anistia?Relativamente às duas matérias da Reuters, agência internacional e tradicional de notícias, Eike Batista associou a EBX Energia à alemã EON que adquiriu dez por cento das ações, por 1 bilhão de reais. Planejam juntas investir 18 bilhões (de reais), nove cada uma, no Sul do país e no Chile. Mas se o investimento previsto para a EBX é de 9 bilhões, porque necessitou o empresário negociar a décima parte do capital?

Talvez – quem sabe – para viabilizar financiamento possivelmente do BNDES. Sim. Porque a segunda reportagem da Reuters revela que a EBX Estaleiros obteve do mesmo BNDES financiamento no montante de 227 milhões de reais a uma taxa anual de juros de 5,4%. O texto não diz qual prazo e qual o período de carência, ou seja o tempo entre a parte financiada e o início do processo mensal de amortização para resgate do crédito.

Mas os juros cobrados são baixos. Inferiores, por exemplo, à taxa inflacionária de quase 7% encontrada pelo IBGE para o exercício de 2011. Dificilmente o índice no final de 2012 será menor do que a anterior. Mas isso é especular sobre o futuro.

No presente, seja como for, excêntrico, herói ou gênio econômico e produtor de milagres financeiros, Eike Batista não será o último bilionário, mas encarna bem o personagem ameno, sedutor e imortal de Rene Clair.Vale a pena ver o filme, se passar alguma noite na televisão.

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