Será isso o que o telespectador deseja?

Carlos Chagas

Eis um tema a necessitar análise mais profunda: por que nossos telejornais, sem exceção, transformaram-se em verdadeiras delegacias de polícia, predominando nos noticiários as reportagens sobre crimes, violência e desgraças a dar com o pé?

De início, é bom ressaltar a permanente disputa por audiência entre as principais redes, ou seja, se cada vez mais abrem espaço para informações policiais, é por conta da preferência do público. Audiência significa faturamento, quer dizer, sobrevivência e, se possível, crescimento. Mas é preciso indagar: que tipo de público dá preferência a esse tipo de noticiário?

A ascensão das classes C e D à classe média é coisa recente, mas muito antes disso as categorias menos favorecidas da sociedade conquistaram acesso à televisão. Mesmo no casebre mais miserável das favelas, periferias e do interior, as famílias podem comer mal ou até não comer, mas faz muito que permanecem diante das telinhas. O baixo nível de muitas novelas flui pelo mesmo caudal dos telejornais.

Raciocinam os exegetas da mídia eletrônica que em São Paulo, por exemplo, o cidadão leva duas horas para chegar ao trabalho e depois mais duas para retornar. Esgota-se em atividades que não o satisfazem. Assim, quando se vê combalido, em casa, se não fica feliz ao menos sente-se compensado ao verificar que há gente mais infeliz do que ele. Que tragédias muito mais densas atingem pessoas como ele, ou até de classe mais privilegiada.

Num raciocínio primário, o que vale mesmo é o Ibope, e se os telejornais cada vez mais privilegiam crimes e violência, será pela conquista de audiência e de publicidade. Fecha-se o círculo de giz, logicamente embasado pela defesa da liberdade de informação, porque parece afastada em definitivo a possibilidade de intervenção do poder público no conteúdo do noticiário.

Fazer o quê, diante desse nó impossível de desatar pela espada de Alexandre? Anos atrás foi à falência a Rede Manchete, por remar contra a maré. Apresentava concertos da Orquestra Sinfônica de Berlim, regida por Von Karajan, enquanto as concorrentes mostravam crimes, violência e desgraça. Dava traço.

Trata-se de um enigma saber o que fazer. Mas alguma coisa precisa ser feita, mesmo sabendo-se ser inviável tentar trocar de público telespectador…

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VANTAGENS INEQUÍVOCAS

Mesmo inexplicavelmente trabalhando em silêncio, sem abrir suas sessões aos meios de comunicação, a Comissão da Verdade começa a gerar resultados. Multiplicam-se as denúncias sobre horrores praticados durante os anos de chumbo. Casas da Morte aparecem, ex-agentes do poder público são denunciados por crimes de tortura e assassinato, quando não tomam a iniciativa de apresentar-se, da mesma forma como antigos terroristas assumem ações de justiçamento de seus próprios companheiros.

Punições estão fora de cogitação, dada a Lei da Anistia, mas haverá castigo maior do que a exposição da prática de crimes e criminosos? Seria uma beleza se pelo menos depois de cada reunião a Comissão da Verdade liberasse para a imprensa um relato de suas investigações e dos depoimentos tomados, mas, ainda assim, prevalece a natureza das coisas.

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VIROU VIDRAÇA?

Não deixa de ser significativo o episódio dos dois Mirage da Força Aérea que, sobrevoando a Praça dos Três Poderes em dia de festa, arriscaram baixar além do recomendável, causando a quebra das vidraças do Supremo Tribunal Federal. Para quem imaginava que a mais alta corte nacional de justiça era pedra, pela rigidez de seus julgamentos, ficou a surpresa: virou vidraça. Será um presságio ligado ao mensalão?

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ESFORÇO FINAL

Márcio Thomas Bastos tentava ontem, como tentará hoje e amanhã, salvar o pescoço de Demóstenes Torres, seu cliente, cuja degola está marcada para quinta-feira, no plenário do Senado. Até adiar a sessão de julgamento entrou em cogitação, assim como a hipótese de o representante de Goiás apresentar sua renúncia e, dessa forma, preservar seus direitos políticos. A cassação, porém, surge como inevitável, mas é bom aguardar…

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