Será possível haver democracia em algum país árabe?

Soldado faz segurança durante manifestação em frente ao prédio da Guarda Republicana no Cairo Foto: LOUAFI LARBI / REUTERS

Carlos Newton

Esta é a pergunta do momento, em função do golpe de estado no Egito. Na verdade, em todos os países árabes há um inequívoco envolvimento entre política e religião, além de divergências peculiares em termos de etnias, variando de país para país.

Desde 1952, quando foi deposto o rei Farouk, o Egito vive sob uma ditadura militar moderada, se é que podemos dizer assim. Gama Nasser, Anwar Sadat e Hosni Mubarak se sucederam como líderes militares que não permitiam a existência de uma oposição que os ameaçasse. E o Egito foi crescendo e se desenvolvendo, graças ao turismo e à uma permanente ajuda financeira dos EUA.

Nasser morreu no poder em 1971, seu vice-presidente Sadat assumiu e dez anos depois foi assassinado num  atentado cometido pelo grupo Jihad Islâmica, que se opunha ao acordo de paz com Israel e à entrega da Faixa de Gaza para o Estado Judeu. Foi sucedido pelo seu vice-presidente Hosni Mubarak.

RETROCESSO

Depois da Primavera Árabe, que derrubou Mubarak há dois anos, o primeiro presidente eleito, Mohamed Morsi, não era um político propriamente dito, mas um líder religioso da Irmandade Muçulmana, facção islâmica majoritária no Egito. Sua eleição foi um retrocesso, porque o Egito era um dos países árabes mais ocidentalizados (o outro é o Líbano).

Se fizerem eleição, a Irmandade Muçulmana certamente ganhará de novo. Por isso, tudo indica que o país mergulhará em outra ditadura militar, só que não será moderada nem ocidentalizada. Para se garantir no poder, os militares terão de agir com rigor contra os líderes islâmicos. Já mandaram prender o líder da Irmandade Muçulmana, e a situação tende a se radicalizar ainda mais.

Não há a menor expectativa de paz, o turismo vai acabar e o país entrará numa decadência total. É isso que ocorrerá. Como já previmos aqui desde a Primavera Árabe, há dois anos, o Egito ainda vai sentir saudades de Mubarak.

Ainda não é possível haver democracia no mundo árabe, infelizmente. O Líbano está tentando, mas lá também existe um retrocesso. Mesmo assim, vamos torcer para dar certo.

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13 thoughts on “Será possível haver democracia em algum país árabe?

  1. Sr Newton,
    Nenhum (NENHUM)árabe ou comunista entrega poder. Só sai morto (morte natural ou morte matada). Khomeini, Pavlev, Lenin, Kadafi,Stalin, Sadan, Sadat, Mubarak, Seaucesco, etc

  2. Carlos Newton, saudações.
    Peço que considere esta minha sugestão, para a reformulação da pergunta.
    “Será possível haver democracia em algum país árabe? E nos Estados Unidos, será possível?”
    Ora, recordemos o que diziam os pré-candidatos do partido republicano do sistema para a escolha do candidato a concorrer à presidência (que o George Clooney tão bem demonstrou no seu filme “Tudo Pelo Poder”). Vale ressaltar que coube ao deputado Ron Paul, na TV, destacar com impressionante clareza como funcionam as coisas lá (novidade nenhuma).
    “Mitt Romney é um homem muito rico. Gasta milhões de dólares em propaganda na tv, em revistas, em deslocamentos em seu avião particular, em folhetos, faixas, paga muitas pessoas para comparecer em comícios, etc. A equipe dele é enorme. Nós simplesmente não temos como competir com ele”. Ora, se as condições são tão desiguais, e garantidas pela lei, onde está a tal democracia deste sistema? Por que a disputa não pode ser igual, com todos desfrutando dos mesmos espaços? Romney conquistou a vaga no partido, claro. O poder do dinheiro corrompe e decide. Nos países árabes existem pelo menos 500 tribos diferentes. No Bahrein, por exemplo, quando houve tumultos, o Rei apressou-se em ir a tv para dizer: “Calma, pessoal! Amanhã todos os meus colaboradores e funcionários da ARAMCO poderão ir aos bancos, mandei liberar tantos mil dólares para cada um”. Na Arábia Saudita ocorreu o mesmo. E em outros países árabes também. Até quando ISTO funcionará … ninguém sabe. Aliás, sobre este mundão … ninguém sabe mais de nada … se é que em algum dia soubemos.

  3. Certa feita um médico petista me disse, hoje parece que ele soma com o prefeito Paes, RJ: “a democracia dos EEUU é um bem ocidental, não é de aplicação universal. Na Ásia e na África vigoram outras coisas e as exceções justificam a regra”.Entre outras, se no Brasil houvesse mesmo democracia votar não seria obrigatório. A beleza da diversidade (leia-se Vida)é mais bonita, por que todo mundo tem de ser democrata conforme os padrões ocidentais?

  4. Quem somos nos, ocidentais para dizer a um povo que habita a terra desde a criação do homem se eles querem democracia. Quem perguntou isso a eles. A democracia que eles querem é no nosso modelo. Ou será apenas o sequestro das mentes jornalísticas daquela região para dizer o que seu povo quer. Ou será opinião de algum estudioso que permite dizer isso. Todos os impérios que o mundo conheceu, mantido pela força de suas armas desapareceram. O império do Islamismo, mantido pela fé de seu povo se mantém vivo e forte, apesar de ser diretamente atacado pela arrogância das mentes ocidentais desde as cruzadas. Não está na hora de deixar os povo decidirem qual o seu caminho?

  5. Irineu,saudações.
    Quando medem o nível de felicidade existente entre os países deste nosso mundão, invariavelmente aparecem na liderança NORUEGA, SUÉCIA, DINAMARCA e AUSTRÁLIA. E (quase que) ninguém conhece os “Líderes das Massas” destes países …
    Você me permite sugerir algo? Leia sobre o Professor Darcy Ribeiro, um dos maiores antropólogos em todos os tempos. Cada povo se adapta com sua cultura própria. Outros povos, tentam IMPOR sua cultura aos demais …
    Agradeço pelo seu texto.
    Abraços e um bom fim de semana.

  6. Diante de alguns comentários sobre os árabes, transcrevo comentário que eu escrevera um ano atrás referente a este mesmo tema. Avesso que sou à desinformação ou rótulos, a Civilização Árabe contribuiu para o mundo civilizado e para a civilização moderna e contemporânea, e pouco se fala sobre os seus feitos. Os árabes existem há pelo menos 4000 anos, embora alguns historiadores defendam que seja muito mais do que isso. Mas foi a partir do século VII, com advento do Islã, que tem início uma idade de grande expansão e aperfeiçoamento da língua árabe e da ampliação do conhecimento a partir do idioma. Devido à expansão geográfica feita neste período, os árabes entram em contato com diversas culturas como a grega, a hindu, a chinesa, a bizantina e a persa. A partir disso, passam a conhecer os escritos e vertê-los para o árabe, aperfeiçoando-se na técnica de tradução e divulgação do conhecimento. Neste momento, um grande processo de intercâmbios entre as diversas culturas passa a ocorrer e os árabes foram não só os grandes propagadores mas também os grandes catalisadores das transformações científicas que se seguiram.

    A CONSCIÊNCIA E A HERANÇA

    Al Mansur foi o primeiro a financiar as traduções de obras científicas dos indianos e dos filósofos gregos antigos. Seus sucessores continuaram e ampliaram esta prática, o que levou a fundação da Casa do Conhecimento, que acolhia os melhores sábios da época e tornou-se o primeiro centro científico. Entre os manuscritos traduzidos para o árabe estavam textos desaparecidos de Ptolomeu, Euclides, Galeno e tantos outros provenientes das ciências antigas. Estes sábios foram largamente estimulados por homens eminentes e de grandes posses, que tinham interesse pelo conhecimento criativo.

    O DESENVOLVIMENTO EXUBERANTE DE IDÉIAS E SABERES

    A partir do século IX e diante deste ambiente, inicia-se o período emergente da ciência dos árabes. Neste momento, os conhecimentos deixaram de ser adquiridos apenas a partir das traduções, mas passaram a ser aprimorados e novos saberes foram desenvolvidos. Entre os séculos X e XIII tem lugar o verdadeiro apogeu da ciência árabe e um desenvolvimento da ciência em larga escola e no século X é formada a Casa do Saber em Bagdá, onde é instalada também uma das maiores bibliotecas da humanidade.
    Ao longo de 4 séculos um ambiente de enorme estímulo intelectual prevaleceu e se ampliou e foi neste período que inúmeras descobertas ocorrem, entre as quais se destacam:

    1.Matemática e Álgebra – com o desenvolvimento dos algarismos, do conceito de zero e do sistema decimal, da prática do cálculo, da álgebra, das equações trigonométricas e da aritmética. Dentre os grandes sábios destacam-se Al-Kwarismi (de onde vem a palavra algarismo), Ibn al-Haytam, al-Biruni entre outros tantos;
    2.Astronomia – são recuperados os conhecimentos dos gregos antigos e desenvolvidas técnicas e instrumentos sofisticados de orientação (astrolábios e observatórios), determinação do tempo e modelos planetários;
    3.Geografia – conhecimento da geografia humana e cartografia;
    4.Física – desenvolvimento da hidrostática, da óptica, da mecânica;
    5.Arquitetura e artes decorativas – Desenvolvimento de construções e elementos geométricos de grande sofisticação;
    6.Química – a partir de experimentos práticos desenvolveram o sabão, elementos cosméticos como a água de rosas (a partir de técnicas de destilação) e do vinagre (a partir de técnicas de fermentação). Devido a uma busca incessante pelo elixir da vida, do medicamento milagroso que poderia curar todos os males.

    A MEDICINA

    A partir de uma herança rica vinda dos tratados de Hipócrates e Galeno, a medicina árabe inovou em diferentes aspectos e transformou-se em uma medicina de alto nível, desenvolvida nos grandes centros da época. Foram exatamente por causa das grandes cidades que os árabes desenvolveram o conceito de hospital, ou seja, um lugar onde se reuniam especialistas empenhados no tratamento de doentes, na prática e no ensino da medicina. Nestes locais também se desenvolveram as farmácias onde se reuniam os agentes terapêuticos diversos. Devidos aos avanços na pesquisa química e na busca do elixir terapêutico, os árabes tornam-se responsáveis pela descrição de grandes farmacopéias (coleção de elementos detalhadamente descritos quanto ao seu aspecto, obtenção e uso terapêutico). Os avanços na química também permitiram não só o tratamento das doenças, mas também os preparados químicos na busca do equilíbrio e do bem-estar.
    Grandes desenvolvimentos na área médica foram possíveis nesta época e muitas doenças foram como a varíola, a asma e a alergia foram descritas e tratadas. Grandes conhecimentos de anatomia e fisiológicos foram adquiridos, entre os quais a anatomia e fisiologia da mulher, do desenvolvimento fetal e da gravidez. Houve também o desenvolvimento de instrumentos cirúrgicos e de técnicas cirúrgicas sofisticadas para a época. Há que se salientar que antes dos árabes as cirurgias eram feitas pelos barbeiros e a partir dos árabes, estas tornaram-se práticas desenvolvidas e ensinadas em escolas médicas.

    Dentre os grandes sábios médicos podemos citar Ibn Sina, conhecido também como Avicenna, que elaborou um tratado de medicina chamado o “Cânone da Medicina”. Uma obra monumental onde descreveu diversas patologias e seus possíveis tratamentos, tendo sido utilizada na prática e no ensino médico até o século XVIII. Dentre as doenças descritas por Avicenna podemos citar várias desordens centrais como a mania, alucinações, pesadelos, demência, epilepsia, derrame, paralisias, tremores e até mesmo distúrbios sexuais! Avicenna descreveu diversas estruturas anatomicas, regiões do cérebro cujos nomes são utilizados ainda hoje na neuroanatomia e neurofisiologia moderna. Ele foi o primeiro cientista a relacionar regiões do cérebro com funções específicas do organismo, o que até hoje continua sendo objetos de estudos na neurofisiologia e neurosciência. Além disso, ele acreditava e frequentemente utilizava métodos psicológicos para tratar seus pacientes.
    Há vários outros sábios filósofos e médicos como Ibn al-Nafis, que descreveu o que hoje é conhecida na anatomia como “a pequena circulação” que trata da circulação venosa em artérias pulmonares antes da sua oxigenação pelo coração.

    No estudo, elaboração e compilação de medicamentos, destacou-se o sábio Ibn al-Baytar que descreveu mais de 1400 medicamentos dentre os quais pelos menos Os árabes também produziram conhecimentos importantes para o bem estar do indivíduo como conhecimento sobre a higiene e a nutrição e principalmente sobre a descrição de processos mentais e psicológicos. Avicenna e Al-Razi defendiam a utilização de métodos psicológicos para o tratamento de doenças e pode-se dizer que são precursores também dos estudos em psicologia. De fato, foram os árabes os primeiros a descreverem a psicologia experimental, as desordens do sistema nervoso central, as desordens do sono e as da memória. Pode-se dizer que, juntamente com as técnicas de neurocirurgia desenvolvidas por Al-Zahrawi, todas estes conhecimentos podem ser considerados os precursores de uma das ciências mais interessantes e desenvolvidas da nossa época, a neurociência. Ao analisar todos estes estudos descobrimos que ainda há muito que investigar à luz dos conhecimentos produzidos pelos árabes e que são mais atuais do que imaginamos.

    Além disso, sempre é bom lembrar que enquanto o conhecimento e a ciência florescia entre os árabes, a Europa vivia em obscurantismo. Graças aos árabes muito do conhecimento foi salvaguardado e aprimorado para depois ser transmitido aos europeus e ao Ocidente, possibilitando um novo despertar da humanidade e do chamado mundo civilizado. De um pólo a outro, de um século ao outro até os dias atuais, foram os conhecimentos adquiridos e desenvolvidos pelos árabes e posteriormente incorporados pelos Europeus que fizeram ampliar os conhecimentos que transcenderam épocas, fronteiras e línguas. Aos árabes devemos muito da nossa ciência atual e um lugar de destaque deve ser reservado a este conhecimento. Essa herança universal e humanista está em todo o conhecimento científico gerado pelos árabes.

    Esta é uma história que devemos sempre lembrar.

  7. Caro Almério,
    Grato.
    Pessoas do teu nível intelectual não podem prescindir da verdade histórica e de se permitirem condizir por preconceitos.
    Discordamos, às vezes, nada mais natural porque somos dois seres pensantes, no entanto, sempre estaremos juntos quando a realidade, os fatos, a lógica, ultrapassarem idéias que se não se coadunam à veracidade mencionada à exaustão em livros, enciclopédias, nas obras de arte, na arquitetura, literatura, ciências, que notabilizaram este povo árabe fantástico, que devemos respeitar com relação aos seus usos e costumes, tradição e religiosidade.
    Abraço, Almério, também forte e cordial.

  8. Sr. Bendl;

    Eu me sinto confortável para criticar o radicalismo político árabe. Meu pai nasceu em Miziara (Líbano). Portanto eu também tenho sangue cartaginês e fenício.
    Meu pai me dizia que infelizmente o mundo árabe não tinha tido ainda o seu Iluminismo.
    E obrigado pela aula de história. Os algarismos arábicos são realmente geniais. Sobreviveram à Tábua de Logaritmo, à Isaac Newton e aos cálculos sofisticados dos computadores. Até hoje, ninguém nem pensou em mudá-los.

  9. Prezado Marins Marini,
    Todos nós podemos criticar o que queremos, para isso vivemos em democracia, que nos permite a liberdade de expressão.
    Ao registrar o meu comentário acima, eu quis mostrar aos colegas que postaram textos contrários aos árabes, que este povo muito contribuiu para o desenvolvimento da humanidade, razão pela qual a necessidade de se mostrar o lado positivo e de construção de um mundo onde hoje muito do que fizeram ainda é utilizado.
    No entanto, concordo contigo neste aspecto do “Iluminismo” árabe, que o sr. teu pai disse com tanta propriedade.
    Existem circunstãncias verdadeiramente poderosas que impediriam este renascer, a começar pelas dinastias e reinados.
    Observa os Emirados Árabes, Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah. A capital e segunda maior cidade dos Emirados Árabes Unidos é Abu Dhabi. A cidade também é o centro de atividades políticas, industriais e culturais, pois bem, o nível que propicia à sua população em termos de conforto material, segurança, paz, e possibilidade de crescimento é impressionante.
    Mudar para quê?!
    Arábia Saudita, que paga um salário fantástico para seus universitários, que desfilam com suas Ferrari, Lamborghini, Mclaren, Aston Martin, e possuem uma vida igualmente faustosa, mudar como?
    No entanto, eis o Yêmen, atrasado, localizado em região montanhosa, havendo tribos que ainda vivem na época medieval; o Egito, e sua população que ainda não se encontrou consigo mesma e não se identifica ainda com o processo democrático; a Líbia, governada pelo Kadafi que se possibilitou um certo progresso ao país, em compensação dele se adonou, até ser derrubado e varrido pela Primavera Árabe; a Síria, cujas manifestações populares por mudanças no governo foram descritas como “sem precedentes”, enquanto a oposição alega estar lutando para destituir o presidente Bashar al-Assad do poder para posteriormente instalar uma nova liderança mais democrática no país, o governo sírio diz estar apenas combatendo “terroristas armados que visam desestabilizar o país”.
    Lamento por Damasco, simplesmente a cidade mais antiga do mundo, que atualmente vive em conflito longe de se imaginar o seu final.
    Bom, quero dizer que, dificilmente, haverá unidade ao povo árabe pelas diferenças de tratamento de uma nação para outra. Se a religião os une de forma inquebrantável, a política tem sido a cunha da dissolução, da diferença, de impedir a aproximação total de um povo que mereceria receber o pouco que o Ocidente tem de bom, como a Democracia, a valorização da mulher, liberdade para o sexo feminino, e ver em outros povos que não são inimigos, mas que também compõem a Humanidade e temos de viver em PAZ.
    Quanto á questão palestina, ela é especial, por isso não a abordei neste comentário.
    Um abraço, Marins

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