Sergio Machado embromou Janot e Teori, mas pode perder a delação premiada

Charge sem autoria, reproduzida do Arquivo Google

Carlos Newton 

Em relação à classe política, até agora as delações premiadas com  maiores estragos foram feitas pelo então senador Delcídio Amaral (PT-MS) e pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que entregaram ao Supremo Tribunal Federal dezenas de políticos envolvidos com a corrupção. Mas há grandes diferenças entre os dois. No caso de Delcídio Amaral, ainda não há fortes indícios de enriquecimento ilícito, a acusação mais forte contra ele é de obstrução da justiça, que lhe causou imediata perda do mandato. Quanto a Sérgio Machado, porém, já está comprovado que se trata de um dos maiores corruptos do país, que fez com que a Transpetro se tornasse uma fábrica de desvio de recursos públicos, em escala que ultrapassou a casa do bilhão de reais.

“NERD POLÍTICO” – O caso de Sérgio Machado é muito interessante. Quem o conhece sabe que ele é meio bronco, uma espécie de “nerd” político, a capacidade intelectual é muito limitada. Seu pai, ex-deputado e ex-ministro Expedito Machado, era riquíssimo, o maior “coronel” de Crateús, e dominava a política em diversos municípios do Ceará. Mas o filho foi uma nulidade. Não deu certo como empresário (faliu a famosa fábrica de jeans Vilejack) nem como político.

Sob as asas do pai, se elegera deputado federal e senador. Depois, mais nada. Tornou-se um político fracassado e sem mandato. No entanto, tinha feito muitos amigos nos 12 anos que ficou no Congresso e eles então o indicaram para presidir a Transpetro no primeiro governo Lula, garantindo-lhe por quase 13 anos um emprego com salário superior a R$ 100 mil mensais. No entanto, isso não bastava e a ganância falou mais forte.

UM CORRUPTO FAMOSO – A rapinagem que Machado instaurou na estatal foi de tal ordem que logo se tornou pública e notória. Como dizia Ibrahim Sued, “em sociedade tudo se sabe”, o que é uma grande verdade. Antes mesmo da Lava Jato, já se tinha conhecimento da corrupção institucionalizada na Transpetro. Portanto, a investigação chegar a Machado era apenas questão de tempo.

Quando enfim ele caiu na malha da força-tarefa, não tinha mandato e ia ficar nas mãos do juiz Sergio Moro. Ou seja, o ex-presidente da Transpetro estava destinado a pegar uma das penas mais severas da Lava Jato. Mas a linha de defesa adotada por seu advogado foi sensacional e inovadora.

Machado precisava ganhar o foro privilegiado no Supremo e somente existia uma saída. Teria de delatar seus melhores amigos, aqueles caciques do PMDB que o ampararam como político fracassado e o colocaram na presidência da poderosa estatal. Foi essa estratégia de defesa que funcionou e salvou Machado, e ele não ficou um só dia na prisão.

UM ADVOGADO BRILHANTE – Na internet, não adiante pesquisar nos sites de busca. Não aparece o nome do advogado que mostrou o caminho das pedras ao ex-presidente da Transpetro. O fato é que a linha de defesa foi brilhante, ao usar as gravações de conversas de Machado com os velhos amigos Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá. Somente Jader Barbalho escapou, porque estava fazendo quimioterapia e o médico proibiu que recebesse visitas. Mas  Sarney não deu essa sorte e a gravação foi feita quando ele estava hospitalizado, vejam que Machado é como o Palhares, personagem de Nelson Rodrigues que não tinha o menor caráter.

Machado levou as gravações ao procurador-geral Rodrigo Janot e ao ministro-relator Teori Zavascki, prometendo que iria denunciar 24 políticos de grande destaque. Eles se encantaram e logo fecharam o generoso acordo de delação, dando impunidade total  aos dois filhos/cúmplices de Machado. Para o ex-presidente da Transpetro, apenas prisão domiciliar pelo prazo de dois anos e  três meses, em pena a ser cumprida na suntuosa mansão recentemente construída por ele no mais sofisticado condomínio de Fortaleza, e devolução de R$ 75 milhões, em prestações mensais, embora tenha desviado algo em torno de R$ 1 bilhão.

MUITAS REGALIAS – Além de liberar os filhos e continuar usufruir dos recursos ilícitos que acumulou na atividade criminosa, Machado conquistou muitas regalias. Pode sair de casa em datas comemorativas e  receber visitas de 27 amigos. Isso é que é um acordo, porque pai e filhos continuam riquíssimos.

Machado fez a denúncia, assinou o acordo, livrou os filhos, mas até agora não apresentou provas. Na delação, acusou 24 políticos, mas teria dado propinas diretas a apenas cinco deles – Renan Calheiros, José Sarney, Romero Jucá, Edison Lobão e Jader Barbalho. Os outros 19 receberam “doações oficiais” das empresas em campanhas eleitorais.

É aí que a coisa começa a pegar. Doações oficiais eram permitidas em lei, declaradas à Justiça Eleitoral, não constituem crime em nenhum tribunal de país civilizado. Não adianta dizer que essas doações eram propinas, pois as empresas citadas estão desmentindo e confirmando que houve patrocínio oficial de campanha.

MAIS VINTE DIAS – No último dia 2, o ex-presidente da Transpetro pediu prazo de 20 dias para ele recolher informações e fazer novas denúncias. Caramba! Quer dizer que até agora Machado não apresentou as provas? Que delação é essa?

O fato concreto é que, juridicamente, as gravações nada revelam de factual. Apenas mostram três políticos (Renan, Sarney e Jucá) tentando consolar um amigo (Machado) que logo seria preso, todos estavam convictos disso.

E agora Machado tem apenas uma semana para exibir as provas. Pode ser que ele consiga entregar os cinco que recebiam propinas, mas não tem a menor prova contra os 19 que pediram doações oficiais, entre eles o presidente Michel Temer.  Se não conseguir comprovar, deixando claro que apresentou acusações apenas verbais, a delação pode ser cancelada e os autos encaminhados a um juiz que se chama Sérgio Fernando Moro.

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PSJá anunciamos aqui na Tribuna da Internet, com absoluta exclusividade, que o advogado de Machado fez “contas de chegar”. Ou seja, conferiu na internet os candidatos que receberam doações oficiais de empresas ligadas à Transpetro e Macado denunciou como se fossem propinas. Nesse rolo, acabaram entrando Jorge Bittar (PT) e Jandira Feghali (PCdoB). A armação chega a ser engraçada, mas não há dúvida de que o advogado de Machado é um gênio. (C.N.)

19 thoughts on “Sergio Machado embromou Janot e Teori, mas pode perder a delação premiada

  1. CN, perfeito o comentário. Machado fez a famosa “delação biquini” , aquela que mostra tudo mas esconde o essencial. Só um ponto, ele não embromou ninguém, atendeu as conveniências dos ouvintes da delação.

  2. Infelizmente, até as delações conseguiram desvirtuar, haja vista que do jeito que ficou, tornou-se mais um instrumento de impunidade, e a continuar da forma como está só os pés-de-chinelo ou um e outro otários com Dirceu e vacari permanecerão presos, aos demais bastará colocar uma tornozeleira e desfrutar nababescamente os frutos do que roubaram. Eta, país em que as instituições tão bem funcionam.

  3. Sei não, tanto que ele já devolveu a primeira parcela e , ao que eu saiba , o seu advogado apenas pediu mais 20 dias para apresentar mais provas. Alguém que está escrevendo sobre o assunto já leu os anexos da delação ou apenas as 400 páginas introdutórias ?
    Ele não só manteve o que disse contra o Temer como treplicou… Estão precisando de um GPS para chegarem a Base Aérea…

  4. Newton, os fatos existem e as versões são muitas. Como a Internet virou “quitanda” encontrando-se qualquer artigo. Uma das versões diz que Moro é que disse a Machado que suas delações precisavam de prova para serem aceitas. Machado então se propôs a fazer uma gravação. Fez a gravação com detalhes provando o golpe que ninguém mais tem dúvida. Até um “porco espinho” decodifica o que foi dito. Tudo certo para barrar a Lava Jato, mas tinha uma pedra no caminho: Dilma que não aceitaria participar da trama. O jeito então seria retirá-la do caminho. Quanto a Sarney no hospital, foi uma queda que machucou o ombro, nada grave. O que falta o povo saber é quem vazou o pedido de prisão de Renan, Jucá e Sarney. Gilmar dá a entender que foi Janot. Janot reagiu em pronunciamento duro que pela lógica podemos dizer que se referia a Gilmar. O certo é que tem gente no STF envolvido na trama. Eu pessoalmente, como cidadão, desconfio de Gilmar e Toffoli. Me avisam aqui onde estou: “Não diz isso”. Se eu penso logo posso falar. Desconfiar não é acusar.

  5. Engraçado que agora o Machado é o vilão. O cara entregou um monte de corruptos e ainda está errado. Fez um favor para sociedade. Os delatados são santos? Não! Uma pena que no Brasil as coisas funcionem assim… Os vilões saindo como vítimas.

  6. Machado ainda luta contra uma campanha de descrédito de gente poderosa que tenta desacreditar sua colaboração. No entanto, isso de nada vai adiantar, pelo contrario só vai piorar a situação deles. O certo e que as delações de Sergio Machado são de extrema necessidade para a limpeza do Brasil.

  7. Ao cooperar com a justiça Sergio Machado tem causado insônias em muita gente, políticos insistem em mentir tentando tirar o foco das Delações. O certo e que as delações de Sergio Machado são de extrema necessidade. O Brasil precisa expelir de vez políticos corruptos. Acorda Brasil.

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