Sérgio Moro critica brechas legais que levam à impunidade

O juiz federal Sergio Moro, responsável pela condução dos processos na Operação Lava Jato, participa de audiência pública na CCJ

Moro lamentou que a impunidade persista

Rubens Valente
Folha

O juiz federal Sergio Moro, responsável por conduzir os processos da Operação Lava Jato, foi confrontado por dois juízes de Direito, membros da AJD (Associação Juízes para a Democracia), e por advogados na audiência pública convocada pelo Senado para discutir mudanças no CPP (Código de Processo Penal). O juiz atacou “brechas” na legislação que, segundo ele, protelam o cumprimento de sentenças judiciais em casos criminais.

O projeto em discussão no Senado, produzido pela Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) e apresentado por um grupo de senadores, permite que tribunais decretem prisões de réus já a partir de um acórdão condenatório mesmo que recorrível a tribunais superiores. Na prática, a mudança poderia impedir que um réu, com sentença de condenação confirmada por um Tribunal de Justiça ou um Tribunal Regional Federal, ainda continuasse em liberdade à espera do julgamento de outro recurso em tribunal superior. A proposta abrange crimes como tráfico de drogas, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa ou passiva e terrorismo.

RECORRER, RECORRER…

“Eu [em tese], sendo processado criminalmente, o que vou orientar? Vou orientar meu advogado a recorrer, recorrer, recorrer, mesmo que não tenha razão. Hoje o sistema permite essas brechas. A ideia é não permitir essas brechas”, disse o juiz federal aos senadores.

O juiz afirmou que “casos complexos” que passaram pelas suas mãos, como os derivados do escândalo Banestado, que apurou remessas de bilhões de dólares para o exterior, ainda permanecem sem julgamento final, embora iniciados há onze anos.

“Eles [dirigentes do Banestado] praticaram fraudes milionárias, julguei em 2004 e nunca chegou ao final. Já foram condenados por mim, por STJ, mas não obstante, tramitam ainda recursos, nesse caso incabíveis, no Supremo”, explicou o magistrado.

“Normalmente são uma patologia, a gente pensa que casos assim ocorrem pontualmente, mas não”, afirmou o juiz.

IMPUNIDADE

Moro foi apoiado pelo presidente da Ajufe, Antônio César Bochenek, que falou na “tríade morosidade, recursos protelatórios e prescrição da pena”. “Os juízes não têm primazia de combater a impunidade, o juiz, sim, se preocupa ou deve se preocupar com a regularidade do processo, e ele visa sobretudo que não haja impunidade e que a justiça seja feita nos casos concretos”, disse Bochenek.

Um dos representantes da OAB na audiência, Fábio Zech Sylvestre, disse que o projeto ofende o princípio da presunção da inocência. “Ninguém será considerado culpado até o trânsito penal de sentença condenatória. Na verdade esse preceito constitucional é inerente à dignidade da pessoa humana”, disse Sylvestre.

NAZISMO E FASCISMO

Em duro ataque ao projeto, o professor de direito e juiz no Rio, Rubens Roberto Rebello Casara, membro da AJD, fez comparações com a Alemanha nazista e o fascismo italiano para dizer que “no Estado democrático de direito os fins não justificam os meios”.

O juiz de direito de São Paulo Marcelo Semer, também membro da AJD, afirmou que casos marcados por inúmeros recursos são “folclóricos e não entram para as estatísticas”. Ele disse que não se deveria mudar a legislação “a partir da Operação Lava Jato”.

O senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) rebateu a acusação de que o projeto é movido por “interesse midiático”, ao dizer que propostas de mudança do CPP tramitam desde 2011 na comissão. Dirigindo-se a Casara, o senador citou a fala do ex-ministro do STF Cezar Peluso, segundo o qual o atual sistema processual penal “é ineficiente, danoso e, eu diria, perverso”. Segundo o senador, o interesse da CCJ é saber se o sistema atual está sendo eficiente e não causando impunidade.

EUA E FRANÇA

Em entrevista à imprensa após a audiência, Moro rebateu a acusação de afronta à presunção de inocência, citando Estados Unidos e França, “países que estão longe de ser considerados países nazistas ou fascistas”, onde os réus permanecem presos após decisão de primeira instância, sistema ainda mais duro do que o agora proposto, que prevê prisão a partir de decisão na segunda instância. “Esses dois países são os próprios berços da presunção de inocência, então não me parece que esse argumento seja argumento para ser levado a sério”, disse o juiz.

Em resposta às comparações de Casara com o fascismo e o nazismo, Sérgio Moro disse que é “necessário por vezes fugir do excesso de retórica” e que ouviu “coisas ofensivas” durante o debate. “Acho que esse tipo de afirmação, além de ser inapropriada, ela fecha o diálogo e revela falta de tolerância ao pensamento alheio. Referência a ‘emissário midiático’ é outra questão ofensiva e não acho apropriada”, rebateu o juiz.

JUSTIÇA PARA TODOS

Moro disse aos senadores que “a Justiça criminal tem que funcionar para todos”. “Hoje em relação aos crimes praticados por poderosos, pelas suas vicissitudes, o sistema é extremamente ineficaz”, afirmou o juiz.

“O que nós observamos hoje é uma distribuição não igualitária da Justiça criminal, ela cai muito pesadamente em cima de algumas pessoas, ou cai, – se é que cai –, em relação a outros, para essa criminalidade mais complexa.”

4 thoughts on “Sérgio Moro critica brechas legais que levam à impunidade

  1. Caro Jornalista,

    “Eu [em tese], sendo processado criminalmente, o que vou orientar? Vou orientar meu advogado a recorrer, recorrer, recorrer, mesmo que não tenha razão. Hoje o sistema permite essas brechas. A ideia é não permitir essas brechas”, disse o juiz federal aos senadores.”

    BRASIL, O PARAÍSO DOS LADRÕES DE GRAVATA.

    Não foi por acaso que o Ronald Biggs fugiu para este fim de mundo, viveu em paz, impunemente, e foi enterrado com a nossa BANDEIRA SOBE O CAIXÃO. “A formiga sabe a folha que corta”, já dizia o caipira.

    Ser honesto, nesta fazenda, é como ser VEGETARIANO em uma CHURRASCARIA ou ser CELIBATÁRIO em um cortiço cheio de PUTAS: Faz-se necessário muita força de vontade, muita obstinação e muito IDEALISMO para não entrar no “esquema”, pois o Estado Brasileiro, formado por uma ARISTOCRACIA DE CRIMINOSOS parasitas dos nossos impostos, pune e atrapalha a vida de quer trabalhar e produzir alguma coisa e facilita vida de quem age fora da lei – um mecanismo natural de defesa da classe!
    Quem tenta andar conforme a lei sabe que precisará muito estoicismo e couraça no lombo e, de antemão, também já sabe que sairá MAIS BARATO fazer acordo com o criminoso do que pleitear o seu direito usurpado no Poder Judiciário, um poder que só serve para fazer conchavos e tornar legal os crimes dos governantes.

    As ruas e o “direito e ir e vir”, tão cantado pelos advogados dos saqueadores, são dos bandidos. O povo ordeiro que se tranque em casa depois do trabalho!

    Depois de mais de QUINHENTOS ANOS de existência, ainda causa surpresa e vira MANCHETE DE JORNAL um magistrado vir a público dizer que É PRECISO PRENDER BANDIDO, coisa que já é feita pelos países sérios séculos atrás!
    Por aqui a COISA MAIS ÓBVIA DO MUNDO, como ver um MAGISTRADO querer aplicar a justiça, ainda causa mais admiração do que presenciar um rabo abanando um cachorro – e a exceção vira regra e a regra, exceção.

    Pelo menos com o avanço dos meios de comunicação, os LADRÕES tiveram que usar a carapuça de LADRÃO em público, mesmo que não tenham sentido um menor embaraço ao se ASSUMIREM COMO LADRÕES e ao mostrarem que NÃO GALGARAM os importantes cargos que ocupam e a FORTUNAS que possuem por competência, mas por APADRINHAMENTO POLÍTICO e parasitismo nos cofres públicos – o cinismo é tanto que chegaram ao ponto de se posicionar CONTRA A DELAÇÃO PREMIADA e de se solidarizar, de “se doer”, pelos companheiros das outras quadrilhas, sem o menor acanhamento!

    Espero que esse magistrado não seja uma andorinha só e que o seu voo solitário atraia outras aves que tenham a mesma sede de justiça e que, afinal, apareça algum VERÃO nesta TERRA DE ESCRAVOS que possa beneficiar a geração que está por nascer.
    -Estaria mudando algo, mesmo que centenas de anos atrasado?

    Abraços.

  2. “Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder.”
    Giordano Bruno (1548 – 1600), filosofo, teólogo, astrônomo, italiano

    Quem legisla não apoiará PL em que ele poderá sofrer penalidades.

    Isto é o mesmo que colocar raposas tomando conta dos galinheiros da nação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *