Servidor do Tribunal que movimentou R$ 282 milhões, sem dúvida, é maior exemplo de dedicação ao serviço público em todos os tempos.

Carlos Newton

O serventuário da Justiça Rogério Figueiredo Vieira, lotado no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Rio de Janeiro, é um personagem tão rico na vida real que merece ter sua vida transformada em filme ou minissérie de televisão. Aos 49 anos, Rogério Vieira tem um currículo impressionante. Além de ter feito movimentações atípicas de R$ 282,9 milhões em apenas um ano (2002), é alvo de uma investigação da Polícia Federal por envolvimento em um esquema de contrabando.
Funcionário concursado do TRT desde 1991, nosso herói passou cinco anos (1998 a 2003) cedido ao gabinete do deputado bispo Carlos Rodrigues, na Câmara dos Deputados. A movimentação que o Coaf entendeu como “atípica” aconteceu no período em que Vieira estava na Câmara, cabendo-nos então indagar o que o tal bispo teria a ver com isso.
O que se sabe é que a movimentação milionária em 2002, descoberta pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e que consta de um relatório recente entregue à Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, é dos bons tempos em que o servidor público se desdobrava, também atuando com denodo na lavagem de dinheiro sujo do mercado negro do dólar.
Mas ele não parou por aí. Segundo investigação da PF, anterior ao relatório do Coaf, o diligente servidor público também integrou um esquema, entre 2008 e 2010, para a entrada ilegal de mercadorias no país, agindo junto de empresários, servidores da Receita e policiais federais, que integravam uma superquadrilha.
As investigações apontam que brasileiros residentes nos Estados Unidos traziam equipamentos eletrônicos e não eram fiscalizados por auditores da Receita no aeroporto internacional do Rio, esquema que não é nenhuma novidade, pois até as paredes do aeroporto sabem que isso funciona desde que começaram a ser popularizados o uso de computadores, na década de 90.
Em sua denúncia, o procurador Marcelo Freire diz que o grupo seria liderado pelo servidor do TRT, vejam que ele realmente merece ser o personagem principal do filme. E agora a PF investiga se os valores movimentados na conta do servidor são produto desses ganhos e se outros servidores do tribunal faziam compras com ele.
A PF já descobriu que Vieira tem participação em sete empresas. Algumas em nome de laranjas. Como servidor do TRT, ele é proibido de ter empresa. O tribunal enfim despertou e está abrindo sindicância.
Procurado pelos jornalistas, o advogado José Ricardo Lopes, que defende Vieira em processos na Justiça Federal do Rio, não foi encontrado. Rodrigues também não. Na sexta-feira, ele não foi ao tribunal, onde trabalha discretamente em função burocrática no setor de Protocolo.
O que mais intriga a todos nesse enredo hollywoodiano, que mostra a impressionante evolução da corrupção brasileira, é justamente a personalidade modesta de Rogério Vieira. Apesar de ser um verdadeiro super-herói da contravenção nacional e de ter-se tornado um homem riquíssimo, por que ele continuava trabalhando com tanto empenho no Tribunal Regional do Trabalho?
Sem dúvida, trata-se de um exemplo de dedicação ao serviço público, a ser por todos exaltado. Perto dele, o amanuense Belmiro, de Cyro do Anjos não chega nem aos pés.

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