Setor de transporte fez inflação recuar em junho para só 0,08%?

Pedro do Coutto

Francamente, é difícil acreditar na afirmação que se encontra no título em relação à qual acrescentei um ponto de interrogação. Difícil acreditar, mas foi o que o IBGE divulgou e está na reportagem de Luciene Carneiro, Ronaldo Dercole e Lino Rodrigues, O Globo edição de 7 de julho.

Em maio, de acordo com o IBGE, a taxa inflacionária atingiu 0,36%. A queda, explica a coordenadora do índice de preços, Eulina Nunes, deveu-se a um recuo ocorrido nos preços dos automóveis, consequência da nova redução do IPI. Muito bem. Os carros passaram a apresentar preços menores.

Mas dai a projetar o valor de mercado dos automóveis no grupo transporte, como um todo, vai um abismo. O grupo transporte não é formado majoritariamente pelo custo de veículos e sim pelas tarifas de ônibus, trens, lanchas, passagens aéreas, preço dos combustíveis. Reduzir sociologicamente o custo transporte ao preço dos produtos da Fiat, Volks, Ford, GM, não creio que faça sentido.

O mesmo, por exemplo, que dizer que o preço das refeições não subiu em junho porque restaurantes de luxo não elevaram os preços da lagosta sob as várias formas em que é servida. Os restaurantes populares, a quilo, pesam infinitamente mais no consumo do que os de luxo, marcados por um refinamento degustativo. Pode-se dizer, outro exemplo, que o setor de bebidas não contribuiu para a inflação porque o Chateau Patrus, um dos vinhos mais caros, não aumentou? Assim, se distorce qualquer cálculo.

Onde entraram os alugueis no levantamento do IBGE? Regidos pelo IGPM da Fundação Getúlio Vargas, nos contratos anuais, eles foram reajustados em torno de 5%. O mesmo critério se aplica às prestações de casa própria. Como foram considerados estes? Não foram. Aliás não costumam ser, uma vez que a compra a prazo de imóveis não é considerada despesa e sim investimento.

Há muitas formas de conter, não os preços, mas os índices públicos. Uma delas é basear o cálculo nos preços mínimos. Eles de fato existem. Porém para praticá-los os consumidores necessitam ir a pelo menos quatro supermercados. Num o feijão é mais barato. No outro, o arroz. Num terceiro, a batata e o tomate. Num outro plano situam-se as massas e os óleos. Tudo bem. Os pesquisadores lançam os valores mínimos. Mas quem pode ir a quatro supermercados por dia? Basta dar um exemplo: se o feijão em Realengo, zona norte do Rio, estiver mais em conta do que em Ipanema, nem por isso quem mora neste bairro vai se deslocar pela Avenida Brasil adentro.

Outra coisa. Como a inflação pode recuar se os juros bancários e do comércio se mantêm nas alturas? O financiamento dos carros aparentemente é a base de zero de juros. Mas, claro, só na aparência. Porque a taxa (real) vem embutida nos preços. O sistema comercial possui máquinas de correção. Nós, assalariados, não dispomos de tal instrumento. A diferença está aí.

Não estou querendo dizer que a inflação esteja disparando. Apenas frisar que não acredito num acréscimo, em junho, de apenas 0,08%. Não faz sentido. O que o IBGE diz a respeito dos preços dos remédios? Pode sustentar que o governo distribui medicamentos gratuitamente para pressão arterial e diabetes. Perfeito. Mas qual a quantidade distribuída comparada com o número de pessoas acometidas de tais problemas?

Se formos considerar a iniciativa de maneira isolada, e dividir os casos estimados pela distribuição gratuita, casos excepcionais, vamos apontar uma queda num fator básico de inflação. Mas com qual peso essa distribuição de graça entra na média final dos preços dos medicamentos? Os 0,08 levantam descrédito. O papel e a tela do computador aceitam tudo. O bolso dos consumidores é outra questão. E tem mais uma coisa: não adianta nublar os números. A realidade termina sempre dissolvendo as nuvens da fantasia.

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