Sinal de alarme no convés da economia: consumo se retrai

Pedro do Coutto

Reportagens de Ronaldo Dercole e Bruno Rosa, no Globo, e de Mariana Barbosa, Folha de São Paulo, nas edições de terça-feira 27, focalizaram os níveis de vendas no Natal, no Rio e São Paulo, que, pela primeira vez em muitos anos, ficaram abaixo do esperado. Avançaram 5,5% em relação a dezembro de 2010, enquanto em dezembro do ano passado haviam crescido 13% na comparação com o volume de 2009. No Globo, bela foto de Eliária Andrade ilustra a matéria.

A meu ver, dois fatores são as causas principais: medo de perder o emprego em face da alta rotatividade do mercado de trabalho e juros elevadíssimos no financiamento pelos cartões de crédito.

O consumo brasileiro, o IPEA publicou há alguns meses, situa-se na escala de 1 trilhão e 400 bilhões de reais por ano, faixa que supera a própria massa salarial que oscila em torno de 1 trilhão. Muito bem. Há, portanto, um endividamento enorme, além da capacidade de pagamento nos prazos fixados para as vendas a prazo.

Não é só. O ponto mais importante está nas vendas por cartão. Atingem a esfera de 250 bilhões anualmente. Uma parte muito grande é refinanciada. Percebe-se nas filas dos supermercados o número elevado de pessoas, sobretudo de menor renda, efetuando compras eletrônicas. São pessoas que não têm salários compatíveis com o que adquirem.

Resultado: refinanciam. Aí então caem numa areia movediça. Pagam juros insuportáveis de 10, 11 e até 12%. Ao mês. No prazo de um anno, mergulham em dívidas que não podem resgatar. Saltam de um cartão para outro, que os bancos liberam à vontade, e cada vez se complicam mais. Juros de 10% ao mês? Impressionante. Como o Banco Central permite e se omite? Calculados os montantes, tais juros exorbitantes transformam-se em 160% ao ano. A inflação de doze meses fica em torno de 7 pontos.

Assim, as taxas são nada menos que vinte vezes o índice inflacionário. Pelo menos. Quem pode suportar um ciclo dessa ordem? O próprio sistema de refinanciamento é o caminho mais curto para a retração do próprio consumo, que os cartões se propõem a incentivar. Rumo para a inadimplência e para a insolvência.

A ganância é a inspiração de tal hipérbole, no fundo da questão. A ganância cuja existência o Prêmio Nobel Milton Friedman nega como fator inflacionário. Friedman, Escola de Chicago, à qual pertence ou pertenceu, Carlos Langoni, que presidiu o Banco Central no governo João Figueiredo.

Os sistemas industrial e comercial vão ter que rever suas estratégias de produção e venda. Porque não adianta nada produzir para estocar e com isso não obter o giro rápido do dinheiro indispensável ao mundo dos negócios.

Estes têm que aumentar efetivamente com base em dois índices: o crescimento demográfico (1,2% a/a) ao percentual de inflação, agora na escala de 7%, de acordo com o IBGE. Dessa forma, a comercialização teria que avançar 8,2% para empatar com a realidade nacional.

Mas se, como sustentou a Folha de São Paulo, as vendas de dezembro 2011 foram apenas 5,5 pontos maiores que movimento registrado em dezembro de 2010, na verdade o que aconteceu não foi somente a expectativa não ter sido alcançada. Houve, concretamente, uma retração.

O episódio serve de exemplo para o excesso de especulação financeira que vem ocorrendo e desestabilizando a sociedade. As condições de crédito são oferecidas à vontade. Uma ilusão, algo hipnótico como a publicidade. Para comprar. Mas a comercialização é um processo mais complexo: É também, receber o pagamento legítimo por elas. Quanto mais elevados os juros, mais absurdas e menos praticáveis se tornam as transações.

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