Só a intervenção federal resolve

Carlos Chagas

Desde a inauguração, com Juscelino Kubitschek, até o fim do ciclo militar, por constituir-se na sede do governo federal,  Brasília não elegia seus administradores. Dispunha de um prefeito,  nomeado pelo palácio do Planalto, depois chamado de governador, mas tendo seus atos subordinados ao Senado,  sem direito a Assembléia Legislativa. Nem mesmo de representação no Congresso a capital federal dispunha.

O tempo passou, veio a redemocratização. Criou-se a bancada de oito deputados e três senadores, depois a Câmara Distrital e,  finalmente,  a eleição direta de governador. A crescente  população local passou a dispor do  direito de escolher seus governantes. Foi quando começaram a formar-se as quadrilhas, integradas  tanto por empresários inescrupulosos quanto por desqualificados líderes saídos da sarjeta. Não que todos os representantes do eleitor brasiliense pertencessem a  essas duas categorias. Sempre teve  gente séria disputando  e até vencendo eleições, mas em número cada vez  menor.

Para encurtar a crônica do horror, chegamos aos tempos atuais, quando um senador eleito por Brasília foi cassado por corrupção e dois renunciaram para não perder o mandato, pelos mesmos motivos – coincidentemente um que havia sido governador e outro que seria depois.

Nem é preciso repetir o noticiário dos últimos  dias, revelando a existência de um novo mensalão, agora  conduzido pelo atual governador, com milhões distribuídos a deputados distritais,  secretários de estado e até membros do Judiciário, em quantidades tão grandes a ponto de alguns esconderem dinheiro na meia, como foi registrado.   A lama escorre pelas avenidas da capital federal, independentemente de partidos políticos, classe social ou poder econômico.

Todo esse preâmbulo se faz a propósito de uma dúvida que ressurge: Brasília deveria continuar a dispor de representação política, com governador eleito, deputados distritais, deputados federais e senadores? Ou melhor seria  retornar, por um certo prazo,  aos tempos em que os administradores eram nomeados e dispensados pelo presidente da República?

Não se chegará ao exagero de concordar com quantos paulistas e cariocas  sugerem cercar o Distrito Federal com arame farpado e gritar “Teje todo mundo preso”. Afinal, exceção das quadrilhas que nos dominam, a maioria dos cidadãos  que aqui trabalham é honesta.  Apenas, perderam o controle da cidade  para  velhacos e demagogos agora expostos em abomináveis  práticas.

Solução há, ainda que cirúrgica: a intervenção federal. A adoção pelo presidente da República, com a anuência do Congresso, da drástica fórmula de suspender todos os mandatos e impor uma administração de emergência por prazo razoável, a fim de drenar a sujeira acumulada ao longo dos últimos anos.

A natureza das coisas

As coisas são muito mais complicadas do que parecem, mas, felizmente, funcionam de acordo com a natureza. Coincidência ou não, depois da eclosão do   escândalo da Caixa de Pandora, multiplicou-se nas telinhas das principais redes de televisão a já imensa carga publicitária do governo do Distrito Federal. Não se passa um intervalo entre a programação sem que surjam imagens da construção de redes de esgoto, viadutos e asfaltamento de estradas. Sem falar de sorridentes  figurantes enaltecendo escolas, postos de saúde e tudo o mais, subliminarmente apresentados como realizações do “governo de Brasília”.

Há quem suponha ter essa blitz relação com as acusações referentes ao mensalinho agora  denunciado. Tanto faz,  porque  contra a natureza das coisas ninguém investe impunemente. Cada novo detalhe dessa novela de horror é mostrado no noticiário. Conclui-se estarem desperdiçando  dinheiro. Aliás, do contribuinte…

Melhor viajar

Já estava prevista há  meses a ida do presidente Lula a Portugal,  Ucrânia e Alemanha, de onde retorna neste fim de semana. Uma evidência a mais de que o homem tem mesmo sorte, porque permanecendo em Brasília não teria como deixar de referir-se, analisar e até agir diante do escândalo da Caixa de Pandora.  Estará dispondo do tempo necessário para  meditar e ouvir seus auxiliares a respeito do que  fazer, mas dando graças a Deus por haver  rejeitado  convite para despachar no palácio do Buriti durante as obras no palácio do Planalto. Melhor o desconforto do Centro Cultural do Banco do Brasil.

Piauí e Sergipe

Por razões tanto sentimentais quanto políticas, o governador Roberto Requião inicia pelo Piauí e, depois, Sergipe, a caravana para promover a candidatura própria junto às bases do PMDB. Faltam-lhe estruturas partidárias, compensadas pelo entusiasmo com que a seções estaduais  e  municipais do  partido recebem a proposta, para horror da direção nacional.  É cedo para previsões, mas como Requião sempre repete, “toda longa marcha começa com o primeiro passo”.

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