S meio por cento evitam o ridculo

Carlos Chagas

Indagado sobre as chances de aprovao do projeto que limita as passagens areas gratuitas para senadores, Pedro Simon respondeu com um percentual: meio por cento. Quis dizer que apenas ele votar a favor da concesso de no mximo um bilhete areo por ms para cada senador viajar a seu estado. E, mesmo assim, conforme a proposta, desde que cumprida integralmente a pauta de votaes daquele ms, com reunies que iriam de segunda-feira a domingo.

Desnecessrio se torna referir que o projeto de autoria do prprio Simon. Na Comisso de Constituio e Justia o texto foi alterado, mas ficar para o plenrio sua apreciao integral.

Por essas e outras o senador gacho sustenta que jamais se candidatar, pois nunca ser escolhido, para a presidncia da casa. Com graa, acrescenta que nem o voto de sua mulher receberia, caso ela fosse senadora. Mesmo assim, no recua de suas sugestes moralizadoras, lembrando estar o Senado caminhando a passos cleres para transformar-se na Casa do Ridculo.

Os senadores tero seus motivos para todas as semanas visitarem suas bases, ainda mais num ano eleitoral como este, quando sero renovados dois teros do Senado. O problema est no acmulo de benesses, vantagens e flexibilidades acumuladas ao longo de dcadas, em torno dos trabalhos parlamentares. Seria injusto colocar a totalidade da culpa na atual mesa diretora, comandada por Jos Sarney, mas fica evidente a necessidade de ampla reforma na sistemtica do Senado. E da Cmara, tambm. S o eleitor conseguir algum resultado, votando em candidatos capazes de defender teses como as de Pedro Simon, que por sinal tem mandato at 2014. Ao menos meio por cento est garantido.

Sirenes de angstia

Certas coisas, s no Brasil. Uma das iniciativas que o prefeito de Angra dos Reis adotar para evitar catstrofes como as ocorridas recentemente ser instalar sirenes pela cidade. Toda vez que elas soarem, a populao ficar sabendo da iminncia de tempestades, devendo preparar-se para o pior.

verdade que medida igual ajudou a salvar milhares de vidas, em Londres, durante a Segunda Guerra Mundial. Sempre que esquadrilhas de bombardeiros alemes cruzavam o Canal da Mancha, as sirenes tocavam na capital inglesa. A populao tinha tempo para refugiar-se em abrigos e nas estaes do metr, enquanto as bombas destruam suas casas, prtica que tambm valeu quando comearam a ser lanadas as V-1 e V-2. O problema que a Inglaterra estava em guerra.

Ser essa a soluo para o litoral do pas, assim como para o interior, quando as nuvens se adensarem e a chuva recomear? Ou seria melhor que todos os prefeitos, governadores, ministros e o presidente da Repblica tratassem de reformar leis e posturas proibindo o caos urbano e, ao mesmo tempo, dando incio a obras de saneamento, escoamento pluvial, dragagem de rios, conteno de encostas e outras daquelas que no do votos, no aparecem mas tornaram-se muito mais necessrias do que as sirenes? Porque alm de os cidados londrinos se esconderem nos abrigos, quando os bombardeios passavam todos dedicavam-se a produzir mais canhes, avies e tanques para derrotara os nazistas, como derrotaram…

Discusso de brincadeirinha

Por falar em indstria blica, seria bom o governo brasileiro parar com essa ridcula discusso a respeito da compra de 36 avies de caa no mercado internacional. Basta perceber que essa esquadrilha a ser adquirida representa menos da metade das aeronaves de combate que um simples porta-avies americano, russo, chins ou ingls leva em seu bojo para qualquer mar do planeta. Sendo que os Estados Unidos possuem mais de trinta porta-avies, sem falar nos milhares de caas estacionados em bases terrestres.

Houve tempo em que produzamos, seno avies de ltima gerao, ao menos outros de importncia real para nossas necessidades, alm de tanques, carros de combate, canhes e armas de menor porte. No apenas os cartis internacionais quebraram nossas estruturas. A desdia de governos neoliberais fez mais, abandonando, sufocando e condicionando a soberania nacional a interesses externos. A est o resultado: o pas assiste a inglria disputa de saber de quem importaremos mseros 36 caas…

Correntes, pianos e vultos

Nessas duas semanas que o presidente Lula e sua famlia passam de frias, fora de Braslia, registra-se o rumor de estar o palcio da Alvorada ocupado por singular equipe de seguranas, onde se incluiriam religiosos e msticos de variada procedncia. O grupo investigaria velhas histrias agora recrudescidas, de que alta madrugada ouvem-se correntes sendo arrastadas no teto, alm de o piano do primeiro andar tocar sozinho e vultos estranhos transitarem pelos sales de luxo.

Faz tempo que a residncia oficial dos presidentes da Repblica tida como mal-assombrada. Isso explicaria as poucas noites que Juscelino Kubitschek dormiu l, depois da inaugurao da nova capital, bem como o tresloucado gesto de Jnio Quadros de renunciar por ao de foras ocultas. Joo Goulart preferia ficar na Granja do Torto, mas de Castello Branco, fala-se que jamais deixava seus aposentos particulares enquanto o sol no nascia. Costa e Silva queria descer de pijama para ver quem estava na biblioteca, mas dona Yolanda no deixava. Garrastazu Mdici preocupava-se com o piano entoando a Marcha Fnebre e Ernesto Geisel, tonitruante, chegava a desafiar os fantasmas que nunca via. De Figueiredo em diante cessaram os boatos, mas Jos Sarney mandava benzer o Alvorada inteiro, todos os meses. Fernando Collor, por cautela, preferiu ficar na Casa da Dinda, Itamar amanhecia com o topete ainda mais arrepiado e Fernando Henrique tentou convencer a todos ser ele que assustava as almas penadas, dado o tamanho de seu ego.

Pois . Por via das dvidas, quando o presidente Lula chegar, vai querer saber do resultado da incurso de seus caa-fantasma, quando menos para preservar Dilma Rousseff de sustos desnecessrios…

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