Sob a ponte, os mendigos no so formas humanas, mais parecem sacos no cho

Resultado de imagem para dante milanoPaulo Peres
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Em seu lirismo sombrio, o poeta Dante Milano (1899-1991), nascido em Petrpolis (RJ), expe que A Ponte possui um cotidiano triste, embora potico na sua arquitetura.

A PONTE
Dante Milano

O desenho da ponte justo e firme, calmo e exato.
Nada poder perturbar as suas linhas definitivas.
A sua arquitetura equilibra-se no ar
Como um navio na gua, uma nuvem no espao.
Embaixo da ponte h ondas e sombras.
Os mendigos dormem enrodilhados nos cantos.
No tm forma humana. So sacos no cho.
Por momentos parece ouvir-se o choro de uma criana.
A gua embaixo suja,
O leo coagula, em ndoas luminosas, reflexos lacrimejantes.
Um vulto debruado sobre as guas
Contempla o mundo nufrago.
A tristeza cai da ponte
Como a poesia cai do cu.
O homem est embaixo aparando as migalhas do infinito.

A ponte sombria como as prises.
Os que andam sobre a ponte
Sentem os ps puxados para o abismo.
Ali tudo iminente e irreparvel,
Dali se v a ameaa que paira.
A ponte um navio ancorado.
Ali repousam os fatigados,
Ouvindo o som das guas, a queixa infindvel,
Infindvel, infindvel
Um apito d gritos
A princpio crescendo em uivos, depois mantendo bem alto o apelo desesperado.
Passam navios. Tiros. Troves.
Quando vir o fim do mundo ?
Por cima da ponte se cruzam
Reflexos de fogo, relmpagos sbitos, misteriosos sinais.
Que combinam entre si os astros, inimigos da Terra ?
Quando vir o fim dos homens ?
A ponte pensa

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