Sobre a ditadura dos partidos

Carlos Chagas

De repente, percebe-se a inexistência de democracia interna em todos os partidos. No PSDB, o líder Arnaldo Madeira queixa-se da ausência de debate entre a cúpula e as bases. A decisão sobre o lançamento da candidatura presidencial tucana virou ação entre amigos, onde os mesmos de sempre jantam, bebem vinho e impõem suas indecisões.

No PMDB, o senador Pedro Simon denuncia que o diretório nacional não se reúne  há anos, quanto mais a convenção ou,  mesmo,  congressos intermediários. O recente acordo de adesão do partido à candidatura Dilma Rousseff não foi discutido nem debatido pelas representações estaduais, sequer pelas bancadas na Câmara e no Senado. Caso Michel Temer venha a se tornar companheiro de chapa da candidata, terá sido por sua livre e espontânea escolha.

O DEM oscila entre as opiniões conflitantes  do atual presidente, Rodrigo Maia, e do antecessor,  Jorge Bornhausen. Um quer Aécio Neves, outro José Serra, mas os filiados, coitados, que se preparem para receber apenas ordem unida no rumo de um dos governadores.

Nem é bom falar dos pequenos partidos, simples feudos de dirigentes eventuais.

Vale, em especial,  não esquecer o PT, a reboque e desprezado pelo primeiro-companheiro, responsável pela imposição da candidatura Dilma Rousseff sem a menor consideração com a legenda. Sequer  os variados ministros que representam o PT no governo tiveram suas indicações inspiradas  no partido.  Não raro o presidente Ricardo Berzoini  é surpreendido por notícias de jornal, dando conta do que precisará fazer no dia seguinte.

Assiste-se à ditadura explícita dos caciques partidários, fechados em  clubinhos exclusivos,  destinados a repartir benesses de governo ou, do outro lado, à formulação de isoladas  estratégias para retomar o poder. Isso jamais foi democracia e  talvez explique porque as bases continuam sem voz nas decisões.  Detém os votos, é claro, mas limitadas a duas opções: votar “sim” ou  “sim, senhor”…

Quanto o Rio está atrasado

No Rio, não se trata apenas da guerra há muito deflagrada entre o crime organizado e a autoridade desgastada. Os episódios do último fim  de semana constituíram apenas a seqüência de um drama antigo.

Mas tem mais. Por coincidência enquanto polícia e bandidos trocavam tiros nas favelas da Zona Norte, entre mortes e depredações, este que vos escreve, de passagem pelo Rio, resolveu aproveitar a manhã do sábado para levar um neto brasiliense a pelo menos um museu de importância da antiga capital, o Museu da República. Lá poderiam ser lembrados episódios fundamentais de nossa história política.  Pois não é que o museu  estava fechado? Vejam bem,  num sábado, na Zona Sul, longe  da fuzilaria. A explicação foi de que, se abrisse, o museu só  abriria  à tarde, por falta de funcionários…

Já  imaginaram se o mesmo acontecesse no Louvre, em Paris, no Museu Britânico, em Londres, ou no Museu de História Natural, em Nova York? Falta muito para 2016, mas seria bom começar a extirpar esses absurdos, se é que o Comitê Olímpico Internacional não acabará revendo a decisão  sobre as Olimpíadas daquele ano.

Tapete vermelho em Cabrobó

A  mídia esmerou-se em divulgar a imagem de um longo  tapete  vermelho estendido num pedaço da caatinga, em Cabrobó. Tratava-se de oferecer ao presidente Lula e sua comitiva eleitoral o conforto de não precisarem pisar na poeira característica da região. Por certo não se tratou de iniciativa da presidência da República, mas do açodamento de algum prefeito caipira. Nem por isso eximem-se de culpa os visitantes e seus assessores. Deveria o presidente Lula ter abandonado o tapete, trocando-o pelo chão árido da terra onde nasceu. Ou a sua segurança, antes, haver escondido a passarela peluda.

Como o vermelho anda na moda, agora inspirando cartões e calções, seria bom tomar cuidado. A cor inspira sentimentos variados.

Um dia acaba pegando

Virou dogma o raciocínio de que, no presidente Lula, nada pega. Nenhum de seus erros é reconhecido pela população, tudo o que faz e fala constitui objeto de aplausos e reverências, mas, convenhamos, Sua Excelência anda exagerando.

Esta semana, ao tomar  posse,  o novo ministro-chefe da secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, foi chamado  pelo presidente  de “Salomão”.  O Lula também  referiu-se ao antecessor como “Gabeira” Unger , em vez de Mangabeira.  Da mesma forma, lembrou  o fato de que o ex-ministro estava em Chicago, tendo-se demitido do ministério  para não perder a titularidade de professor em Harvard.   Ora, Harvard fica em Boston, Massachussets.  A versão divulgada pelo palácio do Planalto, meses atrás, foi de que Mangabeira pedira para sair para não perder a aposentadoria na universidade onde leciona há anos, da  qual  estava licenciado.

Mangabeira esclareceu,  mais tarde, por educação, que em Harvard não existem aposentadorias, talvez daí a correção do presidente Lula  para “titularidade”, mas como negar a informação do ex-ministro de que deixou o  governo por falta de apoio  aos projetos por ele apresentados? Agora um detalhe final das trapalhadas  presidenciais:   Mangabeira se encontra no Brasil, há mais de um mês, tendo ingressado no PMDB e disposto a ficar aqui para   liderar campanha pelo lançamento de  candidatura própria à presidência da República, pelo partido. Será que o sistema de informações do Planalto não sabia, apesar dele ter concedido diversas entrevistas?  Ou terá sido precisamente    por isso que  não foi convidado para a posse do sucessor?

Um dia, essas coisas acabam pegando…

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