Sobre as resoluções de Ano Novo

Carlos Chagas

Aproxima-se o dia 31 e não haverá um brasileiro, sequer, imune a programar suas resoluções de ano novo. Claro que vão durar poucos dias, quem sabe horas, mas será sempre bom não perder a esperança. Mudar, tanto faz se para melhorar ou para deixar as coisas como estão. Parar de fumar, multidões já pararam, mas para os fumantes empedernidos, entre o último cigarro de 2011 e o primeiro de 2012 certamente decorrerão alguns minutos.

O tabaco mata? Mata. Cada fumante que arque com as consequências, mesmo existindo o reverso da medalha: o cigarro também tranqüiliza, estimula e fornece inspiração. Aliás, a propósito dessa magnífica e necessária campanha nacional e mundial contra o fumo, há que ponderar. Ainda neste Natal os jornais estão repletos de tenebrosas notícias sobre mortes em acidentes automobilísticos. É sinal de que o carro mata, e mais do que o cigarro.

Não seria o caso de as montadoras imprimirem de forma indelével nos parabrisas dos novos veículos imagens chocantes de desastres com a desfiguração de famílias inteiras, mais o alerta de que “carro mata”? Ou não fazem isso com os maços de cigarro que compramos no bar da esquina, inutilmente repudiando essas fotografias de horror? Vamos adiante.

Da mesma forma,  beber e comer menos é outra resolução. Mas como adotá-la se a Humanidade inteira celebra as festas de réveillon com champagne, uísque, cachaça e uma infinidade de bebidas? Vale o mesmo para o almoço do primeiro dia de janeiro, pleno de pratos pesados, ou seja, ficará para o final do novo ano a parcimônia com comida e bebida.

Fazer exercícios? Dá gosto ver centenas de milhares de pessoas, todas as manhãs e, em especial, sábados e domingos, andando, correndo, pulando, entregando-se à ginástica, à musculação, às esteiras e a essa infinidade de aparelhos de levantamento de peso que só de olhar despertam cansaço.

Tudo tem sua hora. Os exercícios fazem bem aos jovens, mas está para ser provado que os velhos melhorarão de saúde depois de uma corrida de alguns quilômetros ou em seguida a cinqüenta flexões. Da taquicardia a males piores, a distância fica mais curta. Outra disposição para o tempo novo que se aproxima refere-se a como tratar os filhos, os netos, os subordinados e até os chefes. Àqueles, com muito mais carinho, consideração e respeito. A esses, com menos subserviência e sabujismo. Só que prevalecerá, como sempre, a natureza das coisas. Afinal, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Continuaremos explodindo ao primeiro sinal de desídia, incapacidade e má-vontade dos que devemos orientar e de cujo desempenho dependem a nossa tranquilidade e o nosso sucesso, ao tempo em que permaneceremos acatando determinações e projetos por nós considerados imbecis, mas que vêm de cima, daqueles de quem dependemos para receber salário e sobreviver.

Mais uma resolução: aprimorar o espírito, aumentar a cultura, frequentar cursos de aprimoramento profissional, aprender outras línguas, acompanhar o vertiginoso desenvolvimento da comunicação eletrônica. E jogar no lixo leituras supérfluas, dedicando-nos aos clássicos e à moderna literatura.

Começando pelo fim: diante de tanta chatice e mistificação que vem do passado, bem como do mercantilismo das atuais editoras, não há acordo possível. Melhor reler livros que nos marcaram e impressionaram ao longo das décadas do que, com o devido respeito, acompanharmos as evoluções de coelhos em torno da mesma cenoura.

Enveredar na conquista de outros idiomas pode ser um risco e um desperdício, pois décadas atrás o mundo começou a trocar o francês e o inglês pelo russo, depois dedicou-se ao japonês, mas agora queima as pestanas em torno do mandarim. No final do ano poderá estar voltando ao alemão.

Quanto a dominar o universo dos e-mails, dos iPads, dos iPhones, dos tablets, dos twitters, dos webs e de tanta parafernália, o perigo é de nos surpreendermos por logo estar tudo ultrapassado e substituído por enigmas muito superiores. De tanto mexer com essas maquininhas diabólicas e seus desempenhos, esquecemos de pensar sobre as maiores realidades do ser humano, isto é, de onde viemos e para onde vamos, porque a resposta não chegará pela Internet.

Há um propósito que ambicionamos faz tempo, impedido de realizar-se pela própria essência: em vez de continuarmos criticando, ridicularizando e desprezando os partidos políticos, por que não ingressarmos naquele de nossa melhor preferência, contribuindo para o seu aprimoramento? Só assim melhorariam o Estado e o governo, bem como a vida da população.

O diabo é saber quanto tempo vai demorar para que, ao invés de transformá-los, sejamos transformados pela tentação de faturar mais algum, de conseguir nomeações para amigos e parentes ou contratos para a realização de obras invisíveis e serviços inviáveis. Além de dificuldade suplementar: são todos iguais não apenas no açodamento com que se lançam às benesses do poder. Seus programas também não diferem.

Em suma, mil outras resoluções existiriam, mas melhor nos conformarmos com a preparação daquelas efetivas, fundamentais, de que trataremos em dezembro de 2012…

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