Sobre uso de jatinhos, Paulo Bernardo esqueceu de ler o Código de Conduta Ética do governador Cabral e o próprio Código do governo federal.

Carlos Newton

Em nota oficial, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, admite ter utilizado aeronaves de “várias empresas” no ano passado, mas não se lembra os “prefixos e tipos, ou proprietários, dos aviões”. Caramba! Que falta de memória para um homem ainda no gozo de plena saúde física e mental. Deveria se cuidar melhor.

Com toda certeza, o ministro ainda não leu o Código de Conduta Ética do governador aliado Sergio Cabral, aquele que até recentemente não sabia o que era certo ou errado para um homem público fazer. Também não leu o Código de Conduta da Alta Administração Federal, que determina: “Nenhuma autoridade pode receber transporte […] ou qualquer outro favor de fonte privada”. É até compreensível. Com tanto problema de memória, de que adiantaria ficar lendo esse tipo de Códigos.

Tudo isso porque, segundo reportagem da revista “Época”, Bernardo teria usado um turbo-hélice de uma empreiteira, a Sanches Tripoloni, que recebe dinheiro do governo federal e tem obras no Paraná. O ministro, conforme a revista, se recusou durante 40 dias a responder sobre se usou ou não o avião da empreiteira.

Como se sabe, a Sanches Tripoloni realiza várias obras públicas no Paraná e em Mato Grosso, com recursos federais. Em julho, a Folha de S. Paulo já havia revelado que a consultora Teresinha Nerone, amiga íntima do casal ministerial Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann, trabalhou para convencer o Ministério dos Transportes a reajustar os valores de uma obra tocada pela Sanches Tripoloni, a construção do anel viário de Maringá, no Paraná, vejam só que coincidência.

A empresa de Teresinha Nerone é contratada desde 2008 pela Prefeitura de Maringá para “assessoramento na montagem e acompanhamento de processos para a captação de recursos”, e a obra é investigada pelo TCU (Tribunal de Contas da União), que aponta sobrepreço de R$ 10,5 milhões nos pagamentos do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

Teresinha tem uma antiga e estreita relação com o casal de ministros. Em outubro de 2009, postou em sua página no microblog Twitter que estava “na praia, tomando vinho” com o casal Gleisi e Paulo Bernardo. Questionado sobre a amiga por um jornalista, Bernardo respondeu: “Isso não é da sua conta”.

Os ministros Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann negaram, por meio de suas assessorias, terem tratado com a amiga consultora sobre a liberação de recursos para a obra do anel viário de Maringá. Ambos reconheceram a amizade com Teresinha, mas negaram saber que ela faça lobby em Brasília.

Sobre o financiamento do BID, Bernardo disse que também não conversou com ela e que a operação foi legal. “A tramitação pelo [Ministério do] Planejamento passou normalmente pela área técnica, que analisa projetos de empréstimos internacionais. Isso é praxe.”

Há dois meses, a revelação dessas relações delicadas com a lobista, envolvendo obra superfaturada, deixou o casal de ministros nas mãos do ainda diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, que estava “de férias” do cargo e havia afirmado que “cumpria ordens do Planejamento”, chefiado por Bernardo no governo Lula, e que Gleisi era quem acompanhava as obras no Paraná.

Depois que Pagot deu depoimentos na Câmara e no Senado, negando receber ordens do então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo ficou mais tranquilo e até deu entrevista elogiando a apuração das irregularidades no Ministério dos Transportes.

“As pessoas estão vendo que a presidenta está tomando providências para que as coisas funcionem direito”, disse o ministro, acrescentando: “A partir do momento em que houve denúncias, é obrigação do governo apurar, ver o que está acontecendo”, acrescentou, lembrando que o Tribunal de Contas da União tem apontado seguidamente, problemas, e o governo “tem que se virar” para resolver. “É assim que vai continuar sendo feito”, afirmou.

Mas ressalvou que, em sua opinião, é “quase impossível” não haver irregularidades. “O Dnit tem orçamento [anual] que deve ficar este ano na faixa de R$ 13 bilhões. Supor que não haverá nenhum problema é [supor] uma coisa quase impossível. Sempre tem problema”, admitiu.

Agora, com essa novidade do uso do avião, Paulo Bernardo volta a estar na berlinda, e o PSDB anuncia que irá propor a convocação do ministro para que explique no Senado seu envolvimento com a empreiteira Sanches Tripoloni.

Em nota distribuída ontem, Bernardo acusou a “Época” de fazer uma série de denúncias contra ele e, por causa disso, não teria respondido aos insistentes questionamentos dos repórteres da revista.  

Nesta nota, Bernardo disse que a utilização das aeronaves privadas se deu durante a campanha eleitoral, “nos fins de semana, feriados e férias”, e que o serviço foi pago. Na época, ele era ministro do Planejamento do governo Lula. Sobre o uso dos jatinhos no período de campanha, ele assim se justificou: “Em 2010, quando era ministro do Planejamento, participei, nos fins de semana, feriados e férias, da campanha eleitoral do meu Estado, Paraná. Para isso, utilizávamos aviões fretados pela campanha, o que incluiu aeronaves de várias empresas, que receberam pagamento pelo serviço. Não tenho, porém, condições de lembrar e especificar prefixos e tipos, ou proprietários, dos aviões nas quais voei no período”. E mais não disse, a não ser culpar a imprensa, dizendo que a “Época” infringiu o Códuto de Conduta das Organizações Globo.

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