Sobriedade e decência dos políticos e juízes da Suécia é de humilhar o Brasil

 . | Albari Rosa/Gazeta do Povo

Claudia Wallin mostra o avesso da política brasileira

Carlos Newton

Vivemos na política brasileira uma Era das Trevas. Passamos 21 anos mergulhados numa ditadura militar, reconquistamos a democracia plena e o resultado de tudo isso é lamentável e tenebroso. A comparação dos gastos públicos entre Brasil e Suécia, por exemplo, chega a ser revoltante e até insuportável. É difícil imaginar como chegamos a esse estágio de desmoralização dos três Poderes da República, cuja voracidade pela “privatização” das verbas públicas parece insaciável.

Agora mesmo, a Câmara tenta estender aos parentes dos ex-deputados o generoso plano de saúde que contempla os 513 parlamentares em exercício, incluindo cônjuges, pais, filhos e outros dependentes. Como justificar um absurdo de tal monta?

Além de ganhar um salário de R$ 33.763, os deputados já recebem uma série de benefícios: 1) verba de gabinete de R$ 92.053 mensais para pagamento de até 25 assessores; 2) ajuda de custo mensal entre R$ 30.789 mensais (para deputados do Distrito Federal) a R$ 45.613 (para os de Roraima), e líderes e vice-líderes de bancadas têm adicional de R$ 1, 4 mil. 3) auxílio-moradia de R$ R$ 4.253 mensais; 4 ) ajuda de custo de R$ 33.763 no início e no final da legislatura (ou seja, dois salários extras a cada quatro anos); 5) jornais e revistas, material gráfico, computadores, franquia livre de telefone, franquia livre de correios e reembolso de despesas médicas, entre outro benefícios.

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DEMOCRACIA SUECA É UM EXEMPLO A SER SEGUIDO PELO BRASIL

Vejam agora como a democracia funciona na Suécia, no relato  da jornalista brasileira Claudia Wallin, que mora em Estocolmo há 13 anos e lançou livro “Um país sem excelências e mordomias”, sobre parlamentares que moram em apartamentos minúsculos, que lavam a roupa em lavanderias comunitárias, e juízes sem qualquer mordomia. Em uma de suas vindas ao Brasil, no ano passado, a escritora esteve em Curitiba e deu entrevista a Rogerio Waldrigues Galindo, do jornal Gazeta do Povo.

Como tem sido a receptividade da classe política a essa divulgação da ausência de mordomias dos políticos suecos?
Da classe política em si eu não tenho tido nenhum retorno, a não ser do Eduardo Jorge (PV) na época da campanha presidencial. Ele gravou um programa lendo o livro. O que acho impressionante é o retorno dos leitores. Recebo centenas de mensagens de vários lugares do Brasil, de cidades muito pequenas, o que eu acho muito interessante. Semana passada recebi um e-mail de uma pessoa que mora na fronteira com o Uruguai dizendo que os moradores vão fazer uma vaquinha para colocar o livro em todas as escolas da cidade.

O fato de o livro estar indo para a quarta edição reforça que existe uma curiosidade de se conhecer um sistema diferente, uma indignação com o sistema brasileiro?
O que eu acho importante é que isso não é um livro pra dizer “olha como os suecos são maravilhosos e o brasileiro é ruim”. É exatamente o contrário. O que eu quero mostrar é que sou uma observadora de uma sociedade possível. É possível você ter uma democracia forte, transparente e justa, que não dá regalias a políticos e nem a juízes e onde a corrupção é um fenômeno relativamente raro. Isso não é uma coisa que se constrói da noite para o dia. É um processo de evolução. Quem costuma dizer que o Brasil não tem jeito esquece que os países também se transformam. A Inglaterra era uma nação de piratas, como a Holanda. Se você olha para trás na história, os suecos eram vikings, trombadinhas da época, promoviam arrastões em terras alheias. Ou seja, é um processo de evolução. Eles [os suecos] não são melhores do que ninguém. O ser humano é o mesmo. O sistema é transformado pelas reformas que ocorrem no país. São as instituições que se aperfeiçoam. A reforma política, a reforma educacional, a reforma do Judiciário, a reforma administrativa. Esse conjunto de aperfeiçoamentos foi o que eles fizeram ao longo dos anos. Também foram ajudados por uma forte moral luterana – aqui nós podemos dizer que temos a moral católica – e pelo fato de a igualdade ser um valor profundo das sociedades escandinavas. Não é uma utopia. É uma sociedade real.

No Brasil não existe essa tradição igualitária. Como lidar com isso?
O valor da igualdade na Suécia é muito antigo e muito próprio dos povos escandinavos. Aqui o que temos não é só uma falta de igualitarismo, é um anacronismo. A Suécia pode ser um exemplo extremo dessa falta de mordomias, privilégios e corrupção, mas você vê agora na Inglaterra o primeiro-ministro David Cameron sendo fotografado na classe econômica do avião. Pode ser até certo grau uma medida populista. Mas são gestos que carregam um simbolismo muito grande. Eles estão percebendo que essa maneira de ser, de que os políticos se tornaram uma espécie de nova nobreza, não cabe. No Brasil, o primeiro passo é a conscientização. Na minha geração era normal você ver todos os políticos com carro oficial e a mulher do deputado fazendo compras. Mas isso não é normal. Trata-se de dinheiro público.

Aqui muitas vezes um político, quando é cobrado por gastos, reclama que o valor é pequeno, uma ninharia. Mas você relata o caso de uma deputada sueca execrada por pagar táxi com verba pública.
Toda vez que um político ousa pegar um táxi várias vezes usando dinheiro público ele é execrado; vira manchete de jornal. E todas as vezes que um jornal denuncia uma coisa dessas, eles usam o mesmo texto: “Usou o dinheiro do contribuinte para fazer isso ou aquilo, apesar de morar perto duma estação de trem”. Existe uma noção de que políticos e juízes vivem como vive qualquer cidadão. Então por que ele vai ter um carro oficial? Por que ele tem de ter um apartamento de duzentos metros quadrados? Por que ele vai ter pensão vitalícia? Isso é um absurdo. Você cumpre dois mandatos e recebe dinheiro para o resto da vida. Na Suécia, quando o político sai do parlamento ele recebe uma ajuda de transição. Ou seja, enquanto ele tenta conseguir outro emprego ele recebe uma fração do que ele recebia no parlamento. Mas isso por um período determinado, um ano no máximo.

Outra dificuldade de aplicar o modelo sueco no Brasil poderia ser o fato de sermos menos ricos. Como resolver isso? Não há como transpor mecanicamente uma cultura para outro país. Mas são ideias e inspirações que você pode ter. Medidas como a de corte de privilégios e a grande transparência podem ser adotadas. A Suécia já foi um país corrupto. Num trecho do livro comento que antes os cargos nos tribunais e no setor público eram literalmente vendidos e comprados. As universidades de Direito eram descritas em textos acadêmicos como verdadeiros lamaçais. Agora, transparência na gestão pública foram eles que conceberam. E não é somente pelo dinheiro. Claro, se você quer chegar naquele ideal, o ideal de uma sociedade com oportunidade para todos, em que todo cidadão tem direito de usufruir de serviços básicos de qualidade, já é um caminho mais longo. Sabemos que existe uma resistência extraordinária no Brasil.

Um modelo como o sueco precisa de mais carga tributária, o que não costuma ser muito popular por aqui.
Eles têm uma carga tributária maior, mas não é tão diferente. Já foi bem maior. Hoje a carga tributária na Suécia é mais ou menos 45% do PIB. Aqui são 36%. O grande problema do Brasil é a sonegação. Se você tem grande resistência das pessoas em pagar impostos no Brasil, você não vê o retorno dos impostos que você paga. Geralmente o trabalhador, porque as empresas não pagam. Fala-se muito em corrupção, mas a sonegação é um problema bem maior no Brasil do que a corrupção. As sociedades desenvolvidas passaram por um processo de evolução. O primeiro passo é a maior consciência e maior participação do cidadão. Nada vai mudar enquanto as pessoas não se importarem com política, porque o caminho da mudança é a política.

21 thoughts on “Sobriedade e decência dos políticos e juízes da Suécia é de humilhar o Brasil

  1. Excelente matéria ! Boa matéria. Faço votos que em vida, eu ainda possa ver esse caminho aplicado ao Brasil.

    Curiosidade: esotéricos afirmam que, na Pedra da Gávea, há inscrições vikings. Então, que o Rio seja a primeira capital a dar esse bom exemplo e já em 2016.

    Boa semana CN e demais, nota 10 !

    • Caro Antonio, com 14 anos, (ESTOU COM 87 ANOS) visitei com colegas da escola ETN MARACANÃ, TENDO COMO GUIA O PROF. DE GEOGRAFIA HEITOR, AQUELA ÉPOCA, ERA TRILHA NA MATA.
      a PEDRA DA GÁVEA É UMA CABEÇA EGIPCIA, COM HIROGRIFOS EM SUA FACE, E NÃO TINHA ACESSO EM SEU OLHO ESQUERDO. É UMA PROVA DE LIGAÇÃO DO ANTIGO EGITO, BEM COMO A IBIS LEVANTANDO VOO, TALHADA NO PÃO DE AÇÚCAR.
      BONS TEMPOS, EM QUE A ESCOLA ENSINAVA, OS PROFESSORES ERAM RESPEITADOS E PESSOAL DE APOIO, E APRENDIA-SE A AMAR O BRASIL, COM HASTEAMENTO DA BANDEIRA ESTRELADA SOB O HINO NACIONAL, E A MORAL E DIGNIDADE DOS 3 PODERES DE GOVERNO, ERA ALTA, HOJE VEMOS O “BAGAÇO A QUE CHEGAMOS”, QUE DEUS NOS AJUDE A SALVAR O BRASIL, MERGULHADO NESSE OCEANO DE LAMA, PELA HIPOCRISIA E FALTA DE CARÁTER DOS POLÍTICOS. SUÉCIA, PAIS, QUE NÃO TEM AS RIQUEZAS MATERIAIS QUE TEMOS, MAS TEM CIDADÃOS RESPEITADOS EM SUA CIDADANIA.

  2. Este é a preconizada ” PRECONIZADA” democracia, a ditadura é boa, NÃO, mas a democracia no Brasil é abusiva, onde milhões de brasileiro pagam suas despesas com os parcos salários que recebem, não tem nenhuma benesse como compra de livros, verba extra, mordomias, é de repensar a democracia no Brasil, além dos vultosos salários dos três poderes, ainda há a CORRUPÇÃO desenfreada, é um absurdo, caso não haja uma reforma política séria, o Brasil continuará com esta tamanha DESIGUALDADE SOCIAL.

  3. 1) Apliquemos então a Moral Luterana em terras brasileiras.

    2) Martinho Lutero pode e deve ser estudado, vivenciado como um pensador/filósofo/pedagogo.

    3) Recomendo a Pedagogia Waldorf, aplicada na Alemanha e em muitos países. Em Portugal há similar… “Escola da Ponte” …

    • Infelizmente, caro Antonio, até a correta “moral luterana” conseguiu ser descaracterizada aqui no Brasil, basta ver o escândalo que são as novas igrejas evengélicas (não falo, evidentemente, das autênticas) que se transformaram em máquinas para arrancar dinheiro do povo iludido…

    • Caro Antonio, a 2 mil anos, veio ao Planeta, nosso GOVERNADOR, O CRISTO, que entre nós chamou-se JESUS, nos deu um CÓDIGO MORAL/SOCIAL, seu EVANGELHO, sintetizados no AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO,para nós, a LUZ DIVINA , o que FIZEMOS, O ASSASSINAMOS, e continuamos a Matá-lo até hoje, com o nosso “DESAMOR” explorando o semelhante!
      Estudemos o EVANGELHO EM ESPÍRITO E VERDADE, e o EXEMPLIFICAR, para sair das trevas em que estamos mergulhados, pela deturpação das seitas religiosas, do EVANGELHO DE JESUS.
      OLHEMOS PARA A HUMANIDADE, DA QUAL, SOMOS UMA CÉLULA, O QUE VEMOS, ELA SE MATANDO.
      Que JESUS, com a sua caridade, nos ajude a caminhar para a LUZ.

  4. …já sugerimos repovoar o País, mas nossos indígenas aculturados não cairiam mais no conto do vigário; então vamos repovoar nossa classe política, começando por 2016 – vereadores e prefeitos, ficando os demais na mira para 2018…tenho dito!

  5. Pois é……É o Toffoli ainda “NOVO NA IDADE”, continua servindo ao país “COM HONRA E GLORIA, SE ESPELHANDO NO SIGNIFICADO DE NOSSA BANDEIRA VERDE E AMARELA”…….E tem inocente que acreditou…..kkkkkkkkk
    INOCEEEENTEEE, TADINHO…….

  6. Caro Newton,assino teu artigo,vivemos uma era das trevas, a corrupção é a “ordem do dia”, o CIDADÃO ELEITOR, VOTA COM CONSCIÊNCIA E DIGNIDADE, NÃO REELEGENDO, a cada dia, mais escândalo de roubo. Presidentes do Congresso, com mais de 10 processos, e o STF, sentado em cima, em CONIVÊNCIA com o ROUBO, Toffoli, não nos deixa mentir, ao soltar, estuprando a LEI, seu amigo do PT, ladrão dos funcionários públicos, Paulo Bernardo, e a grande Midia caladinha.
    Que os juízes, lembre-se, que tem uma JUSTIÇA IMPARCIAL, A DIVINA, que prestaremos contas de nossas OBRAS, além túmulo.
    DEUS, NOS AJUDE A SANEAR O BRASIL, ILUMINANDO E PROTEGENDO SERGIO MORO, EM SUA LUTA DE MORALIZAR NOSSO BRASIL, E QUE SEU EXEMPLO E DE SUAS EQUIPES MPF E PF, SIRVAM DE MODELO PARA A JUSTICA SER JUSTICA

  7. Curto e grosso!
    Na Suécia e em outros lugares do mundo, tal como aqui, os políticos, juízes e outros servidores públicos saem do povo.
    Assim, é preciso entender, e aceitar, de uma vez por todas, que é preciso o povo melhorar, se não no todo, pelo menos em uma maioria, mas que seja atuante e que assuma o papel de protagonismo.
    Quem espera que isto ocorra de cima para baixo que compre uma cadeira, preferencialmente estofada e com encosto. Vai ter de esperar um milagre.
    Enquanto tivermos um sistema político como o nosso, os bons serão eliminados e os ruins, imensa maioria, manterá o poder nas mãos.
    Se trouxermos suecos, suíços, japoneses ou dinamarqueses, o que acontecerá? Não serão eleitos, serão corrompidos, mortos ou não conseguirão trabalhar.
    Os políticos na Suécia são assim por questões de cultura, educação, formação e índole do povo.
    Chegar lá é um longo e tortuoso caminho.
    Com o “jeitinho brasileiro” nascem e se perpetuam os “jeitosos”, não os sérios e competentes.
    É preciso mudar o povo ou o caráter dele!
    Só assim pararemos de falar e escrever para as paredes!

  8. Sugestao: Para politicos e servidores públicos em prisão domiciliar usar coleira eletrônica para os demais tornozeleira, assim ficaria fácil a identificação deles nos lugares públicos.

  9. Isso para falar apenas da Câmara Federal. O legislativo no Brasil hoje é composto por 81 senadores, 513 deputados federais, 1.035 deputados estaduais e 57.377 vereadores. No Senado e em todas as Assembleias e Câmaras a situação é a mesma, quando não é pior.

    Aí eu pergunto: há alguma esperança que esse quadro se reverta se quem teria legislar contra isso são os próprios beneficiários? Há necessidade de tanta gente no Legislativo?

    Alguém tem alguma sugestão para acabar com as “ilhas de fantasia” desses 59.006 “legisladores” e suas respectivas famílias, e transformá-los nos cidadãos “normais” que deveriam ser?

    • Prezado Froes
      É bom ler mais um comentário do amigo.
      Soluções existem. O problema é defini-las, aprová-las e aplicá-las.
      mas, apenas para começar, aqui vão três:
      – reforma política/partidária de fora para dentro. Afinal, é para a sociedade que tudo existe;
      – redução no número de todos os legisladores, além de exigir qualificação dos mesmos. Exemplos: senado – 1 senador por estado. deputados federais e estaduais eleitos de forma distrital e com “recall”;
      – propaganda eleitoral com recursos e fiscalização pública, definida e realizada sob a coordenação do ente eleitoral.
      Muitas outras existem, mas apenas para começar menciono as relacionada.
      Abraço e muita saúde.
      Fallavena

      • Sim Fallavena, mas quem irá aprovar ou não esses projetos senão o Legislativo? Você acha que há alguma chance?

        Obrigado pelo carinho. O prazer é meu em trocar algumas palavras com você.

  10. Claudia Wallin mostra o avesso da politica brasileira: Quanto tempo o Brasil haverá de existir para que o sonho de Claudia Wallin se materialize? Os Suecos já existiam na “Idade do Bronze”. Foram guerreiros que conquistaram parte de seu território. Guerrearam até com a Russia tomando-lhe parte do território. Tempos depois retomado pelo Principe de Moscou Ivan o Terrivel. Firmou-se como país em 1530. Seu território, salvo erro ou engano tem o tamanho do Paraná. O Brasil tem oito milhões de quilômetros quadrados. Sua população diferentemente dos suecos e formada de um caldeamento de raças dificil de mensurar. Temos 389 anos de formação histótica e 127 anos de história. A Proclamação da República foi o “MARCO ZERO do Brasil brasileiro. Quando deixamos de ser súditos e escravos para sermos cidadãos com direitos e deveres”.No rigor da história, 7 de Setembro de 1822 é apenas uma data simbólica. Sonhar não é proibido.

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