Socorrida pelo FMI, UE e Banco Central Europeu, a Grécia continua numa crise sem fim

Folha de S.Paulo - Charge - 3/11/2011Ednei Freitas   /   Charge do Jean (Arquivo Google)

A crise econômica da Grécia começou a partir do final do ano de 2009 e início de 2010, quando várias agências de classificação de risco de crise detectaram problemas no país sobre o crescimento do déficit público – o que significa que a Grécia aumentava suas dívidas e diminuía sua arrecadação – e alertaram sobre o não pagamento de sua dívida externa. O risco de uma moratória (o não pagamento da dívida) poderia afetar toda a União Europeia.

Com isso, a partir do ano de 2010, o governo grego anunciou a execução de um plano de austeridade, que consiste em tomar medidas para controle de gastos públicos e aumento da arrecadação. Isso implica na redução de benefícios (como a aposentadoria), de salários, no aumento de impostos e em demissões em massa em órgãos públicos. Diante disso, a população grega entrou em choque.

APOIO FINANCEIRO – Assim, em abril de 2010 o governo da Grécia solicitou um empréstimo de 45 bilhões de euros para a União Europeia. No mês seguinte, o FMI (Fundo Monetário Internacional), a União Europeia e o BCE (Banco Central Europeu) anunciaram um empréstimo de 110 bilhões de euros, dividido em várias parcelas que seriam depositadas à medida que a Grécia cumprisse as exigências impostas por esses órgãos, como a implantação de novas medidas de austeridade.

Essas medidas, então, revoltaram a população grega, que foi às ruas em protesto contra a redução de salários, aumento de impostos, inflação e planos de privatizações. Muitas das manifestações acabaram em conflito com a polícia e geraram algumas mortes, o que ampliou a repercussão internacional sobre a crise.

MAIS EMPRÉSTIMOS –  Como a Grécia prosseguiu com a política exigida pelo trio FMI, União Europeia e BCE, foi concedido um novo empréstimo (109 bilhões de euros), sob a exigência de novos planos de austeridade e redução do déficit. Com isso, o primeiro-ministro Georges Papandreou decidiu levar essa decisão para um referendo popular que, entretanto, não foi realizado em razão das pressões externas, o que culminou em sua renúncia no dia 09 de novembro de 2011. Em fevereiro de 2012, o empréstimo foi finalmente executado, agora no valor de 130 bilhões de euros.

A DÍVIDA CRESCE – O aumento do déficit público, entretanto, continuou ocorrendo. A Grécia chegou a anunciar, em abril de 2012, o perdão de cerca de 106 bilhões de reais em dívidas do setor privado, enquanto via seu déficit ainda muito alto e sua dívida total crescer graças aos empréstimos adquiridos.

Em junho de 2012, Antonis Samaras foi eleito como o novo primeiro ministro, em uma eleição marcada pelo enfraquecimento dos partidos populares e o fortalecimento de setores da extrema esquerda e de partidos da extrema direita, como o partido neonazista Chryssi Avgui (Aurora Dourada, em grego).

E NADA MUDOU – A crise da Grécia segue ainda em um cenário obscuro, sem a previsão de uma completa recuperação econômica, com recuperação do poder de consumo da população.

Diante dessa realidade, duas questões são bastante levantadas pelos analistas: a primeira é a de que a crise grega é fruto de questões históricas de erros econômicos (como a adoção do euro sem um prévio estudo) e de que a crise não é propriamente grega, mas do capitalismo como um todo.

O Brasil não é a Grécia, mas uma dívida pública continua aumentando descontroladamente.

4 thoughts on “Socorrida pelo FMI, UE e Banco Central Europeu, a Grécia continua numa crise sem fim

  1. Coitada da Grécia, por lá a miséria está agregada com a desgraça. Se não bastasse, ainda aparece Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, para arruinar o panorama!

  2. A auditoria da dívida pública, que é solicitada por economistas independentes e o governo brasileiro não a autoriza nem a procede é para identificar o esquema de geração de dívida sem contrapartida.

    Por exemplo, só deveria ser paga aquela dívida que preenche o requisito da definição de dívida. O que é uma dívida? Se eu disser para você: ‘Me paga os 100 reais que você me deve’. Você vai falar: “Que dia você me entregou esses 100 reais?’

    Só existe dívida se há uma entrega. Aconteceu isso lá na Grécia. Mecanismos financeiros, coisas que não tinham nada a ver com dívida, tudo foi empurrado para as estatísticas da dívida. Tudo quanto é derivativo, tudo quanto é garantia do Estado, os tais CDS [Credit Default Swap – espécie de seguro contra calotes], essa parafernália toda desse mundo capitalista ‘financeirizado’. Tudo isso, de uma hora para outra, pode virar dívida pública.

    O que é a auditoria? É desmascarar o esquema. É mostrar o que realmente é dívida e o que é essa farra do mercado financeiro, utilizando um instrumento de endividamento público para desviar recursos e submeter o País ao poder financeiro, impedindo o desenvolvimento socioeconômico equilibrado.

    Junto com esses bancos estão as grandes corporações e esses todos não têm escrúpulos. Nós temos que dar um basta nessa situação. E esse basta virá da cidadania. Esse basta não virá da classe politica porque eles são financiados por esses setores. Da elite, muito menos porque eles estão usufruindo desse mecanismo. A solução só virá a partir de uma consciência generalizada da sociedade, da maioria. É a maioria, os 99%, que está pagando essa conta.

    O Armínio Fraga [ex-presidente do Banco Central] disse isso em depoimento na CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Dívida, em 2009, quando perguntado sobre a influência das decisões do Banco Central na vida do povo. Ele respondeu: “Olha, o Brasil foi desenhado para isso”.

  3. Há uma semelhança muito grande entre a Grécia e a nossa vizinha e parceira no Mercosul, um país que não consegue viver se não for em crise. E dando seguidos calotes, escapou do nono por mérito do seu ministro da Economia e pela misericórdia dos seus maiores credores, mas nenhum país vive de empréstimos e misericórdias. Não podemos correr este tipo de risco, gastar muitíssimo mais do que produzimos.

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