Somente a próxima geração verá o Rio Doce reviver

O Rio Doce, antes e depois da lama poluidora

Roberto Nascimento

Um desastre ambiental anunciado destruiu o Rio Doce nos 853 quilômetros entre o município do Rio Doce em Minas Gerais até o município de Linhares no Espírito Santo. O rompimento da barragem de rejeitos de Fundão e Santarém, um desastre anunciado que poderia ser evitado causou efeitos irreversíveis no ecossistema de toda extensão do Rio Doce. Não tem preço que possa ser mensurado quanto aos prejuízos ao meio ambiente totalmente devastado. As margens do rio, o leito e as águas foram tomados pela lama, subproduto da mineração, além da falta de oxigênio, metais pesados compõe o cenário de devastação.

Governador Valadares se encontra em estado de calamidade, o fornecimento de água foi interrompido. Cada família recebe 20 litros de água por dia, a higiene pessoal de cada cidadão mineiro ficou em segundo plano. Sem a água para as necessidades vitais, os animais tendem a desaparecer e o homem pode ter que migrar para outras cidades fora do circuito das águas doces. Os peixes morreram todos, pela falta de oxigênio. A pesca era um nicho de sobrevivência, que foi interrompido indelevelmente.

A morte do Rio Doce, o espetáculo de lama que soterrou casas e tudo que encontrou pelo caminho no primeiro município afetado pelo descaso da mineradora Samarco/Vale e se prolonga até o oceano é uma catástrofe de proporções inimagináveis. Além dos municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, o oceano também terá seu desastre associado à tragédia. A decantação da lama no fundo do oceano, similar a uma massa de cimento se diluindo, causará impacto na fauna marinha, as algas morrerão pela falta da fotossíntese e os plânctons, alimentos dos peixes, inexistirão em meio a lama, provocando a mortandade. A areia das praias no entorno de Linhares tomarão a cor da lama por um longo período. Por todos os ângulos que se analise a gigantesca tragédia, que poderia ser evitada, os efeitos são devastadores sob todos os aspectos humanos, econômicos e ambientais.

SEM PLANO B

Não havia um plano de contingência, um plano B, para mitigar os estragos do rompimento da barragem da morte, técnicos da mineradora e os fiscais e prefeitos dos municípios atingidos nada fizeram em matéria de previsibilidade para evitar o pior. E, ainda mais, nenhuma medida destinada a impedir que a lama avançasse, como diques provisórios, em algum ponto dos 853 km do Rio Doce. Todos ficaram inertes à espera da correnteza de lama em direção ao oceano. Simplesmente lamentável a inércia do poder público e da iniciativa privada, essa instituição tão louvada por gregos e troianos. Somente um objetivo, os lucros acima de tudo. Todos são culpados, não há inocentes nessa incrível tragédia ambiental.

Somente a próxima geração poderá voltar a ver o verde florescer junto às margens e as águas do Rio Doce no esplendor da vida (oxigênio e peixes) compondo o quadro da natureza que o homem destruiu. Entretanto, há um novo perigo que ronda as cidades atingidas pela lama da Samarco/Vale, me refiro a mais duas barragens de Mariana, que estão com trincas prestes a cederem com o peso da lama acondicionada. O reforço nestas duas barragens levarão três meses para estarem prontas, até lá teremos que contar com a sorte, que não foi nossa amiga no rompimento do dique atual. Será que ficaremos inertes, à espera de um novo desastre? A quem culpar se houver nova catástrofe? Será que simplesmente multar a mineradora é suficiente para minorar os danos? Quem será responsabilizado pela morte contabilizada até agora de 12 moradores de Mariana. Perguntas sem respostas dos responsáveis pela mineradora até agora. Quem sabe mais tarde, não é mesmo?

14 thoughts on “Somente a próxima geração verá o Rio Doce reviver

  1. “A morte do Rio Doce, o espetáculo de lama que soterrou casas e tudo que encontrou pelo caminho no primeiro município afetado pelo descaso da mineradora Samarco/Vale…”, faltou dizer:
    …E da falta de fiscalização, responsabilidade do poder público…

    • Eu já comentei a este respeito aqui. A culpa toda da mineradora? Mas quem fiscalizava? A empresa não pagava pelos danos ao meio ambiente já? Então cadê os fiscais pra vigiar? É fácil num país em que o povo no geral odeia o mérito e por ventura a iniciativa privada jogar-se a culpa toda pra cima da empresa. A culpa é do governo que permitiu que a empresa funcionasse sem segurança. Foi assim também com a boate kiss. Falta de fiscalização. A palavra é fiscalização, pois imposto não é problema. As empresas já pagam caro. Por isso é inviável empreender no Brasil. Ora, a empresa paga pro governo vigiar, aí acontece uma desgraça e a culpa é da empresa? Um absurdo. País de terceiro mundo mesmo, pessoas de terceiro mundo, governos de terceiro mundo.

      • Sr. Francisco Menezes

        A responsabilidade objetiva é da mineradora VALE/SAMARCO. A acessória será discutida nos Tribunais.

        O risco do negócio lucrativo e poluidor é em primeiro lugar da Mineradora. Inclusive é obrigação dos controladores manter um setor de profissionais do Meio Ambiente ( técnicos e Engenheiros Ambientais), além, da obrigatoriedade definida pelo Ministério do Trabalho de uma equipe de Segurança do Trabalho (SESMT).

        O Ministério Público, que está investigando a tragédia pode pedir o relatório dos profissionais citados e verificar se as providências foram tomadas para impedir o rompimento do dique de lama. Não se pode em hipótese nenhuma isentar de culpa a SAMARCO/VALE e transferi-la para a fiscalização do IBAMA e da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Minas Gerais. Talvez no caso em tela possa ter havido culpa concorrente. O omissão de fazer e de fiscalizar.

  2. E o Rio Tietê?
    E o Rio Pinheiro?
    E os milhares de outros rios?

    A fiscalização do Estado Falido, quando existe, só atinge os pequenos. Os grandes ou são os amigos do rei ou são beneficiados por essa falência…

    Vejam este artigo do geólogo Pedro Jacobi:

    “Depois de apenas seis meses no cargo o advogado Celso Garcia não aguentou a pressão e pediu demissão da Direção-Geral do Departamento Nacional de Produção Mineral, DNPM, alegando problemas de saúde. Celso, um advogado encarregado do maior órgão da Mineração do Brasil, provavelmente viu que existem muitos outros lugares para amarrar o seu cavalinho do que um órgão de extrema importância, mas que encontra-se sucateado, sem verbas e sem pessoal.
    O DNPM, um conhecido cabide de emprego, controlado por um partido político, está entregue as baratas. O órgão não passa de uma sombra do que já foi no passado. Ele precisa de reformas e orçamento e já não apresenta perspectivas futuras aos seus funcionários. É mais uma forte evidência do descaso deste governo com a mineração brasileira.

    A falta de pessoal e de verbas levou o órgão a negligenciar o seu trabalho. Quando o assunto é supervisão de barragens, por exemplo, que é uma entre muitas outras atribuições do DNPM, existem somente quatro profissionais para fiscalizar as 735 barragens de Minas Gerais… Este número diz tudo e podemos inferir que as barragens da Samarco não estavam entre as prioridades do DNPM.
    Será que estavam?”

    • Sr. Vieira, bem citado o Rio Tietê e Pinheiros, dois dos maiores rios de São Paulo atolados em esgoto á céu aberto.
      Promessa de 30 anos, sempre em propagandas politicas em tempos de eleição, o Mestre da Mentira Mentirosa dizia que ia despoluir o Rio Tie^te e transformá-lo em um Parque de Diversões para o paulistano, de navegável a pesca essa era uma das promessas do faisão de pena de ouro.
      Passados 30 anos e lá está ele, mortinho da silva, sem um barquinho com pessoas para passear , peixes então nem pensar,. só aqueles peixes que não posso citar aqui.,
      A propo´sito Sr., Vieira e para não me esquecer. Onde foram parar os bilhões de dólares para a despoluição?
      Onde foram parar os bilhões de dólares de Bancos Japonses (empréstimos)., para a despoluição do rio/;?????
      Será que os bilhões foram parar naqueles lugares conhecidos da Quadrilha do Efeagacê.????

  3. Do texto extraímos o seguinte trecho : ” … A quem culpar se houver nova catástrofe ? ” Todos sabem quem serão e quem são os responsáveis pela atual catástrofe. Eles estão flanando pelo society, escondidos, dando declarações evasivas cuja tradução é : azar de quem morreu ; vamos indenizar as famílias ( como se uma vida tivesse peço ) e outras bobagens. A grande imprensa, se cala na cobrança dos culpados – leia-se Terroristas . A GRANDE IMPRENSA, rastejante como sempre, prefere divulgar o drama de Paris cuja Polícia vasculha casa por casa a procura dos terroristas, estes sim, escondidos. Quem viver verá. A próxima geração provavelmente verá o Rio Doce porque o atual …

  4. “JUSTIÇA SEM DESEMPREGO”
    “Uma passeata no centro de Mariana em favor da permanência da mineradora Samarco na cidade reuniu cerca de 200 pessoas na manhã deste sábado (21), de acordo com a prefeitura. Organizado pela Associação Comercial de Mariana e por representantes da OAB, o ato pediu que seja mantida a estimativa de arrecadação de impostos da mineração em 2016 para que a cidade não pare.
    De acordo com o prefeito Duarte Júnior, 80% da arrecadação do município vem da Samarco. Só com a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), a cidade tem média de arrecadação mensal de R$ 4 milhões.
    Já com o Imposto sobre Serviços (ISS), R$ 1,53 milhão deixa de ser arrecadado mensalmente com a paralisação da mineradora. O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é pago dois anos após a atividade incidente, então, Mariana terá esta renda média mensal de R$ 9 milhões até 2017. Para janeiro de 2016, a previsão é que a arrecadação já caía em 30%, segundo Duarte Júnior.
    Apesar do apoio à permanência da mineradora por motivos econômicos, o prefeito disse no dia 11 de novembro que o prejuízo com o rompimento das barragens é de R$ 100 milhões. Segundo Júnior, ele se refere a perdas de infraestrutura, como dano ambiental, pontes levadas e escolas que foram destruídas. Esse número foi de um levantamento preliminar feito pela Secretaria de Obras da cidade. ”
    Fonte: G1

    Os milhões arrecadados pelas prefeituras e os milhares de empregos gerados nunca são mencionados pelas ONGs e grupos que querem nos manter no atraso e conservar a nossa riqueza sob a terra!

  5. Em homenagem aos artistas desta burrice histórica mudemos o nome do rio para eternizar seus autores: Rio Samarco Amargo.
    Autor e obra.

    Com esta mudança de nome, quando o rio retornar à sua vida natural e normal, a Samarco/Vale/Billiton vai poder até incluí-lo em suas futuras propagandas sobre os resultados da excelência dos serviços privados, em busca do lucro desmedido.

    Soube de fonte segura, que esta propaganda já está com data de lançamento marcada: 2115.

    A confirmar, contudo…

    • Francisco Vieira: Seu comentário foi pertinente, pela evidência lógica da importância do trabalho social das empresas, principalmente da Mineração, que transforma a matéria prima (ferro) em metal. Entretanto, poderiam gastar um pouco mais para preservar o meio ambiente das cidades. O Rio Doce está morto literalmente, indelevelmente e os prejuízos e danos as pessoas, a fauna, a flora são incalculáveis, uma tragédia evitável. Agora todos pagarão: as pessoas ficarão desempregadas, a empresa terá que pagar multas milionárias, a falta de água para beber e tomar banho está sendo um suplício. E olhe que não é só em Mariana, em Colatina, a população capixaba está revoltada. Paulo Hartung, o governador do Espírito Santo demonstra a tristeza no olhar.

      Segunda-feira, a lama imunda chegará a foz do Rio Doce em Linhares, no Espírito Santo. O homem destrói o seu próprio meio de sobrevivência, isso é uma loucura. Será que a lição do desastre trará consigo medidas para evitar novas tragédias como essa?

  6. ” Somente os profetas enxergam o óbvio ” ( Nelson Rodrigues ).
    “Começou com um texto assinado pela jornalista Mariana Filgueiras no jornal O Globo deste fim de semana. Ao recuperar obras literárias e musicais que já haviam abordado a paisagem e as águas do agora destruído Rio Doce, a reportagem evocava, entre outras canções, versos e trechos de prosa, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Lira Itabirana, que logo, fotografado diretamente da edição do jornal, tornou-se viral devido ao caráter “profético” de suas palavras:

    I

    O Rio? É doce.
    A Vale? Amarga.
    Ai, antes fosse
    Mais leve a carga.

    II

    Entre estatais
    E multinacionais,
    Quantos ais!

    III

    A dívida interna.
    A dívida externa
    A dívida eterna.

    IV

    Quantas toneladas exportamos
    De ferro?
    Quantas lágrimas disfarçamos
    Sem berro?

    Publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano, o poema não chegou a ganhar versão subsequente em livro — o que levou alguns portadores de antologias de poemas do autor a, em um primeiro momento, duvidar da autenticidade da citação, mas os versos são mesmo de Drummond.

    • -E quanto bilhões de reais (nós, o governo), arrecadamos?
      -Quantos empregos (nós, as mineradoras) geramos?
      -E quantas moradias (nós, os empregados) construímos com o dinheiro dos salários? E quantas geladeiras, feiras e fogões compramos com o dinheiro originários desse tipo de atividade?
      -Se o dinheiro na mineração não chegou a ser aplicado no município arrecadador da CFEM, se não transformou ele em um apêndice do Canadá ou Austrália, países de subsolo tão rico como o do Brasil, ou se o povo não viu a cor do dinheiro, é porque ele foi roubado pelos governantes!
      -Mas que el foi pago, foi pago!
      Se exportamos ferro, e não aço, é porque somos governados por ladrões, e não por culpa das empresas:

      “CHINA IMPORTA FERRO E EXPORTA AÇO
      Apesar da desaceleração da economia, a China continua a importar enormes quantidades de minério de ferro. Em setembro as importações foram 16,2% maiores que agosto, atingindo 86,1 milhões de toneladas. É o maior volume mensal importado em dois anos.

      O que está acontecendo é que os chineses estão tendo uma superprodução de aço, cujo excedente está sendo direcionado para o mercado externo. Em decorrência deste excesso a China bate recorde de exportação de aço em setembro, que atingiu 11,25 milhões de toneladas.

      Enquanto todos esperavam ver uma queda da importação chinesa de minério de ferro, os chineses, aproveitando os baixos preços e as facilidades oferecidas pelas mineradoras, pisaram no acelerador e aumentaram as importações. E, para complementar, eles exportaram o aço excedente, de volta para o mercado internacional em uma jogada inteligente: importam minério a US$50/t e exportam aço com valor agregado.
      Exportar minério bruto moído sem nada acrescentar é dilapidar suas reservas e condenar o Brasil a ser um espectador privilegiado da lavra predatória de um dos nossos mais preciosos bens: os jazimentos de Carajás. Em poucas décadas o minério de ferro de alta qualidade de Carajás será história.
      O que irá ficar para a população da região ou do país? (fonte:geologo.com.br-13.20.2015)

      -Não esperemos que o Obama ou os chineses defendam os interesses das pessoas cujos interesses deveriam ser defendidos pelo Congresso Nacional da República Federativa do Brasil e pelo capataz, colocado pelos países ricos, assentado no Palácio do Planalto.
      Não espere ajuda nem mesmo dos extraterrestres.
      Cada povo que defenda os seus próprios interesses!

      Abraços.

      Abraços.

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