Somos todos mouros

Sebastião Nery

Chegamos ao trem, em Madri, em 70, eu e minha mulher, a caminho de Marrocos, por Gibraltar, perguntei ao encarregado do carro qual a nossa cabine. Ele nos levou muito solícito. Lá estavam sentados dois marroquinos. Cada cabine, de primeira ou de segunda classe, era sempre para seis pessoas sentadas. O espanhol fechou a cara, rosnou algumas palavras incompreensíveis, arrastou-nos e nos levou a outra cabine:

– Fiquem aqui.

– Mas nossos números são da cabine de lá.

– Vão viajar com mouros? São imundos e mal educados. Raça inferior. Vão roubar vocês. Árabe aqui na Espanha não é gente.

De nada adiantaram nossa reação e nossos argumentos. O espanhol era um racista tarado. A viagem toda fiquei espreitando o seu comportamento. Empilhou os árabes em outras cabines, defendendo a santa pureza de seu vagão ariano. De repente, ouço uma briga no corredor do trem. São soldados agredindo violentamente alguns árabes.

***
ESPANHA

Chamo um dos fardados, de divisas no braço, e lhe pergunto o que há:

– Não é nada não. São esses mouros.

– Mas, o que é que eles estão fazendo?

– Não têm que vir para a terra da gente. Uns imundos.

Passada a confusão, puxo conversa com ele:

– Que patente é esta sua? É do exército espanhol?

– Não. Sou da Legião Estrangeira. Vou para a África. Vamos brigar lá.

– Contra quem?

– Na Legião a gente só sabe contra quem vai brigar na véspera. Quem sabe o inimigo são os homens e os governos que nos pagam.

– E quem são esses homens e esses governos?

– Não sei e não quero saber. Quem quer saber muito as coisas não entra para a Legião Estrangeira.

E saiu mascando o seu chiclete. Sórdido como todos os mercenários.

***
INGLATERRA

Quase quarenta anos depois, em 2008, a “Folha” contou que “a mestranda de Física pela USP, Patrícia Camargo Magalhães, 23 anos, que tinha reservas em hotel em Lisboa, dinheiro e cartões de credito, passou três dias detida no aeroporto de Madri, onde fazia uma conexão, confinada em uma sala blindada de 9 m², com mais 30 brasileiros, e foi deportada, de volta ao Brasil, por autoridades espanholas, quando iria apresentar um trabalho em um congresso em Lisboa. Em 2007, pelo menos 3 mil brasileiros tiveram recusado seu ingresso no país (uma média diária de 8,2)”. De Londres, Rafael Cariello, da “Folha”, contou coisa pior:

“Os brasileiros representam a maior fatia de pessoas, entre todas as nacionalidades, que têm a entrada negada no Reino Unido (Inglaterra) e são mandadas de volta ao país de origem. Os números mostram que, em 2005 e 2006, o total de brasileiros, cuja entrada foi negada no país, representou mais que o dobro da segunda nacionalidade (Nigéria), com maior numero de `denegações’ (vetos). Em 2005, 5.195 brasileiros tiveram a entrada recusada na Inglaterra e foram enviados de volta, contra 2.135 nigerianos, em segundo lugar. No ano seguinte, foram 4.985 negativas a brasileiros. Paquistaneses, 2.035 casos. Nigerianos, com 1.960, vêm em seguida”.

***
A “BASURA”

Nenhuma novidade. O guarda do trem, o jovem capitão da Legião Estrangeira, o governo espanhol e o inglês continuavam pensando exatamente a mesma coisa: só entrava lá quem fosse fazer os serviços “baixos”, a “basura” (lixo), que espanhóis, ingleses, europeus se negam a fazer.

É só uma questão de cor e classe social. Quase todos os brasileiros que eles imaginam que querem ficar lá são brancos, classe média, têm algum nível e vão disputar empregos que eles podem querer e ter. Por isso são mais vetados do que os negros nigerianos, os marrons paquistaneses, que, como outros africanos e asiáticos, se submetem a qualquer serviço.

Essa violência, que até o sempre obsequioso Itamaraty considera “inaceitável”, é uma bofetada. Durante séculos, sobretudo depois das duas guerras mundiais, o Brasil foi o “berço esplêndido” que acolheu milhões de portugueses, espanhóis, ingleses, italianos, judeus, europeus de todo tipo, que não tinham o que comer e onde trabalhar. Hoje, para eles somos mouros.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *