Sucessos da herança desdenhada

Percival Puggina

Mas não é que o brasileiro, embaixador Roberto Azevêdo (foto) , foi eleito para dirigir a Organização Mundial do Comércio (OMC)? Que tal? É nós na fita, como se poderia dizer, apropriando o título do espetáculo encenado por Marcius Melhem e Leandro Assun. Como foi acontecer uma coisa dessas?

Pois é. Um pouco mais do mesmo. Os outros plantam, o PT atrapalha quanto pode e, depois, colhe. Durante anos ouvi os petistas dizerem que abertura ao comércio internacional era coisa maldita, neoliberal, invencionice da nefasta globalização. A bem da verdade, essa ideia, de um viés nacionalista equivocado, que transformou o Brasil numa das economias mais fechadas do mundo, era anterior ao PT. Mas ganhou militância com o petismo.

Nas últimas décadas do século passado, o Brasil convivia com inúmeras maldições, entre elas estas três: atraso tecnológico, precaríssimo acesso a muitos bens de consumo e preços escorchantes por mercadorias do Primeiro Mundo. Ah, o Primeiro Mundo! O Primeiro Mundo promovia integrações e mercados comuns. Fazia tudo errado … e ia muito bem. Bem demais, aliás, a ponto de esquecer a primeiríssima das lições, aquela que todas as donas de casa sabem: quem gasta mais do ganha se endivida e, um dia, a conta chega. Mas essa é outra história.

Nós, brasileiros, nos habituamos a ouvir discursos em defesa dos protecionismos a setores tecnologicamente atrasados, avessos à abertura a importações, contra privatizações, contra o pagamento da dívida externa – chave mestra para todas as dificuldades do país. Moratória já! Ianques go home! Abaixo o receituário do FMI! O Brasil, não precisaria tanto para se tornar carta fora do baralho nas relações internacionais.

DEUS BRASILEIRO

Deus talvez não seja brasileiro. Se for, não é lá muito bairrista. Mas, felizmente, nos propiciou reação a essa didática do atraso. E o Brasil, aos poucos, foi rompendo com aquele nacionalismo fajuto, irresponsável e caloteiro. À medida que isso acontecia, revertia-se o quadro e o país granjeava credibilidade e respeito no mercado internacional. Desde o final do século 20, tornamo-nos um país que paga contas, cumpre contratos e se integra comercialmente. Sob vaias, é verdade. Quanto mais o Brasil dava certo nas relações externas, mais essa política econômica era combatida, escarrada e pisoteada. A metralhadora giratória do PT e seus consectários tinha nela seu alvo preferido.

Loucura ideológica não rasga dinheiro. Quando o PT chegou ao poder, sem pedir desculpas a ninguém pelas bobagens que antes defendia e pelos impropérios que proferia, tratou de preservar o que estava dando certo. Descobriu, por exemplo, que o agronegócio paga as contas da balança comercial. Mas era tudo herança antes desdenhada. Por mais que o petismo delirante pretenda atribuir esses êxitos às suas próprias investidas em novos mercados africanos, o certo é que estes representam apenas 4% dos negócios do Brasil e não têm como passar disso em médio prazo. São economias muito pequenas.

Portanto, a eleição de um diplomata brasileiro para presidir a OMC é expressão de um sucesso que avançou à conta dos empreendedores brasileiros e de políticas às quais o PT se opunha com humores e furores vulcânicos.

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8 thoughts on “Sucessos da herança desdenhada

  1. SOU SIM, DE UM ESTADO QUE FAZ PARTE DE UMA REGIÃO ATRASADA.
    Na história do mundo somos simples coadjuvantes
    Um professor fez esta pergunta em algumas comunidades do Orkut:
    “QUAL O MAIOR ACONTECIMENTO HISTÓRICO DA BAHIA?”
    E os membros de uma destas comunidades responderam com estes comentários:
    Nascimento de Castro Alves, a bravura de Maria Quitéria
    Nascimento de Caetano, Bethânia, Gil, Wally Salomão, Caymi
    Outro diz: “A Bahia é um celeiro de acontecimentos políticos, históricos, culturais que repercutiram no cenário nacional”.
    Vendo estas respostas dá-se para perceber o ufanismo exacerbado e bobo deste pessoal.
    Lembrei-me de uma revista americana que nos anos 90 escreveu que o brasileiro se contentava com muito pouco e cita que nós tínhamos como ídolo um lutador de nome Todo Duro.

    Daí eu pergunto: O que tem de histórico o nascimento de Caetano, Bethânia, Gil e Wally Salomão?

  2. Se fizerem este mesmo tipo de pergunta ao norte americano, provavelmente ele dirá que foi A declaração da independência dos EUA, a chegada do homem à lua, a elaboração e assinatura da Constituição americana e muitos responderiam que foi o plano New Deal criado pelo presidente ROOSEVELT para salvar a economia americana e até do mundo. São fatos que mudaram para melhor os rumos do EUA e do seu próprio povo.
    Será que o americano vai dizer que o maior acontecimento histórico do seu país foi o nascimento da Madonna, do Brad Pitt, da Britney Spears e do cantor de rap Eminem? Duvido! Eles vão saber identificar uma pessoa ou um acontecimento no seu país que realmente contribuiu para a grandeza e o crescimento do mesmo.
    Se perguntarem ao francês qual o maior acontecimento histórico de seu país provavelmente eles dirão que foi a Revolução Francesa, a queda da Bastilha, a entrada triunfal de Charles de Gaulle em Paris após a expulsão dos alemães…
    Será que o francês vai dizer que o maior acontecimento histórico do seu país foi o nascimento da Brigitte Bardot e do Alain Delon? Duvido! Eles vão saber identificar uma pessoa ou um acontecimento no seu país que realmente contribuiu para a grandeza e o crescimento do mesmo.
    Muitos ingleses dirão que o maior acontecimento histórico de seu país foi o nascimento de Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês, tido como o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo. Até os dias de hoje suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo, e são encenadas mais do que qualquer outro dramaturgo. Muitos de seus textos e temas, especialmente os do teatro, permaneceram vivos até aos nossos dias, sendo revisitados com freqüência pelo teatro, televisão, cinema e literatura. Os ingleses citarão também outros vultos da sua história como Elizabete I ou da Rainha Vitória que nos seus governos transformaram seu país numa potencia. Podem até citar os Beatles, mas os Beatles estão inseridos na história da musica popular mundial, é um patrimônio do mundo, exerceu um poder enorme no pensamento e nos costumes dos jovens de todo o mundo.
    Quanto à influência exercida a nível mundial por Caetano e Gil é ZERO, ou melhor, NENHUMA.

  3. Estes nossos “gênios” tupiniquins são cantados em prosa e verso pela imprensa e pelos proletários um pouco mais letrados e remunerados do Brasil.
    Este pessoal faz parte de uma elite burguesa que joga conforme a maré. Leiam “A máfia do Dendê” na revista Caros Amigos. E todos eles idolatravam e temiam ACM.
    Dizem que o baiano não nasce, estreia. Ora bolas, o povo baiano é um dos mais analfabetos do Brasil. 15% da população da Bahia é de analfabetos e que é a 8ª pior colocação do Brasil, segundo dados de 2006.

    A Bahia cantada em prosa e verso é a Bahia que segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), se a região metropolitana de Salvador fosse um país, teria a segunda pior distribuição de renda do planeta, atrás somente do país africano Namíbia, pelo índice de Gini, que mede essa desigualdade.
    E ficam estes “historiadores” à base de muita emoção endeusando estas personalidades como verdadeiros heróis da pátria Bahia.
    Alguns destes intelectualóides citados como históricos ou influentes nunca fizeram nada de prático nem para o estado da Bahia e nem para seu povo. Só sabem compor e cantar músicas bem chatinhas e que dizem serem letras de protesto e com conteúdo social; gritar em cima de trios elétricos e às vezes patrocinados pelo dinheiro público. Ver a revista Carta Capital e ler o que Lobão falou da Lei Rouanet.
    Prezado, você que cunhou esta frase “A Bahia é um celeiro de acontecimentos políticos, históricos, culturais que repercutiram no cenário nacional”, escreva também aqui na Net que de prático estes acontecimentos não valeram muita coisa a nível nacional (salvo a Independência da Bahia).
    Nossos fatos históricos são insignificantes se comparar com a história do mundo e a nossa cultura não rompe fronteiras e não exerce influencia na cultura de países desenvolvidos etc.

  4. Assim como a Bahia o Brasil é um país de pessoas pouco esclarecidas na hora de votar por não sermos um povo politizado (vejam o nível dos nossos políticos…), na hora de ouvir música, na hora de assistir TV…

    A bem da verdade a Bahia tem pessoas admiráveis, sobre algumas eu já li um pouco a respeito.
    Independente se é influente ou não no cenário baiano ou nacional cito aqui algumas que admiro muito e outras não tanto.

    As que admiro: Castro Alves (tenho uma revista antigona sobre sua história), Maria Quitéria,
    Irmã Dulce, Joana Angélica, Ruy Barbosa, Waldir Pires, Raul Seixas, Cosme de
    Farias…

    Estas também: Jornalista João Carlos Teixeira Gomes chefe de redação do Jornal da Bahia,
    Baiaco, Anísio Teixeira, Milton Santos, Dorival Caymmi, Mestre Bimba, Teixeira
    de Freitas, Otávio Mangabeira…

    E estas não tanto: João Ubaldo Ribeiro, Glauber Rocha, Dias Gomes, Gregório Mattos, Jorge
    Amado, Elsimar Coutinho…

    Devo lembrar que se me perguntassem qual seria o maior acontecimento histórico da Bahia eu diria que foi a nossa independência (Independência da Bahia) que se deu no dia 2 de julho de 1823…

  5. Ferreira Gullar (Folha SP)

    Ditadura da maioria

    O populismo petista demonstra inconformismo com normas que o impedem de fazer o que queira

    Não faz muito tempo, ouvi um deputado afirmar que o que define um governo democrático é a eleição. Se foi eleito, é democrático.

    Todos sabemos que não é bem assim, pois, conforme a força que tenha sobre as instituições, pode um governo impor sua vontade e anular o direito dos adversários. A eleição é, sem dúvida, uma condição necessária para que se constitua um governo democrático, mas não é suficiente.

    Se abordo esta questão aqui é porque vejo naquela simplificação uma ameaça à democracia, fenômeno crescente em vários países da América Latina e até mesmo no Brasil. Na verdade, essa é uma das manifestações antidemocráticas do neopopulismo, hoje hegemônico em alguns países latino-americanos.

    Já defini esse novo populismo como o caminho que tomou certa esquerda radical, ao constatar a inviabilidade de seus propósitos ditos revolucionários. Não se trata mais de opor a classe operária à burguesia, mas de opor os pobres aos ricos.

    O populismo age correta e legitimamente quando busca melhorar as condições de vida dos setores mais carentes da sociedade, o que lhe permite conquistar uma ampla base eleitoral. Mas se torna uma ameaça à democracia quando usa esse poder político para calar a voz dos opositores e, desse modo, eternizar-se no poder.

    Exemplo disso foi o governo de Hugo Chávez na Venezuela. O domínio dos diferentes poderes do Estado permitiu ao chavismo manter-se no governo mesmo após a morte de seu líder, violando abertamente todas as normas constitucionais. Essa tese de que basta ter sido eleito para ser um governo democrático é conveniente ao populismo porque, contando com o apoio da maioria da população, usa-o como um aval para fazer o que quiser.

    Está implícita nessa atitude uma espécie de sofisma, segundo o qual, se o povo é dono do poder, quem contraria sua vontade é que atenta contra a democracia. E quem sabe o que o povo quer é o caudilho.

    Sucede que o governante eleito, como todos os demais cidadãos, está sujeito às leis, que estabelecem limites à ação de qualquer um, inclusive dos governantes. Não por acaso, todos eles, ao tomarem posse depois de eleitos, juram obedecer e seguir as normas constitucionais.

    No Brasil agora mesmo, o populismo petista demonstra inconformismo com essas normas que o impedem de fazer o que queira. A condenação dos corruptos do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal levou-os a tentar desqualificar aquela corte de Justiça, acusando-a de ter realizado um julgamento político e não jurídico.

    Como tais alegações não têm fundamento nem dificilmente mudariam a decisão tomada, resolveram alterar a Constituição para de algum modo anular a autonomia do STF.

    Por iniciativa de um deputado petista, foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara uma emenda constitucional que resultaria em submeter decisões do Supremo Tribunal à aprovação do Congresso, numa flagrante violação da autonomia dos poderes da República, base do regime democrático.

    Essa iniciativa provocou revolta nos mais diversos setores da opinião pública e até mesmo a Presidência da República, por meio do vice-presidente Michel Temer, procurou desautorizá-la. Não obstante, os presidentes da Câmara e do Senado manifestaram seu descontentamento a supostas intervenções do STF nas decisões do Congresso.

    Com o mesmo propósito, tenta-se excluir do Ministério Público a atribuição de investigar e processar os responsáveis por crimes na área pública.

    É que o populismo não tolera nada que lhe imponha limites e o critique. Por isso mesmo, um de seus inimigos naturais é a imprensa livre, de que a opinião divergente dispõe para se fazer ouvir.

    Na Argentina, o populismo de Cristina Kirchner estatizou a única empresa que fornece papel aos jornais do país, o que significa uma ameaça a todo e qualquer jornal que se atreva a criticar-lhe as decisões além do que ela permita.

    Quando consuma seus objetivos, o populismo estabelece o que ficou conhecido como a ditadura da maioria. Denominação, aliás, pouco apropriada, já que, nestes casos, o poder é, de fato, exercido por um líder carismático, a quem a maioria do povo segue cegamente.

  6. Henrique Meirelles (Foha SP , hoje)

    Nova ordem econômica

    A eleição do embaixador Roberto Azevêdo para o posto de diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) reflete o peso cada vez maior dos países emergentes na economia mundial.

    Este não é um conceito subjetivo ou político, mas meramente o resultado da medida da produção de riqueza das diversas economias emergentes em comparação com a dos países ricos.

    A ascensão do Deng Xiaoping ao poder na China após a morte de Mao e a inflexão rigorosa da economia chinesa em direção à economia de mercado provocaram uma mudança histórica nas relações de poder econômico mundial.

    A China era, ao redor do século 15, a maior potência

    econômica da Terra. Isolada do Ocidente, desinteressada do comércio internacional, mas ainda assim a maior potência econômica.

    No momento em que a China voltou a ocupar o papel de potência econômica, desta vez globalizada e integrada aos mercados internacionais, ela abriu caminho para uma mudança fundamental na estrutura de poder econômico da qual o Brasil não apenas faz parte, mas tem papel relevante como uma das maiores economias emergentes.

    Isso tem consequências práticas como, por exemplo, a discussão sobre a redistribuição de cotas do Fundo Monetário Internacional e agora a eleição do brasileiro pra dirigir a OMC, sintomaticamente os dois principais órgãos multilaterais da economia global. A eleição na Organização Mundial do Comércio revelou uma transformação notável da nova estrutura de poder: o alinhamento da Europa e dos EUA com a candidatura do México não foi suficiente diante do apoio da maior parte dos outros paí-

    ses a Azevêdo.

    Sua vitória reflete ainda a crescente capacidade profissional e técnica dos brasileiros.

    Não foi sempre assim. Alguns anos atrás, organizações internacionais determinavam em estatuto que o diretor da sua operação no Brasil deveria vir do país-sede. Mas isso mudou dramaticamente.

    O Brasil hoje tem profissionais em organizações públicas e privadas no mundo todo. Encontro sempre brasileiros nos Estados Unidos, na Europa, na África e na Ásia exercendo posições de relevância em empresas e organizações internacionais, o que mostra o potencial de nossa força de trabalho.

    A eleição de Azevêdo não foi resultado apenas da evolução econômica global das últimas décadas, mas também da capacidade do profissional brasileiro de se afirmar por trabalho, por competência, por qualificação técnica e por equilíbrio emocional.

    Sua vitória em Genebra prova que o investimento em educação e a meritocracia podem nos levar muito mais longe.

  7. O Puggina equivoca-se quando recomenda a entrada livre, sem critérios, do Brasil no jogo da Globalização. Argumenta que isso é um avanço, pois, segundo ele,os países do Primeiro Mundo o fizeram sem receio. Ora, aqui é que reside o engano. Quem tem o domínio da tecnologia e indústria desenvolvida pode muito bem competir com os seus semelhantes. Mas, se isso for feito de forma indiscriminada no Brasil, sem um sensato projeto de defesa e ampliação da indústria genuninamente nacional,iremos, oficialmente e por via indireta, voltar à condição anterior à de 1822. Ou seja, de colônia. Com a única diferença: teremos várias metrópoles, ao invés de uma.

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