Sumir e assumir

Carlos Chagas

Até ontem a permanência de Carlos Lupi no ministério do Trabalho estava por dias. Agora, está por horas. Melhor ele faria caso sumisse. E a presidente Dilma, se assumisse, ou seja, não deixando  a operação  por conta do PDT, mas apenas convocando o ministro, exigindo que se  demitisse. Pedir ao partido para resolver a crise já completada é reconhecer que o ministério do Trabalho pertence menos ao governo do que ao PDT. Afinal, mesmo nomeando o novo ministro, parece que a presidente reconhecerá o feudo, isto é, escolherá quem os pedetistas indicarem. Senão o mesmo, o risco será de o sucessor de Lupi continuar beneficiando seus companheiros, como se fossem donos do ministério.                                               

A oportunidade, salvo engano, abre-se para uma revisão do loteamento do governo pela sua base parlamentar. Fácil não parece, por conta do PT e do PMDB, que se julgam condôminos ou até donos do poder.  Essa estratégia para assegurar maioria no Congresso pode ter  dado certo  no governo Lula, mas esgotou-se no governo Dilma. Afinal, os  ministros são responsabilidade dela, na medida em que a História julgará  sua administração, não a performance  dos partidos.                                               

Tomar dinheiro de ONGs e de empreiteiras, usar as estruturas dos ministérios para premiar companheiros e filiados, usufruir de vantagens patrocinadas  por clientes – tudo isso desaparecerá  nas crônicas futuras. Ficará apenas o sucesso ou o malogro do governo, na dependência da mudança do modelo falido de dividir o ministério em capitanias hereditárias.

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100 MIL CIDADÃOS VÃO PAGAR IMPOSTOS?

Nem tudo são flores e festas na ocupação pela polícia de mais três favelas cariocas. Na Rocinha, por exemplo, com população calculada em 100 mil pessoas, pacificação e incorporação significam a presença do poder público no morro. A prevalência da lei sobre o crime organizado. Será que os  moradores,  a partir de agora, terão que pagar impostos e taxas de água, luz, lixo e sucedâneos? Receberão as notas do IPTU, IPVA  e contribuições variadas, além das cobranças da Receita Federal? O comércio até agora informal lá instalado precisará enfrentar o monte de exigências feitas às empresas do asfalto? 

O preço da liberdade é caro. Logo os indigitados habitantes do morro lembrarão que no tempo dos traficantes os cobradores não entravam. E se entrassem,  não saiam.   Ninguém pagava pela lâmpada acesa ou o aparelho de  televisão ligado. Os “gatos” eram protegidos e até instalados pelos bandidos.

O grave é que se o governo deixar as coisas como estão, sem cobrar nada de ninguém, estará abrindo mão de sua autoridade e de sua razão de ser.  Mas se cobrar, não estará  alimentando o saudosismo na maior parte da comunidade?

Eis aí um grande nó a desatar,  não apenas pela municipalidade,  mas pelo estado do Rio e por Brasília. Sem, falar em votos pretensamente conquistados  mas em vias de escoarem morro abaixo.

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ARMADILHA PARA MARTA 

Quantas vezes já foi oficialmente lançada a candidatura de Fernando Haddad a prefeito de São  Paulo? Inúmeras, desde que o ex-presidente Lula lembrou seu nome pela primeira vez. Ainda na semana passada houve reunião do PT para saudar o candidato e celebrar a retirada dos dois últimos aspirantes  ao cargo. Pois está marcada para o dia 27 nova solenidade, que ainda pareça longe da convenção municipal prevista para o ano que vem. Dessa vez há uma espécie de armadilha para levar  Marta Suplicy a comprometer-se de modo formal  com Haddad. Quer dizer, se a senadora não for, a reunião será apenas um vídeo-tape das anteriores.  

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A CAPITAL DAS GREVES

Só esta semana, estão parados os enfermeiros da rede pública de saúde, aqui em Brasília. Isso significa a interrupção das cirurgias, consultas e até atendimentos de emergência,  apesar  de 30% dos profissionais  anunciarem estar trabalhando, conforme a lei. O desastre é muito grande, pois já faltam médicos em todos os hospitais, inclusive no pronto-socorro.

Os policiais civis  estão em greve há quinze dias, com as delegacias registrando  apenas casos de assassinato e estupro. Todas as investigações encontram-se paralisadas, assim como as demais atribuições da Polícia Civil.

Parados também estão os funcionários da CEB, a Companhia Energética de Brasília, empresa já famosa pelos apagões com que brindava a população local em dias de trabalho normal. Imagine-se agora. Faltou energia? Compre a sua vela.

Esses três exemplos são a medida de como, não apenas na capital federal, mas no país inteiro, as greves são feitas contra o povo, não contra os patrões, no caso,  o poder público estadual. Como o governador e seus principais assessores dispõem de planos de saúde, de segurança militar e de geradores em seus palácios e  mansões, não estão nem aí, como não estiveram nas sucessivas greves dos transportes públicos.

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