Suplicy disposto a enfrentar o Lula

Carlos Chagas

Mais do que atropelar a debilitada  candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo, mostra-se o senador Eduardo Suplicy disposto a bater de frente com o próprio presidente Lula, mentor principal da proposta de união das forças governistas em torno do ex-ministro da Integração Nacional, que é do PSB.  Primeiro porque Ciro dá  sinais de recusar a aventura paulista, não obstante haver transferido seu título eleitoral para São Paulo. Depois, porque Suplicy continua  ampliando seu apoio junto aos companheiros do estado, infensos a abrir mão da principal disputa regional de outubro próximo.

O senador de onze milhões de votos  sustenta a realização de uma prévia junto às bases do PT de São Paulo,  onde além de bater de longe a hipótese Ciro Gomes, parece  suplantar a ex-mulher, Marta, o colega Aloísio Mercadante e, se for preciso, o ex-ministro Antônio Palocci.

Faz muito que o presidente Lula e Eduardo Suplicy se estranham. O primeiro-companheiro não engoliu, até hoje, a exigência da  realização de  uma prévia para escolher o candidato presidencial, em 2002, que venceu de barbada mas precisou expor-se a um debate com o senador. Acha que Suplicy não é confiável  e até lembra derrotas  anteriores por ele colhidas no plano estadual e municipal.

O diabo é encontrar argumentos para dizer que Suplicy não pode ser candidato. Não pode por que? Foi o senador mais votado do partido e detém a maior parte das bases estaduais.  Mantém postura de fidelidade ao PT, no Senado, mesmo  mesclando-a com pitadas de  independência.

No Congresso  que os companheiros realizarão em São Paulo, na segunda quinzena de fevereiro, o tema  ameaça suplantar até mesmo a maciça manifestação em prol da candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República. O favoritismo óbvio de Geraldo Alckmin, pelos  tucanos, reacende no PT aquela chama de luta,  característica do passado  que a necessidade de acordos estaduais com os partidos aliados não parece capaz de apagar.

Se os tribunais não atrapalharem

Desde segunda-feira que Brasília vive dias de tensão. Um juiz de primeira instância, José Álvaro Cialini, da Segunda Vara de Fazenda Pública do Distrito Federal, determinou o afastamento imediato do deputado Leonardo Prudente da presidência da Câmara Legislativa. Flagrado botando montes de dinheiro até nas meias, o deputado licenciou-se mas depois reassumiu a função, chocando a cidade inteira porque a ele caberia conduzir o  processo de impeachment do governador Arruda, seu aliado, bem como as  representações contra o seu próprio mandato e de mais oito colegas, tudo por denúncias de corrupção. Seu afastamento exprimiu um refrigério para a opinião pública da capital federal, mas o temor de muita gente é de que a decisão do juiz venha a ser revista por algum tribunal superior, seja o Tribunal de Justiça do DF, seja o Superior Tribunal de Justiça ou até mesmo o Supremo Tribunal Federal. É o que vem acontecendo com outras decisões adotadas na primeira instância do país inteiro.

Mesmo diante da sentença sobre a existência de fortes indícios de que  Leonardo Prudente cometeu delitos gravíssimos, há quem imagine a complacência dos   tribunais superiores, como nos casos recentes de processos contra empreiteiras e  grandes  empresários. Se isso acontecer, Brasília pega fogo.

Um na mão ou dois voando?

Os líderes do PMDB mais chegados ao deputado Michel Temer são de opinião  que o partido não deve precipitar-se nem exigir do presidente Lula que defina de imediato quem será o companheiro de chapa de Dilma Rousseff. É claro que o ego do presidente da Câmara foi atingido quando o primeiro-companheiro sugeriu que o PMDB lhe enviasse uma lista tríplice de candidatos em vez de uma  indicação única. Mesmo assim, a hora seria de cautela. A  candidata continua mal nas pesquisas. Se as eleições fossem hoje,  seria derrotada por José Serra. Para que queimar Michel, cuja presença na presidência da Câmara parece assegurada no biênio 2011-2012? Até porque, o PMDB não formalizou seu apoio a Dilma. Ninguém garante que não possa optar pelo governador de São  Paulo ou pela candidatura própria,  do governador Roberto Requião.

Plebiscito extemporâneo

Impulsionadas por mais uma inusitada proposta do III Plano Nacional dos Direitos Humanos, bancadas do PT e de partidos afins, mesmo minoritárias, quando da reabertura dos trabalhos do Congresso, em fevereiro, deverão propor a realização  imediata de um plebiscito nacional para saber se o presidente Lula deverá permanecer no governo por mais um mandato.

Parece piada, até de mau gosto, mas não submergiu entre os companheiros a tese de que se for para perder com Dilma,  melhor será vencer com o Lula, apesar das limitações democráticas.    O plebiscito está  previsto na Constituição para temas de relevância nacional e não será difícil, se houver estímulo do palácio do Planalto, o Congresso aprová-lo a toque de caixa. É bom tomar cuidado.

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