Surto psicótico no trânsito põe em xeque a periodicidade do exame psicológico para motoristas

Milton Corrêa da Costa

O administrador de empresas e artista plástico Michel Goldfarb Costa, de 33 anos, que atualmente não exercia atividade profissional e vivia de aplicações financeiras na Bolsa de Valores, causou, na manhã do dia 9, a um verdadeiro “dia de fúria” e pânico no trânsito de São Paulo, gerado por um surto psicótico dos mais violentos e inusitados. Roubou carros, provocou acidentes e deu cerca de vinte tiros pra todos os lados, dizendo-se- “perseguido”.

Apresentou-se dois dias depois num Distrito Policial, após ter sido decretada sua prisão temporária. Foi indiciado por tentativa de homicídio (uma das vítimas foi baleada gravemente na barriga e uma outra de raspão), roubo de carro e disparo a esmo de arma de fogo, além de crimes de dano, tendo colidido, durante a tresloucada ação, com dois automóveis e um ônibus, numa cena típica de filme americano: “Velozes e furiosos”

O delegado Marcos Antônio Manfrin disse acreditar que o administrador tenha tido mesmo um surto psicótico. “Aparentemente não há motivação, a não ser um surto”, afirmou. A namorada de Michel Costa prestou depoimento e o descreveu como uma pessoa fechada, com poucos amigos e quase nenhum contato com a família, e que não trabalhava.

Não é a primeira vez que surtos psicóticos acontecem no trânsito brasileiro, ainda que tal fato tenha sido inédito em sua tipificidade. Na noite de 23 de julho de 2008, no Rio de Janeiro, um cidadão, ao atravessar uma rua em companhia de seus dois filhos e por haver reclamado de um motorista, que momentos antes avançara o sinal vermelho, foi por ele agredido com um barra de ferro. Em estado de coma, sofreu uma cirurgia no cérebro. Até hoje tem sequelas pela brutal e injustificada agressão.

O motorista era portador de esquizofrenia paranóide. Os dois filhos da vítima, que presenciaram a cena, de 13 e 14 anos, na ocasião, também poderão adquirir graves sequelas psicológicas. No mínimo, terão aprendido que vivemos no mundo globalizado da violência, também produzido pelo comportamento assassino no trânsito.

No ano passado, num terminal rodoviário no Rio, um jovem de 25 anos resolveu furtar um ônibus (a chave encontrava-se na ignição e o motorista ausente), percorrendo, em desabalada e perigosa carreira, um trecho de mais de 20 km, causando no trajeto vários acidentes e sendo perseguido pela polícia. Ele retornava de um festa, era usuário de drogas e havia consumido bebida alcoólica em demasia, numa mistura explosiva que tem dado causa a muitas tragédias no trânsito brasileiro.

Tais fatos, de extrema agressividade e loucura ao volante, colocam em xeque atuais normas do Conselho Nacional de Trânsito quanto à necessidade da realização, quando da renovação da carteira de habilitação,deexame psicológico também para motoristas amadores. Atualmente a obrigatoriedade é para apenas para quem exerce atividade remunerada ao volante.

Quantos motoristas amadores, após a primeira habilitação, com o passar dos anos adquirem graves doenças mentais, alguns vivendo ad eternum à base de remédios controlados, e continuam dirigindo? Quantos são dependentes de drogas ilícitas e dirigem? Os Departamentos Estaduais de Trânsito têm ciência disso? Têm controle sobre essa grave questão? Por que não incluir imediatamente o exame psicológico na renovação da carteira, de 5 em 5 anos, também para motoristas de categoria A (motociclistas) e B (carros de passeio)?

Nesse contexto de perigo iminente em vias públicas coloca-se também em xeque a Psicologia de Trânsito, ciência que estuda e diagnostica o comportamento de condutores de veículos. Não há dúvida que a Psicologia de Trânsito precisa evoluir para detectar tendência a distúrbios psicóticos e dependência de drogas.

Fica aqui a proposta ao Conselho Nacional de Trânsito. A sociedade não pode ficar também a mercê dos loucos do volante. Trânsito é meio de vida, não de comportamento perigoso e desajustado.

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