Temor com anonimato na Internet supera preocupao com a censura

Pedro do Coutto

Ao longo de toda a histria universal no se registra um scaso, atravs dos milnios, em que uma obra de arte, um tratado cientfico ou documento poltico que numa poca tenha sofrido censura ou interdio, e que, depois no tenha sido veiculado livremente sem censura de espcie alguma. A censura, portanto, est sempre na contramo da existncia, freiando a evoluo da cultura e assim a da prpria espcie humana. Ela, no fundo, apenas retarda o processo de percepo e se transforma sempre num obstculo ultrapassado degrau por degrau.

No Brasil, a ditadura militar que se instalou em 64 e acabou, parcialmente em 79, e depois totalmente em 85 com a eleio de Tancredo Neves e a posse de Jos Sarney, fornece uma srie interminvel de exemplos ridculos. O ltimo Tango Em Paris, um deles, hoje exibido nas sesses da tarde das tevs. Outro, o livro O Casamento, de Nelson Rodrigues. Mais um, a novela Roque Santeiro. Mas h centenas de outros, a exibio do Ballet Bolshoi, pela Rede Globo, composies de Chico Buarque, Vincius de Moraes e Tom Jobim.

Assistindo a palestra dos jornalistas e escritores Carlos Heitor Cony, meu velho amigo do Correio da Manh, e de Artur Xexo, sbado passado, no espao cultural de Furnas, aberto ao tema da arte, eu pretendia colocar esta questo-smbolo, incluindo os episdios judiciais que envolveram os escritores mile Zola (caso Dreyfuss), Gustave Flaubert (Madame Bovary) e D. H. Lawrence, O Amante de Lady Chatterley, mas perdi a oportunidade de ouvi-los sobre a censura que, no passado, desabou sobre tais obras altamente importantes.

Perdi a oportunidade de focalizar o assunto, que daria margem s colocaes e palavras inteligentes de Cony e Xexo, porque o espao terminou sendo absorvido pelo temor ao anonimato que est transbordando na Internet, nos sites, nos blogs, twitters, enfim nas telas mgicas dos computadores.

A platia que ocupava o auditrio de Furnas, aberta a participao, revelou-se intensamente preocupada com o fenmeno para o qual, na verdade, no h nem censura, tampouco limites. Porm tal temor no era manifestado somente pelo pblico, mas igualmente pelos dois artistas. Referiram-se ao que classificaram como lixo ciberntico, perigoso e contaminador. No so manifestaes de arte, ou opinies independentes sobre as questes de hoje.

Em nmero acentuadamente alto representam absurdos, agresses seguidas, sintomas de desequilbrio emocional, alm de aberraes, ofensas e at perverses. So comuns no espao livre porque seus autores usam facilmente o anonimato e, sentindo-se isolados como se viajassem alm da realidade numa espcie de nave espacial fora de lei da gravidade responsvel, consideram-se imunes lgica.

Combater qualquer tipo de censura arte, cincia, poltica, simples. Basta citar os artigos 5, 220 e 222 da Constituio Federal. Impedem taxativamente qualquer tipo de censura ou restrio livre manifestao do pensamento. o que afirma, por exemplo, item 4 do artigo 5. Mas o mesmo dispositivo veda o anonimato e assegura o direito de resposta. O pargrafo 3do artigo 222 estende exatamente o mesmo princpio comunicao eletrnica. Mas como exercer concretamente tal direito? Como fixar a responsabilidade se as sombras protegem os autores das agresses inteligncia, moral e tica?

O terrvel episdio dos assassinatos mltiplos e covardes da escola de Realengo serve de emblema. Basta conferir o que est nos sites e blogs. Preocupou intensamente Cony e Xexo. Expressaram isso em Furnas. Preocupa a todos ns. No se trata de censurar. Mas o de colocar pelo menos o fim ao anonimato, alis como a prpria Constituio determina. Cada um diz o que quer. Mas fica responsvel pelo que afirmar. Estritamente dentro da lei e da liberdade. E tambm da responsabilidade.

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