Tentar manter o ministro Orlando Silva foi um dos maiores erros do governo Lula Rousseff. Não adiantou nada e aumentou o desgaste, desnecessariamente.

Carlos Newton

A blindagem do ministro do Esporte, Orlando Silva, determinada sexta-feira passada pelo ex-presidente Lula e acatada pela presidente Dilma Rousseff, representou um dos maiores erros de avaliação política dos últimos tempos, por dois motivos: primeiro, porque prejudicou o governo Lula Rouseff interna e externamente, em função da Copa do Mundo; e segundo, porque não adiantou nada e o ministro acabou tendo de ser demitido.

O golpe fatal em Orlando Silva já tinha sido dado pela ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao abrir inquérito para apurar a participação do ministro nas fraudes do Programa Segundo Tempo, que tinha como objetivo incentivar a prática esportiva entre jovens e crianças.

Como se sabe, a ministra deu dez dias de prazo para que o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União enviem cópias de procedimentos abertos para investigar as irregularidades nos contratos do programa. Além disso, exigiu do Ministério do Esporte cópias de procedimentos abertos para apurar contratos com a Federação Brasiliense de Kung Fu (Febrak), a Associação João Dias de Kung Fu, o Instituto Contato e a ONG Bola pra Frente.

No mesmo despacho, a ministra Carmem Lúcia pediu ao Ministério cópia de todos os convênios firmados no Programa Segundo Tempo, com o nome do responsável, as cifras transferidas e a situação da prestação de contas. Por fim, a relatora também pediu que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) envie ao Supremo o inquérito já aberto contra Orlando Silva e seu antecessor no Ministério, Agnelo Queiroz, que atualmente é governador do Distrito Federal.

De posse dos dois inquéritos, a ministra então poderá examinar se é o caso de unir as apurações num só processo, com sugeriu o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao pedir a abertura do inquérito no Supremo, em ofício enviado sexta-feira passada solicitando investigação contra Agnelo Queiroz e Orlando Silva. O documento de Gurgel tem seis páginas e traz, em anexo, representações, inquéritos policiais e reportagens veiculadas na imprensa sobre o assunto.

“Embora o procurador-geral da República ainda não tenha tido acesso aos autos do referido inquérito (que já tramitava no STJ), os elementos que instruem as representações apontam no sentido de que o Programa Segundo Tempo seria utilizado para desviar recursos para o PCdoB, partido ao qual Orlando Silva é filiado. Agnelo Queiroz foi filiado ao PCdoB até 9 de julho de 2008”, assinalou Gurgel na representação, acrescentando:

“Há fortes indícios de irregularidades na execução do Programa Segundo Tempo do Ministério do Esporte, cujos recursos seriam desviados em proveito de integrantes do PCdoB, entre os quais, supostamente, o ministro Orlando Silva e o governador Agnelo Queiroz”.

Como se diz no linguajar da malandragem em relação ao jogo-do-bicho, com as decisões do procurador-geral e da ministra do Supremo, Orlando Silva e Agnelo Queiroz ficaram “cercados pelos sete lados”. A demissão do ministro, portanto, era simples questão de tempo. Deveria ter saído logo. Doeria menos e o governo Lula Rousseff não ficaria sendo desmoralizado, dia após dia.

Quanto ao governador Agnelo Queiroz, vai penar prolongamente e pode sofrer impeachment. Conforme este Blog da Tribuna já publicou há mais de um ano, Queiroz decididamente não é um cidadão acima de qualquer suspeita. Pelo contrário, enriqueceu espetacularmente nos últimos anos, embora fosse um simples funcionário público, antes de assumir o ministério.

De todo o lamentável episódio, resta uma lição para o ex-presidente Lula, que se intrometeu diretamente nos cinco casos de corrupção atingindo ministros: Antonio Palocci (Casa Civil), Alfredo Nascimento (Transportes), Wagner Rossi (Agricultura), Pedro Novais (Turismo) e Orlando Silva (Esporte).

Se Lula não tivesse se metido, sexta-feira passada, mandando Orlando Silva continuar no cargo e o PCdoB resistir à pressão, teria poupado a presidente Dilma Rousseff de mais esse constrangimento. O ministro teria pedido demissão semana passada e o assunto não teria rendido tanto. Mas Lula parece ter perdido o senso de medida e ainda pensa que está na Presidência.

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