Thomaz Bastos ajuda Dilma a escolher ministra para o Supremo?

Pedro do Coutto

Reportagem de Carolina Brígido, O Globo de terça-feira, revela que o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, que defende diretamente junto ao STF um dos réus do mensalão, José Roberto Salgado, ex-diretor do Banco Rural, teve audiência com a presidente Dilma Roussef. Um dos objetivos do encontro, segundo o próprio Thomaz Bastos, (está no jornal) foi ajudá-la a decidir qual a jurista que nomeará para substituir Ellen Gracie na Suprema Corte.

Será possível? Difícil acreditar na versão. Como? Pois se advoga para um acusado exatamente no Supremo, deveria considerar-se impedido. Eticamente. Não é a melhor fonte de consulta, neste caso, para o Palácio do Planalto. Ainda por cima acrescentou que a presidente da República deseja escolher uma mulher para a vaga. Precipitou-se ao ser entrevistado pela repórter e se tornou inconfidente.Vejam os leitores como todos os seres humanos são falíveis. Tropeçam, sonham, às vezes tentam forçar definições, em alguns casos buscam aparentar um poder que não têm. Exageram na dose. Deslumbram-se.

A vida está cheia de exemplos e, como no belo verso de Vinicius de Moraes, a vida tem sempre razão. Falei em ética e precipitação. Sem me afastar do tema, olhem só outro caso. Este publicado na folha de São Paulo, também de terça-feira, matéria  procedente da sucursal de Brasília, sem assinatura.

Perguntado sobre seu encontro no Hotel Naoum com o ex-ministro José Dirceu e a respeito de incidente em que se envolveu com a presidente Dilma Rousseff, o presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, afirmou não ser fato que tenha chorado ao final do desentendimento. E acentuou com todas as letras: ela gritou comigo, eu também gritei com ela. Quanto ao encontro com José Dirceu, assinalou: não tenho que dar satisfações. Ele é meu amigo e um líder incontestável.

Francamente, penso que a demissão de Gabrielli é questão de pouco tempo. Ninguém pode dizer, muito menos publicamente que grita com a presidente da República.A menos que Dilma Rousseff não possua amor próprio e abra mão de sua autoridade. Não é o caso. Com Gabrielli, repete-se o caso Nelson Jobim. Mas, no fundo da questão, acho que Gabrielli sentiu que iria sair. Assim não fosse, não teria politicamente procurado José Dirceu.

Voltando a Thomaz Bastos e ao escândalo do mensalão: explodiu no governo em 2005. A denúncia foi formalizada pelo procurador geral  e aceita em 2007 pelo STF com base em primoroso relatório do ministro Joaquim Barbosa. Eu disse  que o ex-titular da Justiça no primeiro mandato de Lula advoga diretamente para José Roberto Salgado.Sim. Mas, indiretamente, o campo da defesa que arquitetou é mais amplo.Tanto assim que afirmou a Carolina Brígido que não vê razão para os que perderam direito ao foro especial continuarem a ser julgados pelo Supremo. Entre vários outros, é verdade, já que o elenco de réus do mensalão é muito extenso. Por que um advogado criminalista experiente como Thomaz Bastos adota esta tática?

Simplesmente porque o STF vai julgar os acusados em 2012, sete anos depois do episódio e cinco após a aceitação da denúncia. Porém se a Corte Suprema aceitar a tese de Bastos, exceto quanto a João Paulo Cunha e Valdemar Costa Neto, todos os demais processos retornam à Justiça Comum. À primeira instância. Tudo volta à estaca zero. Os julgamentos serão divididos à base de um para cada réu, e os desfechos ficam para daqui a  vinte anos. Vinte anos depois, aliás título da obra de Alexandre Dumas, pai, fechando a saga dos mosqueteiros. Coisas da política. Aí cito o grande Carlos Castelo Branco, titular dessa coluna no Jornal do Brasil. Para finalizar: Bastos se precipitou. Mas não creio que Dilma Rousseff vá na onda.

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